Empreendedorismo como caminho para autonomia da mulher negra periférica

1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, sendo 62,6% delas mulheres negras, perpetuando ciclo de violência estrutural.
Dependência econômica funciona como uma prisão silenciosa
O artigo argumenta que a autonomia financeira é tão essencial quanto proteção legal para mulheres escaparem da violência doméstica.
Mark

Por que você acha que a Lei Maria da Penha, sendo um marco, não consegue sozinha resolver o problema do feminicídio?

Mimi

Porque lei pune, mas não transforma a realidade material. Uma mulher pode ter proteção legal e ainda estar presa a um homem violento por não ter como se sustentar. A lei abre a porta, mas a dependência econômica a mantém dentro.

Mark

Então o empreendedorismo é a solução?

Mimi

Não é solução mágica. É um caminho concreto. Quando você oferece qualificação, acesso a renda e ferramentas para gerar seu próprio dinheiro, você dá à mulher o poder de escolher sair. Sem isso, a escolha é ilusória.

Mark

Por que especificamente tranças? Por que não outro ofício?

Mimi

Porque é um mercado que já existe, que paga bem, que não exige investimento inicial gigantesco e que valoriza o conhecimento que muitas mulheres negras já têm. É prático. É viável. É imediato.

Mark

Três mil e quinhentas mulheres em três anos — é um número que muda algo em um país onde 62,6% das vítimas de feminicídio são negras?

Mimi

Não muda tudo. Mas muda a vida de 3.500 mulheres. E cada uma delas pode influenciar outras. É um começo que prova que a mudança é possível, que não é destino inevitável.

Mark

O que muda quando uma mulher se formaliza como MEI?

Mimi

Muda tudo. Ela deixa de ser invisível. Tem direitos previdenciários, pode se aposentar, tem proteção se ficar grávida ou incapacitada. Deixa de ser apenas uma mulher trabalhando na informalidade e vira uma profissional com direitos.

  • Em 2025, 1.470 mulheres foram mortas por feminicídio no Brasil — e quase dois terços delas eram negras, revelando que a violência doméstica é também uma questão de raça e território.
  • A dependência financeira funciona como uma segunda prisão: sem renda própria, muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque a alternativa parece o vazio.
  • A Universidade Zumbi dos Palmares capacitou gratuitamente 3.500 mulheres negras em trancismo, oferecendo não apenas uma profissão, mas acesso a MEI, direitos previdenciários e plataforma de vendas.
  • No dia 22 de agosto, mais mil mulheres receberam diploma, kit profissional e R$ 150 de crédito inicial — um ponto de partida concreto para quem precisa que a liberdade tenha sustento.
  • O programa sinaliza uma mudança de paradigma: políticas de enfrentamento à violência precisam incluir qualificação e geração de renda como elementos centrais, não como apêndices.

No Brasil, onde 62,6% das vítimas de feminicídio em 2025 eram mulheres negras, a lei sozinha revela seus limites: punir o agressor não desfaz a prisão invisível da dependência econômica. A Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, propõe uma resposta concreta — formar mulheres negras e periféricas como trancistas, abrindo caminho para renda, formalização e autonomia. É um gesto que reconhece o que as estatísticas insistem em mostrar: romper com a violência exige, antes de tudo, que a saída tenha chão firme do outro lado.

A Lei Maria da Penha trouxe visibilidade a uma violência que vivia escondida, mas os números de 2025 expõem seus limites: 1.470 mulheres foram mortas por feminicídio no Brasil, e 62,6% delas eram negras. Não é apenas uma estatística — é um padrão que revela como a violência doméstica é mais letal e mais invisível quando a vítima é negra e periférica.

Punir o agressor é necessário, mas deixa em aberto uma pergunta essencial: como uma mulher negra e periférica rompe de verdade com o ciclo da violência? A resposta passa pela autonomia econômica. Muitas permanecem em relacionamentos abusivos porque sair significa não ter renda, não ter como sustentar a si mesma e aos filhos. A dependência financeira é uma prisão tão eficaz quanto qualquer muro.

A Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, entendeu isso e criou um programa de formação em trancismo voltado a mulheres negras e periféricas. Em três anos, 3.500 mulheres foram capacitadas gratuitamente para uma profissão em expansão — um serviço de tranças pode gerar, em média, R$ 300 por atendimento. Quem quer empreender recebe orientação para se formalizar como MEI, ganhando acesso a aposentadoria, salário-maternidade e outros direitos previdenciários.

No dia 22 de agosto, mais mil mulheres foram formadas em parceria com o Ministério do Empreendedorismo e a Unifesp. Cada uma saiu com diploma, kit profissional e R$ 150 de crédito inicial. É pouco diante da escala do problema — mas é concreto. Quando uma mulher tem qualificação e renda, ela ganha a capacidade de fazer escolhas: pode fechar a porta de um relacionamento violento e encontrar do outro lado não o vazio, mas uma oportunidade.

A Lei Maria da Penha transformou o Brasil. Trouxe à luz uma violência que vivia escondida atrás das portas fechadas, alimentada pelo silêncio das vítimas e pela indiferença coletiva. Mas os números revelam uma verdade incômoda: a lei, sozinha, não é suficiente. Em 2025, o Ministério da Justiça registrou 1.470 mulheres mortas por feminicídio no país. Desse total devastador, 62,6% eram mulheres negras. Não se trata apenas de uma estatística. É um padrão que expõe como a violência doméstica não atinge todas as mulheres com a mesma força — ela é mais letal, mais sistemática, mais invisível quando a vítima é negra e periférica.

Punir o agressor e proteger legalmente a vítima são passos necessários. Mas eles deixam em aberto uma pergunta crucial: como uma mulher negra e periférica consegue romper de verdade com o ciclo da violência e reconstruir sua vida? A resposta passa por algo que raramente entra nas conversas sobre feminicídio: autonomia econômica. Muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque a alternativa parece pior — sair significa não ter renda, não ter trabalho, não ter como sustentar a si mesma e aos filhos. A dependência financeira funciona como uma prisão invisível, tão eficaz quanto qualquer muro. Ignorar essa dimensão é fingir que o problema da violência doméstica pode ser resolvido apenas com leis e punições, quando na verdade exige transformação material das condições de vida.

É por isso que educação, qualificação profissional, geração de renda e estímulo ao empreendedorismo precisam fazer parte das políticas de enfrentamento à violência. Não como complemento, mas como elemento central. A Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, entendeu isso e criou um programa de extensão comunitária focado em formar mulheres negras e periféricas na profissão de trancista. Em três anos, a iniciativa capacitou gratuitamente 3.500 mulheres. Não é apenas um curso — é uma porta de entrada para um mercado em expansão onde um serviço de tranças pode gerar, em média, R$ 300 por atendimento.

Para quem quer ir além e empreender, o programa oferece orientação para formalização como microempreendedora individual (MEI), um status que abre acesso a direitos previdenciários: aposentadoria, salário-maternidade, auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte. As participantes recebem ferramentas práticas, acesso a uma plataforma para oferecer seus serviços e apoio financeiro inicial para colocar o negócio em pé. No último sábado, 22 de agosto, a universidade entregou à sociedade paulistana mais mil mulheres formadas como trancistas, em parceria com o Ministério do Empreendedorismo e apoio da Unifesp. Cada uma saiu com diploma, kit profissional e R$ 150 de crédito inicial para começar a operar.

É pouco diante da escala do problema — ninguém discute isso. Mas representa algo concreto: a prova de que a violência doméstica não precisa ser o destino inevitável das mulheres negras e periféricas. Quando uma mulher tem qualificação, acesso a renda e possibilidade de empreender, ela ganha algo que vai além do dinheiro — ganha a capacidade de fazer escolhas. Pode sair de uma relação abusiva sem cair em outra prisão: a da dependência econômica. Combater a violência, portanto, também significa criar as condições concretas para que uma mulher possa fechar a porta de um relacionamento violento e encontrar do outro lado não o vazio, mas uma oportunidade.

Combater a violência também significa criar condições para que uma mulher possa partir sem que, ao fechar a porta de uma relação abusiva, encontre do outro lado uma nova prisão: a dependência econômica
— Argumento central do artigo
Fale Conosco FAQ