Em setembro de 2022, uma pesquisa Datafolha revelou que Luiz Inácio Lula da Silva atingiu 44% de rejeição entre eleitores homens — o maior índice em duas décadas para qualquer candidato petista à Presidência. O dado não era apenas um número: era o reflexo de uma inversão histórica que reconfigurou silenciosamente o mapa político brasileiro ao longo de vinte anos, transformando o eleitorado masculino, antes o mais favorável a Lula, no mais resistente à sua candidatura. Por trás dessa mudança, pesquisadores identificam o crescimento da percepção da corrupção como problema central do país — uma s
Datafolha: Lula atinge maior rejeição entre homens em duas décadas
Os homens passaram a liderar a rejeição aos candidatos do PT
Por que essa inversão entre homens e mulheres importa tanto? Não é só um número em uma pesquisa?
Importa porque muda completamente a estratégia eleitoral. Vinte anos atrás, Lula tinha um problema com mulheres. Agora tem um problema com homens. São públicos diferentes, com preocupações diferentes, e exigem abordagens diferentes.
Mas precisamos ser claros: essa correlação com corrupção é observação da pesquisadora, não uma relação causal comprovada. Ela vê os dois fenômenos acontecendo ao mesmo tempo, mas não há dados que digam definitivamente que um causou o outro.
E quanto a Alckmin? Ele foi escolhido justamente para tentar resolver isso, certo?
Exatamente. A ideia era trazer alguém moderado, alguém que já havia sido adversário de Lula, para mostrar que ele estava disposto a fazer pactos. Mas os números mostram que isso não funcionou — a rejeição entre homens continuou subindo.
Importante notar que a pesquisa é de setembro de 2022, e Alckmin havia sido anunciado como vice há pouco tempo. Pode ser que o efeito ainda estivesse se desenvolvendo. Não sabemos o que aconteceu depois.
Então Lula está em uma posição pior do que estava em 1994?
Não exatamente pior — está no mesmo nível geral de rejeição, 39% agora contra 40% em 1994. Mas a distribuição é diferente. Em 1994, a rejeição era mais distribuída. Agora está concentrada em um grupo específico: homens.
E vale lembrar que essa é uma pesquisa Datafolha contratada pela Folha e TV Globo. Os números são públicos e verificáveis, mas a interpretação sobre o que significa é sempre aberta a debate.
Der Puls
- A rejeição geral de 39% coloca Lula a um passo de seu pior índice histórico, registrado em 1994, quando 40% dos eleitores diziam que jamais votariam nele.
- Entre homens, a rejeição saltou de 40% para 44% em apenas quinze dias, sinalizando uma deterioração acelerada e preocupante para a campanha petista.
- A inversão é dramática: em 2002, os homens eram o grupo menos avesso a Lula; em 2022, tornaram-se o mais resistente, quase dobrando sua rejeição em vinte anos.
- Pesquisadores apontam 2014 como o ponto de virada, quando a Operação Lava-Jato amplificou a percepção da corrupção — tema que mobiliza 39% dos homens contra 28% das mulheres.
- A escolha de Geraldo Alckmin como vice, aposta conciliadora do PT, ainda não havia sido suficiente para reduzir a resistência dos segmentos conservadores até aquele momento.
Em setembro de 2022, uma pesquisa Datafolha revelou que Luiz Inácio Lula da Silva atingiu 44% de rejeição entre eleitores homens — o maior índice em duas décadas para qualquer candidato petista à Presidência. O dado não era apenas um número: era o reflexo de uma inversão histórica que reconfigurou silenciosamente o mapa político brasileiro ao longo de vinte anos, transformando o eleitorado masculino, antes o mais favorável a Lula, no mais resistente à sua candidatura. Por trás dessa mudança, pesquisadores identificam o crescimento da percepção da corrupção como problema central do país — uma sensibilidade que, por razões ainda debatidas, mostrou-se mais intensa entre os homens.
Uma pesquisa Datafolha divulgada em setembro de 2022 acendeu sinais de alerta na campanha de Lula: 39% dos eleitores afirmavam que não votariam nele sob nenhuma circunstância, aproximando-o do recorde histórico de 40% registrado em setembro de 1994. Mas havia um segundo dado ainda mais revelador — uma divisão crescente entre homens e mulheres que reconfigurava o mapa político do país.
Entre eleitores homens, a rejeição havia chegado a 44%, saltando de 40% em apenas quinze dias. A pesquisadora Andressa Rovani, da Unicamp, constatou que Lula estava praticamente empatado com Bolsonaro entre o eleitorado masculino — Bolsonaro registrava 48% de rejeição entre homens e 55% entre mulheres.
O que tornava o cenário particularmente notável era a inversão histórica em curso. Em 2002, 35% das mulheres rejeitavam Lula enquanto apenas 27% dos homens faziam o mesmo. Em 2022, os números se inverteram: as mulheres permaneciam nos mesmos 35%, enquanto os homens quase dobravam sua rejeição. Em comparação com agosto de 2018, a deterioração entre o público masculino era de nove pontos percentuais em quatro anos.
