Em um momento em que a inteligência artificial avança sobretudo pela linguagem, dois pesquisadores escolheram um caminho diferente: colocar a física — e não as palavras — no centro da máquina. Anandkumar e Jenik recusaram uma proposta bilionária ligada a Jeff Bezos e fundaram a Accelerated Understanding, apresentando ao mundo um modelo de IA capaz de prever fenômenos físicos no espaço e no tempo. A escolha deles ecoa uma questão mais antiga: o que significa, de fato, compreender o mundo?
Dupla de cientistas lança IA focada em física, rejeitando oferta bilionária de Bezos
Colocar a física no centro é uma visão centrada na natureza
Por que recusaram uma oferta de dois bilhões de dólares de Bezos?
Porque acreditavam que sua visão era fundamentalmente diferente. Não queriam ser liderados por um investidor externo — queriam manter o controle científico da direção.
Qual é exatamente a diferença entre o que vocês fazem e o ChatGPT?
O ChatGPT aprende padrões em texto. Nossa IA aprende as leis da física. Ela pode prever o que vai acontecer em um sistema físico real, não apenas adivinhar palavras.
E por que isso importa para chips e robótica?
Porque você pode simular comportamentos físicos sem construir protótipos. Menos tentativa e erro em laboratório significa menos tempo e menos custo.
A Prometheus está fazendo algo parecido?
Não exatamente. Eles querem automatizar a fabricação de sistemas complexos. É um objetivo diferente, mais focado em produção em escala.
Vocês estão em competição agora?
Não é competição. São abordagens diferentes para problemas diferentes. Nós apostamos que compreender a física profundamente é o caminho. O tempo dirá quem estava certo.
Il Polso
- Dois pesquisadores abriram mão de mais de dois bilhões de dólares em financiamento para preservar uma visão científica que consideram mais fundamental do que os grandes modelos de linguagem.
- A IA que criaram abandona a arquitetura Transformer — base do ChatGPT — e opera com operadores neurais capazes de modelar fenômenos invisíveis ao olho humano, como fluxos de calor em chips ou padrões climáticos extremos.
- A Accelerated Understanding enfrenta concorrentes poderosos: startups supervisionadas por nomes como Yann LeCun e Fei-Fei Li também disputam o espaço dos chamados 'modelos de mundo'.
- A empresa aposta em clientes corporativos — de fabricantes de chips a empresas de energia — com a promessa de substituir dezenas de modelos matemáticos frágeis por uma única IA física universal.
- Enquanto o Projeto Prometheus de Bezos levantou doze bilhões de dólares em junho de 2026, a Accelerated Understanding segue seu curso independente, com parcerias de hardware ainda não reveladas e o incentivo inicial de Jensen Huang, da Nvidia.
Em um momento em que a inteligência artificial avança sobretudo pela linguagem, dois pesquisadores escolheram um caminho diferente: colocar a física — e não as palavras — no centro da máquina. Anandkumar e Jenik recusaram uma proposta bilionária ligada a Jeff Bezos e fundaram a Accelerated Understanding, apresentando ao mundo um modelo de IA capaz de prever fenômenos físicos no espaço e no tempo. A escolha deles ecoa uma questão mais antiga: o que significa, de fato, compreender o mundo?
No final de 2024, durante um jantar em Los Angeles, Anandkumar e seu marido Jenik receberam uma proposta formal intitulada 'Projeto Prometheus'. O documento, ligado ao empresário Vik Bajaj e ao capital de Jeff Bezos, oferecia ao casal uma participação de 35% na nova empresa, salários milionários e acesso a mais de dois bilhões de dólares em financiamento comprometido. Eles recusaram.
A decisão revelou-se uma aposta filosófica tanto quanto estratégica. Anandkumar, professora no Caltech e ex-diretora da Nvidia, e Jenik, engenheiro de infraestrutura de IA, já haviam fundado a Accelerated Understanding com uma convicção clara: a inteligência artificial do futuro não deveria girar em torno da linguagem humana, mas da física do mundo natural. 'Colocar a física no centro é uma visão centrada na natureza', disse ela ao apresentar o modelo publicamente.
A tecnologia que desenvolveram dispensa a arquitetura Transformer — base de sistemas como o ChatGPT — e utiliza operadores neurais, uma abordagem que Anandkumar ajudou a conceber anos antes. Em vez de prever a próxima palavra em uma frase, o modelo prevê como fenômenos físicos evoluem no espaço e no tempo: o comportamento térmico de um chip, a trajetória de uma tempestade, a composição do subsolo em uma área de exploração energética.
