Duas perícias confirmam Alzheimer em Salgado, mas última sugere exagero de sintomas

Ricardo Salgado, ex-presidente do Banco Espírito Santo, enfrenta limitações cognitivas severas pela doença de Alzheimer que afectam sua capacidade de participar adequadamente em processos judiciais.
Como é possível que um homem no segundo estado mais grave responda a perguntas num processo complexo?
O advogado de Salgado questiona a viabilidade de depoimento em tribunal dado o estado avançado da doença.
Mark

Porque é que esta segunda perícia levanta suspeitas de exagero se o homem está realmente tão doente?

Mimi

Porque durante o teste específico de memória, Salgado respondeu de formas que não correspondem ao padrão típico de Alzheimer. Os sintomas que relatou eram ilógicos, muito atípicos. É como se estivesse a tentar parecer mais incapacitado do que realmente está.

Luke

Mas espera — o próprio teste de memória que supostamente detecta fraude deu um resultado que a perita diz não ser sugestivo de esforço insuficiente. Como é que ela chega à conclusão de exagero se o teste principal não o confirma?

Mimi

Boa pergunta. Ela baseou-se em outros aspectos da avaliação, não apenas nesse teste. Mas tens razão em questionar — há uma tensão entre o que o teste diz e o que a conclusão afirma.

Mark

E o advogado, o que diz?

Mimi

Que é impossível. Que um homem no segundo estado mais grave de Alzheimer não consegue fingir nada. Que as dificuldades são reais e atestadas por todos os relatórios.

Luke

Mas os outros peritos — Santana e Cerejeira — também confirmam Alzheimer. Eles acham que ele pode ser interrogado em tribunal, apesar dos défices. Portanto não é como se houvesse desacordo total sobre o diagnóstico.

Mimi

Não, o diagnóstico é consensual. O desacordo é sobre se durante a avaliação ele tentou exagerar os sintomas.

Mark

E isso importa para o julgamento?

Mimi

Importa porque afecta a credibilidade de tudo o que ele possa dizer em tribunal. Se exagerou durante um teste médico, porque não exageraria também durante o depoimento?

Luke

Mas a defesa tem um ponto válido — se está tão doente, porque é que conseguiria manter a lucidez suficiente para fingir sintomas de forma estratégica? Isso exigiria um nível de cálculo que a doença supostamente lhe nega.

Mimi

Exactamente. É um paradoxo. Ou está demasiado doente para fingir, ou não está tão doente quanto parece. Mas os relatórios sugerem que é ambos.

  • Dois relatórios médicos confirmam Alzheimer em estado grave, mas o segundo sugere que Salgado exibiu sintomas neurológicos inconsistentes com dano cerebral genuíno durante o exame pericial.
  • O advogado Francisco Proença de Carvalho rejeitou categoricamente qualquer fingimento, argumentando que a gravidade real da doença torna improvável qualquer exacerbação deliberada.
  • Um teste forense específico — o Rey 15-Item Memory Test — foi utilizado para detectar desempenho fraudulento, e o resultado de Salgado não foi, por si só, conclusivo, mas outros aspectos da avaliação levantaram alertas.
  • O tribunal enfrenta um impasse: os peritos reconhecem que Salgado mantém capacidade razoável de interacção verbal, mas os défices de memória tornam duvidosa a fiabilidade de qualquer depoimento.
  • A defesa questiona a utilidade de trazer Salgado a julgamento num processo complexo como o caso EDP, onde está acusado ao lado do ex-ministro Manuel Pinho e da sua mulher.

Ricardo Salgado, antigo presidente do Banco Espírito Santo, encontra-se no cruzamento entre a justiça e a dissolução da mente humana. Duas perícias do Instituto de Medicina Legal confirmam o diagnóstico de Alzheimer em estado avançado, mas a segunda levanta a suspeita de que o ex-banqueiro terá exagerado sintomas durante a avaliação — uma acusação que a defesa rejeita com veemência. O caso coloca ao tribunal uma pergunta que transcende o direito: como se julga um homem cuja capacidade de testemunhar a própria vida está a desaparecer?

Ricardo Salgado, antigo presidente do Banco Espírito Santo, está no centro de um dilema jurídico e médico sem resolução simples. Duas perícias do Instituto Nacional de Medicina Legal confirmam o diagnóstico de Alzheimer, com défices significativos em orientação, atenção e memória — colocando-o no segundo estado mais grave da doença. Mas a segunda perícia, assinada pelos peritos Isabel Santana e Joaquim Cerejeira e datada de 22 de Dezembro, acrescenta uma suspeita perturbadora: durante a avaliação, Salgado terá relatado sintomas neurológicos ilógicos e muito atípicos, inconsistentes com o padrão esperado de dano cerebral genuíno.

Este segundo relatório foi solicitado no âmbito do julgamento do caso EDP, onde Salgado é co-arguido com o ex-ministro da Economia Manuel Pinho e a sua mulher. Quando o julgamento foi retomado, o advogado Francisco Proença de Carvalho foi confrontado com as conclusões à entrada da sala e respondeu com firmeza: o seu cliente não finge nem exagera. A gravidade real da doença, argumentou, torna isso improvável. O que pode parecer desligamento é simplesmente o resultado da demência.