Rovani identificou 2014 como o ponto de virada. Naquele ano, homens e mulheres apresentavam taxas idênticas de rejeição à candidata petista Dilma Rousseff — 34% em ambos os casos. A partir daí, foram os homens que passaram a liderar a resistência ao PT. A mudança coincidiu com o crescimento da percepção da corrupção como problema central: de 4% em 2003, esse índice saltou para 34% em 2015, após a Operação Lava-Jato — e entre os homens a sensibilidade era ainda maior, com 39% elegendo o tema como prioridade contra 28% das mulheres.
A escolha de Geraldo Alckmin como vice — um ex-tucano moderado e antigo adversário de Lula — era a aposta do PT para reduzir essa resistência. O cientista político Lucio Rennó, da UnB, reconheceu que o gesto conciliador poderia ajudar a agregar votos, mas admitiu que, até aquele momento, ainda não havia sido suficiente para mover os segmentos mais conservadores do eleitorado.
Uma pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira trouxe números que acenderam sinais de alerta na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Trinta e nove por cento dos eleitores afirmaram que não votariam nele sob nenhuma circunstância — um patamar que o aproxima dos seus piores momentos históricos. Em setembro de 1994, Lula havia atingido 40% de rejeição, um recorde que agora está perigosamente próximo. Mas havia um segundo sinal, ainda mais preocupante: uma divisão crescente entre homens e mulheres que reconfigurava o mapa político do país.
Entre eleitores homens, a rejeição a Lula alcançou 44%, um recorde de duas décadas para qualquer candidato petista à Presidência. Esse número havia saltado de 40% apenas quinze dias antes, revelando uma deterioração rápida. A pesquisadora Andressa Rovani, do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp, analisou os dados do Datafolha e constatou que Lula estava praticamente empatado, dentro da margem de erro, com Jair Bolsonaro entre o eleitorado masculino — Bolsonaro tinha 48% de rejeição entre homens e 55% entre mulheres.
O que tornava esse cenário particularmente notável era a inversão histórica que havia ocorrido. Vinte anos antes, em 2002, a situação era radicalmente diferente: 35% das mulheres rejeitavam Lula enquanto apenas 27% dos homens o faziam. Agora, em 2022, os números se inverteram completamente. As mulheres mantinham-se no mesmo patamar de duas décadas atrás — 35% — enquanto os homens haviam quase dobrado sua rejeição. Em agosto de 2018, quando Lula ainda aparecia nos questionários do Datafolha mesmo encarcerado em Curitiba, sua rejeição era menor: 33% entre mulheres e 35% entre homens. A comparação revelava uma deterioração de nove pontos entre o público masculino em apenas quatro anos.
Rovani identificou 2014 como o ponto de virada. Naquele ano, quando Dilma Rousseff buscava a reeleição, homens e mulheres apresentavam taxas idênticas de rejeição à candidata petista — 34% em ambos os casos. A partir dali, foram os homens que começaram a liderar a rejeição aos candidatos do PT. Essa mudança não era aleatória. A pesquisadora observou que a inversão coincidiu com o aumento da percepção de que a corrupção era o principal problema do Brasil. Em 2003, apenas 4% dos eleitores apontavam a corrupção como preocupação central. Em 2015, após os efeitos da Operação Lava-Jato, esse número havia saltado para 34%. E entre os homens, a sensibilidade ao tema era ainda maior: 39% deles escolhiam corrupção como prioridade contra 28% das mulheres.
Essa diferença de gênero se refletia também nas motivações eleitorais. Em pesquisa Datafolha realizada pouco antes do segundo turno de 2018, 12% dos homens afirmavam que o combate à corrupção era o motivo que os levaria a votar em Bolsonaro, contra apenas 7% das mulheres. A rejeição de quase quatro em cada dez eleitores a Lula sugeria que a escolha de Geraldo Alckmin como vice — um ex-tucano moderado que havia sido adversário de Lula — ainda não havia sido suficiente para reduzir a resistência dos segmentos mais conservadores. Lucio Rennó, professor de ciência política da Universidade de Brasília, observou que Lula havia apostado em um vice conciliador, aprofundando essa estratégia ao trazer um político com perfil moderado para demonstrar a intenção de construir um grande pacto. Esse gesto poderia ajudar a diminuir a rejeição, reconheceu Rennó, mas até aquele momento não havia sido suficiente — e também poderia agregar votos que de outra forma não viriam.
Bemerkenswerte Zitate
As eleições de 2014 representam um ponto de virada na rejeição masculina ao PT— Andressa Rovani, pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop/Unicamp)
Lula sempre apostou em um vice conciliador, e desta vez ele se aprofundou nessa linha ao trazer um político que já foi seu adversário, com um perfil moderado— Lucio Rennó, professor de ciência política da UnB