Fome no Brasil: entenda por que 19 milhões passam fome apesar da produção de alimentos

19 milhões de pessoas no Brasil vivem em insegurança alimentar grave, incluindo crianças e adolescentes que sofrem redução de refeições e desnutrição.
Desigualdades são a marca da fome brasileira
Um economista explica por que o Brasil produz alimentos em abundância mas tem milhões de pessoas com fome.
Mark

Como é possível que um país que produz tanta comida tenha tanta gente com fome?

Mimi

Porque fome não é sobre produção, é sobre acesso. O Brasil exporta toneladas de alimentos, mas dezenove milhões de pessoas não têm dinheiro para comprar comida. É uma questão de desigualdade, não de escassez.

Luke

Mas esses dezenove milhões — esse número vem de uma pesquisa durante a pandemia. Sabemos se a situação piorou depois ou se melhorou?

Mimi

A pesquisa é de 2020 e 2021, durante a pandemia. O que sabemos é que em 2014 o Brasil tinha saído do Mapa da Fome da ONU, e agora voltou. Isso é um fato.

Mark

E qual é a diferença entre estar com fome e estar em insegurança alimentar?

Mimi

Insegurança alimentar é o guarda-chuva. Começa com preocupação — você não sabe se vai ter comida no fim do mês. Depois vem a redução de refeições. Fome grave é quando até as crianças deixam de comer.

Luke

Então nem todos esses dezenove milhões estão literalmente passando fome no sentido mais extremo?

Mimi

Correto. Dezenove milhões estão em insegurança alimentar grave, que é a definição técnica de fome. Mas cinquenta e nove por cento dos domicílios estão em algum nível de insegurança alimentar.

Mark

E como se resolve isso?

Mimi

Os especialistas apontam para programas que funcionaram: Fome Zero, Bolsa Família, reforma agrária, agricultura familiar. Mas esses programas foram desmantelados nos últimos anos.

Luke

Quando foram desmantelados?

Mimi

O Ministério do Desenvolvimento Agrário foi extinto em 2016. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar foi extinto em 2019.

Mark

Então o que precisa acontecer agora?

Mimi

Reconstruir essas estruturas. Não começar do zero, mas resgatar o que funcionou e adaptar para o presente.

Luke

E há consenso entre os especialistas sobre isso?

Mimi

Sim. Todos os pesquisadores ouvidos defendem a retomada de políticas de segurança alimentar e acesso à renda.

  • Dezenove milhões de brasileiros — nove por cento da população — vivem em insegurança alimentar grave, ultrapassando o limite crítico estabelecido pela ONU e forçando o retorno do país ao Mapa da Fome.
  • A pandemia aprofundou a crise: em fins de 2020, quase sessenta por cento dos domicílios brasileiros enfrentavam algum nível de insegurança alimentar, com queda drástica no consumo de carne, frutas e alimentos nutritivos.
  • A fome oculta avança silenciosamente — famílias pobres apresentam desnutrição mesmo com sobrepeso, reflexo de uma dieta dominada por ultraprocessados baratos e desprovida de nutrientes essenciais.
  • O desmonte de políticas públicas — extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário em 2016 e do Conselho Nacional de Segurança Alimentar em 2019 — deixou o país sem as estruturas que antes sustentavam o combate à fome.
  • Especialistas apontam saídas já testadas: retomada do Fome Zero, fortalecimento do Bolsa Família, reforma agrária, crédito para agricultores familiares e desoneração da cesta básica — caminhos que já tiraram o Brasil do mapa uma vez.

Em um país que alimenta o mundo com suas exportações agrícolas, dezenove milhões de brasileiros não conseguem garantir sua própria alimentação diária — um paradoxo que revela não uma falha de produção, mas uma fratura profunda no acesso e na distribuição. O retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU, após ter saído em 2014, não é apenas uma estatística: é o registro de escolhas políticas que desmantelaram estruturas que funcionavam. A fome, aqui, não é destino — é consequência.

A fome é um sinal fisiológico básico — mas para dezenove milhões de brasileiros, ela não é um aviso passageiro. É uma realidade diária que não conseguem satisfazer. Esse número, equivalente a nove por cento da população em insegurança alimentar grave, marcou o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU, do qual o país havia saído em 2014. A ONU considera críticos os países onde mais de cinco por cento da população enfrenta fome. O Brasil ultrapassou esse limite.

A fome não chega de uma vez. Ela tem estágios. Na insegurança leve, as famílias trocam alimentos nutritivos por opções mais baratas. Na moderada, adultos pulam refeições para que as crianças comam. Na grave, a privação atinge todos — inclusive as crianças. Uma pesquisa realizada entre novembro e dezembro de 2020 revelou que cerca de cinquenta e nove por cento dos domicílios brasileiros viviam algum grau de insegurança alimentar durante a pandemia. O consumo de carne caiu quarenta e quatro por cento; frutas desapareceram de quarenta e um por cento das mesas.

Há ainda a fome que não se vê: a fome oculta. Famílias pobres podem apresentar desnutrição mesmo com sobrepeso — um paradoxo que reflete a má qualidade da alimentação disponível. Comem calorias, mas não nutrição. E tudo isso acontece num país que é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. O problema não é produção. É acesso. São as desigualdades.

