Das cinzas de um restaurante amado que a pandemia apagou, nasceu no coração de Lisboa uma nova expressão de resistência culinária. O Duro de Matar — nome que é ao mesmo tempo trocadilho e manifesto — chega ao Time Out Market como o primeiro restaurante mexicano da seleção, trazendo consigo uma filosofia que une a autenticidade dos sabores do México à terra e aos produtores portugueses. É a história de dois fundadores que recusaram deixar morrer aquilo que construíram, e que encontraram na adversidade o combustível para reinventar.
Duro de Matar: a ressurreição da comida mexicana em Lisboa
Conto histórias com comida. Tudo faz parte de uma narrativa.
Como é que se passa de um restaurante que fechou durante a pandemia para estar num mercado como o Time Out?
Não foi uma volta direta. Depois do Pistola y Corazón fechar, experimentámos numa dark kitchen, lançámos outros projetos. Mas o Duro de Matar nasceu no Beato em 2023 — um espaço físico onde conseguimos provar que o conceito funcionava. O Time Out foi um convite natural depois disso.
O nome é claramente uma brincadeira com Die Hard. Mas há algo mais profundo aí?
Sim. Literalmente, somos difíceis de matar — a pandemia não nos matou. Mas também é sobre a comunidade. Temos fãs fervorosos, pessoas que nos seguem de um lado para o outro. O nome encapsula tudo isso: resistência e lealdade.
Porque é que a origem dos ingredientes importa tanto?
Porque muda o sabor e o significado do prato. Quando trabalhas com um produtor o ano todo, quando sabes exatamente quantas curgetes ele vai plantar para ti, estás a criar uma relação. O cliente não sabe disso, mas sente. É comida com história.
Há uma vaca sem nome. Como é que isso acontece?
Partilhamos uma vaca Jersey com o produtor Ortodoxo. Eles fazem os queijos, nós damos feedback, experimentamos. É uma colaboração real. Ainda não a batizámos, mas temos nomes candidatos. É um detalhe pequeno, mas representa como trabalhamos.
Damian deixou o jornalismo para fazer isto. Não é um risco enorme?
Para ele, a gastronomia é a forma de contar histórias que o jornalismo não conseguia. Diz que se ganhasse um milhão de euros amanhã, continuava em restaurantes. Gosta da hospitalidade — é uma das poucas transações honestas que ainda existem.
O que muda agora que estão no Time Out Market?
Passam milhares de pessoas por dia. É quase um verdadeiro mercado de restaurantes. Mas o que não muda é a filosofia. Continuamos a contar histórias com comida, a mudar constantemente, a aborrecermo-nos quando é tudo igual.
Der Puls
- O encerramento forçado do Pistola y Corazón durante a pandemia deixou um vazio real na vida gastronómica de Lisboa — e uma comunidade de seguidores sem o seu ponto de encontro.
- Em vez de desistir, Damian Irizarry e Marta Fea relançaram o projeto como dark kitchen, depois abriram no Beato, e agora conquistaram um lugar no Time Out Market no Cais do Sodré.
- O menu desafia a ideia de que autenticidade e localismo são opostos: tacos com porco preto português, tomatillos cultivados em Portugal e polvo numa homenagem direta à tradição culinária local.
- A obsessão com a origem dos ingredientes vai ao ponto de planear anualmente com agricultores o que será plantado — e de partilhar uma vaca Jersey com um produtor parceiro que ainda aguarda nome.
- Mexicanos chegam céticos e saem emocionados; lisboetas fazem questão de voltar — o Duro de Matar está a construir algo raro: fidelidade genuína num espaço dominado por turistas.
Das cinzas de um restaurante amado que a pandemia apagou, nasceu no coração de Lisboa uma nova expressão de resistência culinária. O Duro de Matar — nome que é ao mesmo tempo trocadilho e manifesto — chega ao Time Out Market como o primeiro restaurante mexicano da seleção, trazendo consigo uma filosofia que une a autenticidade dos sabores do México à terra e aos produtores portugueses. É a história de dois fundadores que recusaram deixar morrer aquilo que construíram, e que encontraram na adversidade o combustível para reinventar.