A suspeita de exagero assenta, em parte, numa avaliação com o Rey 15-Item Memory Test, instrumento forense concebido para detectar desempenhos fraudulentos. Salgado obteve sete pontos — acima dos limiares de corte — o que não sugere esforço insuficiente. Ainda assim, outros aspectos do seu comportamento durante o exame levantaram alertas.

O que torna o caso especialmente tenso é a sobreposição de duas realidades que não se excluem: Salgado pode estar genuinamente muito doente e, ainda assim, ter tentado amplificar certos sintomas. Os próprios peritos reconhecem que ele mantém capacidade razoável de interacção verbal e raciocínio — o que tecnicamente permitiria um interrogatório. Mas os défices de memória são demasiado graves para garantir a fiabilidade do que diria. A defesa transforma isto numa pergunta retórica: para quê levar a tribunal um homem neste estado, num processo desta complexidade?

Ricardo Salgado, o antigo presidente do Banco Espírito Santo, enfrenta um dilema que nenhuma sala de tribunal consegue resolver completamente: como julgar um homem cuja mente está a desaparecer?

Duas perícias do Instituto Nacional de Medicina Legal confirmam o que já se suspeitava. Salgado sofre de Alzheimer. Os relatórios são claros quanto aos danos: défices significativos em orientação, atenção e memória. Ele está no segundo estado mais grave da doença. Mas aqui começa a complicação. A segunda perícia, datada de 22 de Dezembro e assinada pelos peritos Isabel Santana e Joaquim Cerejeira, acrescenta uma suspeita incómoda. Durante a avaliação, Salgado terá relatado sintomas neurológicos que não se encaixam no padrão esperado de uma doença real. Os peritos descrevem-no assim: sintomas ilógicos, muito atípicos, inconsistentes com o que o dano cerebral genuíno produziria. A conclusão é delicada mas clara — o ex-banqueiro parece ter tentado exagerar as suas dificuldades.

Este segundo relatório foi pedido no âmbito do julgamento do caso EDP, onde Salgado está acusado juntamente com o ex-ministro da Economia Manuel Pinho e a sua mulher, Alexandra Pinho. Na segunda-feira, quando o julgamento foi retomado, o advogado de Salgado, Francisco Proença de Carvalho, foi confrontado com estas conclusões à entrada da sala. A sua resposta foi firme: negou categoricamente que o seu cliente estivesse a fingir ou a exagerar. Salgado está demasiado doente para isso, argumentou. Está no segundo estado mais grave da doença. As dificuldades são reais, atestadas por todos os relatórios. Não se exacerbam sintomas que já são tão graves. O que parece ser desligamento do processo, insistiu o advogado, é simplesmente o resultado da demência.

Mas há uma questão mais fundamental em jogo. Os mesmos peritos que suspeitam de exagero também reconhecem que Salgado mantém uma capacidade razoável de interacção pessoal, compreensão verbal e raciocínio. Tecnicamente, ele poderia ser submetido a interrogatório judicial. O problema é que não há garantias sobre a fiabilidade do que ele diria. Os défices de memória são demasiado graves para isso. O advogado transformou isto numa pergunta retórica que ecoa na sala: como é possível que um homem no segundo estado mais grave de Alzheimer responda adequadamente a perguntas num processo complexo? A defesa está disponível para trazer Salgado a tribunal, disse, mas para quê?

A suspeita de exagero repousa numa avaliação neuropsicológica específica. Uma perita chamada Renata Benavente utilizou o Rey 15-Item Memory Test, um instrumento concebido precisamente para detectar desempenhos fraudulentos em contextos forenses. O teste é simples: um cartão com 15 itens é mostrado durante dez segundos, depois removido, e pede-se ao examinando que reproduza o máximo que conseguir recordar. Os pontos de corte são bem estabelecidos — 1,90 para idosos com problemas cognitivos, 5,70 para idosos saudáveis. Salgado obteve sete pontos. Segundo Benavente, este resultado não é sugestivo de esforço insuficiente. Mas outros aspectos do seu desempenho durante a avaliação levantaram bandeiras vermelhas.

O que torna este caso particularmente tenso é a sobreposição de duas realidades que não se excluem mutuamente. Salgado pode estar genuinamente muito doente — e estar — e ainda assim ter tentado amplificar certos sintomas durante o exame. A medicina forense não consegue separar completamente estas duas coisas. O advogado insiste que a gravidade real da doença torna improvável qualquer fingimento deliberado. Os peritos sugerem que houve pelo menos uma tentativa de exacerbação. E o tribunal fica preso no meio, tentando determinar o que é verdade numa situação onde a verdade é fragmentada pela própria doença que está em questão.

O dr. Ricardo Salgado está no segundo estado mais grave da doença de Alzheimer, tem dificuldades gravíssimas atestadas por todos os relatórios e, portanto, qualquer pessoa que conviva e que conhece esta realidade percebe que não se exacerba, que não se inventa.
— Francisco Proença de Carvalho, advogado de Ricardo Salgado
Atendendo a que o arguido apresenta défices de memória não é possível garantir o rigor dos conteúdos evocados.
— Peritos Isabel Santana e Joaquim Cerejeira, Instituto Nacional de Medicina Legal
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