O Brasil já esteve fora do Mapa da Fome. Saiu através de políticas que funcionaram: o Fome Zero, o Bolsa Família, restaurantes populares, reforma agrária, compra de alimentos de pequenos agricultores. Mas essas estruturas foram desmanteladas. O Ministério do Desenvolvimento Agrário foi extinto em 2016. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar foi extinto em 2019. Especialistas defendem a reconstrução desse caminho — ampliar crédito para agricultores familiares, reforçar a alimentação escolar, desonerar a cesta básica, aumentar o salário mínimo acima da inflação. Não são ideias novas. São caminhos já testados. O desafio é retomá-los.

A fome é mais do que uma sensação vazia no estômago. É um sinal fisiológico que o corpo envia quando precisa de alimento, um impulso hormonal tão básico quanto respirar. Mas para 19 milhões de brasileiros — nove por cento da população — essa sensação não é um aviso passageiro. É uma realidade diária que não conseguem satisfazer. Essas pessoas vivem em insegurança alimentar grave, o termo técnico para o que chamamos simplesmente de fome, e sua existência em números tão altos marcou o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas, do qual o país havia saído em 2014.

Os números vêm de uma pesquisa nacional conduzida pela Rede Brasileira PENSSAN durante a pandemia de covid-19, e revelam um cenário que especialistas descrevem como crítico. A ONU classifica como críticos os países onde mais de cinco por cento da população enfrenta fome. O Brasil ultrapassou esse limite. Mas o que exatamente significa estar com fome? A resposta é mais complexa do que parece. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a fome ocorre quando há insegurança alimentar grave — um estado em que o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e quantidade suficiente desaparece, comprometendo outras necessidades essenciais da vida.

Antes de chegar à fome propriamente dita, existem estágios. A insegurança alimentar leve começa com a preocupação. O dinheiro pode acabar antes do mês terminar, então as famílias trocam alimentos nutritivos por opções mais baratas e de menor qualidade. A qualidade da dieta cai, mas ainda há comida na mesa. Na insegurança alimentar moderada, as refeições começam a desaparecer. Adultos pulam café da manhã ou escolhem entre almoço e jantar para que as crianças comam. Pais abrem mão de sua própria alimentação para garantir que filhos e filhas tenham o que comer. Quando a fome é grave — o terceiro nível — essa privação atinge todos os membros da casa, inclusive as crianças. Nesse ponto, não há mais negociação possível.

Uma pesquisa realizada entre novembro e dezembro de 2020 mostrou que cerca de cinquenta e nove por cento dos domicílios brasileiros vivenciavam algum tipo de insegurança alimentar durante a pandemia. Mais preocupante ainda: muitas famílias reduziram drasticamente o consumo de alimentos considerados saudáveis. O consumo de carne caiu quarenta e quatro por cento. Frutas desapareceram de quarenta e um por cento das mesas. Enquanto isso, alimentos ultraprocessados ganharam espaço, frequentemente porque custam menos. As pessoas não estão necessariamente passando fome no sentido mais extremo, mas estão deixando de comer aquilo que consideram comida de verdade, aquilo que alimenta não apenas o corpo, mas também a dignidade.

Existe ainda um tipo de fome que não se vê à primeira vista: a fome oculta. É quando uma pessoa não tem quantidade suficiente de proteínas e outros nutrientes essenciais. No Brasil, esse tipo está se tornando cada vez mais comum. Não é raro encontrar famílias pobres onde pessoas estão desnutridas mas apresentam sobrepeso — um paradoxo que reflete a má qualidade da alimentação disponível. Comem o suficiente em calorias, mas não em nutrição.

O paradoxo maior, porém, é este: o Brasil é um grande produtor e exportador de alimentos. O país tem capacidade de produção enorme. Toneladas de comida saem do território brasileiro todos os anos rumo a outros países. Então por que dezenove milhões de brasileiros passam fome? A resposta não está na produção. Está no acesso. As desigualdades são a marca da fome brasileira. Enquanto isso, até mesmo nos Estados Unidos, um país rico, dezenove milhões e meio de pessoas vivem em pobreza extrema e enfrentam situação de fome — um em cada seis norte-americanos.

Para resolver esse problema, especialistas apontam para o passado. O Brasil conseguiu sair do Mapa da Fome uma vez, entre 2014 e 2021, através de programas que funcionaram. O Fome Zero promovia agricultura familiar voltada para o consumo doméstico. O Bolsa Família transferia renda para as famílias mais pobres. Restaurantes populares serviam refeições a preço acessível. Políticas de reforma agrária e aquisição de alimentos de pequenos agricultores criaram um sistema que alimentava pessoas. Mas esses canais de participação social e controle foram desmantelados. O Ministério do Desenvolvimento Agrário foi extinto em 2016. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional foi extinto em 2019. Sem essas estruturas, o próximo governo não herda um legado construído — começa do zero.

Os especialistas defendem a reconstrução. Ampliar o acesso ao crédito e aos mercados para agricultores familiares. Reforçar políticas de alimentação escolar. Reduzir impostos sobre alimentos da cesta básica. Aumentar o salário mínimo acima da inflação. Criar um sistema tributário que taxe a renda e não o consumo das famílias. Essas não são ideias novas. São caminhos já testados que funcionaram. O desafio agora é retomá-los.

O problema fundamental são os acessos aos alimentos. Temos uma capacidade de produção enorme, somos grandes exportadores de alimentos no mundo, no entanto, existe fome aqui em níveis elevados.
— Francisco Menezes, economista e ex-presidente do Consea
Os canais de participação social e controle que historicamente construíram junto com os gestores públicos as políticas públicas brasileiras que deram certo foram desmantelados. O caminho do futuro é a reconstrução.
— Renata Motta, pesquisadora da Freie Universität Berlin
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei UOL ↗
Kontakt FAQ