Quando o Pistola y Corazón fechou durante a pandemia, levou consigo o que muitos consideravam o melhor restaurante mexicano de Lisboa. Mas Damian Irizarry e Marta Fea não ficaram parados. Primeiro uma dark kitchen, depois um espaço físico no Beato em 2023, e agora uma presença no Time Out Market no Cais do Sodré — o Duro de Matar é menos um regresso e mais uma ressurreição com propósito renovado.
O nome não é acidente. "Somos difíceis de matar", explica Damian ao SAPO Lifestyle, recordando com humor os tempos do Pistola y Corazón na Rua da Boavista, quando a zona estava deserta e a única vizinhança era uma esquadra de polícia que se mudou precisamente no dia da inauguração. O trocadilho com o filme de ação é intencional — é também uma declaração de filosofia.
No Time Out Market, o Duro de Matar é o primeiro restaurante mexicano da seleção. O menu combina referências autênticas com produtos portugueses: Tacos Al Pastor com porco preto num espeto vertical, camarão ao estilo veracruzano com tomatillos cultivados em Portugal, taco de polvo que pisca o olho à tradição local, e o incontornável Pastel de Tres Leches. Apenas o milho heirloom para as tortillas artesanais vem do estrangeiro.
Por detrás do menu está uma rede cuidadosamente construída de pequenos produtores locais. O chef executivo Frederico Salvado senta-se com os agricultores em janeiro de cada ano para planear colheitas semana a semana. Compraram toda a produção de morangos de um produtor; partilham uma vaca Jersey com o queijeiro Ortodoxo. A sustentabilidade não é discurso — é logística.
Damian chegou a Lisboa por acaso, atraído por um filme de Wim Wenders, e ficou. Abriu o primeiro hostel da cidade, considerado um dos melhores do mundo, antes de a cozinha o chamar de vez. "Não sei pintar, nem desenhar. Mas conto histórias com comida", diz. Mexicanos chegam céticos e saem emocionados — alguns até às lágrimas. O Duro de Matar promete continuar a mudar, a reinventar-se, a resistir. Como qualquer boa história, está longe de terminar.
Quando o Pistola y Corazón desapareceu durante a pandemia, levou consigo o que muitos lisboetas consideravam ser o melhor restaurante mexicano da cidade. Mas da ruína nasceu o Duro de Matar — primeiro como um projeto experimental numa dark kitchen, depois como um espaço físico no Beato em 2023, e agora como a mais recente adição ao Time Out Market no Cais do Sodré. A trajetória é menos uma volta ao ponto de partida e mais uma ressurreição com propósito renovado.
Damian Irizarry e Marta Fea, os fundadores, explicam o nome com a precisão de quem viveu a experiência. "Somos difíceis de matar", diz Damian ao SAPO Lifestyle. "Isto não nos matou. Mas também temos uma grande comunidade de pessoas que nos seguem — fãs fervorosos." O trocadilho é intencional: Hard to Kill, Die Hard, Duro de Matar. Não é apenas uma referência ao filme de ação; é uma declaração de filosofia. Quando abriram o Pistola y Corazón na Rua da Boavista, a zona estava praticamente deserta. "Só nós estávamos ali. Do outro lado da rua havia uma esquadra da polícia. Dissemos: nem precisamos de câmara de vigilância!", recorda Damian com humor. A esquadra mudou-se no dia da inauguração. Com o tempo, a zona transformou-se, e o restaurante tornou-se um ponto de encontro obrigatório.