A empresa mira o mercado corporativo com uma proposta ambiciosa: uma única IA capaz de responder a qualquer pergunta física, substituindo os modelos matemáticos customizados e frágeis que hoje dominam setores como robótica, climatologia e design de semicondutores. Enquanto isso, o Projeto Prometheus — que seguiu sem eles — captou doze bilhões de dólares em sua Série B em junho de 2026. A Accelerated Understanding avança em ritmo próprio, com parceiros de hardware ainda não nomeados e a memória de que foi Jensen Huang, da Nvidia, quem primeiro a encorajou a levar a ideia adiante.
Dois pesquisadores recusaram uma oferta bilionária de Jeff Bezos no final de 2024 e continuaram desenvolvendo por conta própria uma inteligência artificial radicalmente diferente do ChatGPT. Na terça-feira, Anandkumar e Jenik revelaram o que criaram: um modelo capaz de aprender e prever fenômenos físicos no espaço e no tempo, em vez de simplesmente adivinhar a próxima palavra em uma frase.
Enquanto sistemas como o ChatGPT foram treinados com dados textuais do mundo inteiro, esta IA alternativa funciona de forma completamente distinta. Ela abandona a arquitetura Transformer — aquele "T" que dá nome ao ChatGPT e foi inventada pelo Google — e utiliza uma tecnologia chamada operadores neurais, que Anandkumar ajudou a desenvolver anos atrás. A diferença é fundamental: em vez de processar linguagem, ela processa física. "A visão da inteligência centrada na linguagem coloca os seres humanos no centro. Colocar a física no centro é uma visão centrada na natureza", explicou Anandkumar, professora de ciências da computação e matemática no Caltech.
A empresa que os dois fundaram, chamada Accelerated Understanding, aposta que essa abordagem é superior aos chamados "modelos de mundo" que outras startups — supervisionadas por líderes como Yann LeCun e Fei-Fei Li — estão desenvolvendo. A tese deles é que uma forma mais versátil de operador neural, capaz de prever até fenômenos invisíveis ao olho humano, é o melhor caminho para impulsionar negócios reais. Tomem o design de chips como exemplo: enquanto outras empresas usam IA treinada em texto para programar computadores e raciocinar sobre fabricação, a Accelerated Understanding acredita que uma compreensão profunda da física é essencial para otimizar materiais e temperaturas, reduzindo drasticamente a tentativa e erro em laboratório.
Os cofundadores veem aplicações muito mais amplas. A mesma IA poderia revolucionar robótica, prever condições climáticas extremas ou analisar dados geológicos para empresas de energia. Em vez de modelos matemáticos frágeis e customizados para cada problema, uma única IA poderia responder a qualquer pergunta física que o mundo corporativo fizesse. Por enquanto, a empresa está focada em clientes empresariais, não no consumidor.
Mas como chegaram a esse ponto? No final de 2024, durante um jantar em um restaurante sofisticado na região metropolitana de Los Angeles, um investidor e empresário de biotecnologia chamado Vik Bajaj — que viria a cofundar o Projeto Prometheus com Bezos — discutiu uma colaboração com o casal. Anandkumar já havia trabalhado como cientista na Amazon, onde participou de encontros restritos sobre IA organizados por Bezos, e foi diretora da Nvidia por cinco anos. Jenik, seu marido, é engenheiro de infraestrutura de IA. Os dois já haviam fundado sua empresa.
Bajaj apresentou uma carta de oferta intitulada "Projeto Prometheus". Segundo documentos acessados pela Reuters, a proposta indicava que Anandkumar seria a representante pública da empresa, membro do conselho e responsável por sua visão científica. Ela e Jenik — que seria observador no conselho — receberiam uma participação de 35% na empresa, além de um salário anual combinado de um milhão de dólares, que dobraria para dois milhões após três meses de trabalho. A carta de oferta previa mais de dois bilhões de dólares em capital para o que chamava de "rodadas comprometidas" de financiamento até a Série B, com investidores incluindo Bezos.
Anandkumar e Jenik recusaram. Continuaram desenvolvendo seu projeto por conta própria enquanto Bezos e Bajaj conseguiram levantar uma Série B de doze bilhões de dólares para a Prometheus em junho de 2026. A Prometheus tem como objetivo desenvolver uma IA capaz de automatizar a fabricação de sistemas físicos complexos. Quanto à Accelerated Understanding, Anandkumar possui parcerias com provedores de computação que forneceram clusters de hardware para desenvolver e executar sua IA, embora se recuse a revelar os nomes dos parceiros. Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, foi quem a incentivou a levar a ideia adiante desde o início, segundo ela. Anandkumar foi contratada pela fabricante de chips em 2018, liderando uma equipe que explorou como as GPUs da Nvidia poderiam ser utilizadas para aplicações de ponta em IA.
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A visão da inteligência centrada na linguagem coloca os seres humanos no centro. Colocar a física no centro é uma visão centrada na natureza— Anandkumar, professora do Caltech