Agora, no Time Out Market, o Duro de Matar é o primeiro restaurante mexicano a integrar a seleção do mercado, ao lado de nomes como Ground Burger e ZeroZero. A proposta é clara: boa comida mexicana feita com produtos locais, frescos, com alma e com um toque de nostalgia. O menu reflete essa filosofia. Os Tacos Al Pastor (9€) trazem porco preto num espeto vertical ao estilo shoarma. Os Camarones Embarazados (7€) — um taco de camarão inspirado na tradição veracruzana — vêm com molho verde de tomatilhos portugueses, pico de gallo com ananás, habanero assado e vinagre de maçã e laranja. A Tinga de Pollo (7,50€) é apimentada e cozinhada lentamente. E há um taco de polvo (10,50€) que é um piscar de olho à tradicional salada de polvo portuguesa. As quesadillas variam entre uma versão vegetariana de cogumelos com manteiga de chipotle (5€) e carne assada (9,50€). Para beber, há slushies com álcool (8,50€), micheladas mexicanas (8,50€) — cerveja com molho inglês e limão — e uma única sobremesa tradicional: Pastel de Tres Leches (4,50€).
Mas o que distingue o Duro de Matar é a obsessão com a origem dos ingredientes. Frederico Salvado, chef executivo desde o início do projeto, trabalha com pequenos produtores locais em modo de produção biológica e sustentável. Em janeiro de cada ano, senta-se com os agricultores e planeia tudo o que será plantado e colhido nos meses seguintes. "Sabemos exatamente quantas curgetes vamos precisar por semana. Isso permite-lhes plantar em blocos e colher por fases", explica. Compraram toda a produção de morangos de um produtor, garantindo-lhe escoamento e assegurando produto fresco e local todas as semanas. Os parceiros incluem os queijos da Ortodoxo, cogumelos da zona Oeste, frango criado ao ar livre, carne do Talho das Manas, e tomatillos — tradicionalmente importados — agora cultivados em Portugal. Apenas o milho heirloom para as tortillas artesanais vem da Alemanha. Há até uma vaca Jersey partilhada com o produtor Ortodoxo, que ainda aguarda batismo.
Damian nasceu no México, cresceu nos EUA, e chegou a Lisboa por acaso — inspirado pelo filme Lisbon Story de Wim Wenders. Subiu umas escadas escuras do Rossio e encontrou-se no Bairro Alto, com DJs na rua e gente a dançar. "Percebi: era aqui que queria estar", afirma. Depois de viver em Espanha, abriu o primeiro hostel de Lisboa em Santa Catarina, que chegou a ser considerado o melhor do mundo. Mas foi a cozinha que o chamou. Convenceu Marta Fea, arquiteta, a abrir um restaurante com ele. Foram ao México, comeram em food trucks, e o resto é história.
"Não sei pintar, nem desenhar. Mas conto histórias com comida", diz Damian. "Desde o momento em que entras, tudo — a música, o ambiente, os sabores — faz parte de uma narrativa." A energia festiva do Duro de Matar no Beato está presente no Time Out Market, visível nos uniformes, na música e na estética do espaço. Mas o que não se vê — e se sente — é ainda mais importante: a constante reinvenção. "Aborrecemo-nos quando é tudo igual. Vamos estar sempre a mudar", diz com convicção. Apesar de 80% dos clientes serem turistas, há lisboetas que fazem questão de os visitar. "Os mexicanos vêm com ceticismo, mas acabam por se emocionar. Já tivemos um cliente a chorar ao provar os nossos pratos. Isso é especial", afirma Damian. O nome Duro de Matar é mais do que um trocadilho; é uma filosofia de resistência, de persistência criativa e de amor pela comida que conta histórias. E como qualquer boa história, está longe de terminar.
Bemerkenswerte Zitate
Somos difíceis de matar. Isto não nos matou. Mas também temos uma grande comunidade de pessoas que nos seguem — fãs fervorosos.— Damian Irizarry
Os mexicanos vêm com ceticismo, mas acabam por se emocionar. Já tivemos um cliente a chorar ao provar os nossos pratos. Isso é especial.— Damian Irizarry