Vereador Juliano Lopes afirma que repasse de recursos públicos às empresas de ônibus caracteriza pedalada fiscal e subsídio que necessitava de aprovação legislativa. Prefeitura repassou R$ 116 milhões sem acordo claro de devolução; recuperação via vale-transporte de servidores é insuficiente para cobrir o montante total.
CPI acusa Kalil de 'pedalada fiscal' em repasse a empresas de ônibus
Não sabe como devolver o dinheiro, não tem como devolver
Por que exatamente isso é considerado pedalada fiscal e não apenas um subsídio direto?
Porque subsídio direto precisa ser aprovado pela Câmara antes de ser gasto. O que a prefeitura fez foi gastar primeiro e depois tentar encontrar uma forma de justificar o gasto. Isso é contornar o processo legislativo.
Mas a prefeitura tinha uma razão — as empresas de ônibus perderam receita durante a pandemia.
Tinha razão, sim. Mas a forma de ajudar deveria ter sido transparente desde o início. Se o prefeito quisesse subsidiar as empresas, deveria ter pedido autorização à Câmara. Em vez disso, usou adiantamentos de vale-transporte e um acordo judicial para contornar o processo.
E por que o vale-transporte não funciona como forma de recuperar o dinheiro?
Porque os números não fecham. A prefeitura gasta 25 milhões por ano com vale-transporte de servidores. O contrato termina em 2028. Mesmo se todo centavo fosse destinado a pagar a dívida, faltariam 45 milhões. É matematicamente impossível recuperar tudo dessa forma.
Então a prefeitura vai ter de devolver o dinheiro de outra forma?
Ou a prefeitura encontra outra fonte de recursos, ou aqueles 45 milhões viram um subsídio permanente às empresas. Se for subsídio, deveria ter sido aprovado pela Câmara desde o começo.
Os vereadores vão rejeitar o projeto de lei que a prefeitura vai enviar?
Alguns já disseram que não vão compactuar. Mas tudo depende de como o projeto for estruturado e de quantos votos a prefeitura conseguir reunir.
O Pulso
- Repasse de R$ 220 milhões às empresas de ônibus durante a pandemia
- R$ 116 milhões sem acordo claro de devolução
- Vale-transporte de servidores: R$ 25 milhões/ano; contrato termina em 2028
- Buraco de R$ 45 milhões que não pode ser recuperado
Vereador Juliano Lopes afirma que repasse de recursos públicos às empresas de ônibus caracteriza pedalada fiscal e subsídio que necessitava de aprovação legislativa. Prefeitura repassou R$ 116 milhões sem acordo claro de devolução; recuperação via vale-transporte de servidores é insuficiente para cobrir o montante total.
Presidente da CPI da Covid em BH acusa prefeito Alexandre Kalil de pedalada fiscal ao repassar R$ 220 milhões para empresas de ônibus sem previsão de devolução e sem autorização da Câmara.
Na manhã de quinta-feira, a CPI da Covid na Câmara Municipal de Belo Horizonte ouviu o secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão, André Abreu Reis, sobre um repasse de 220 milhões de reais feito às empresas de ônibus durante a pandemia. O que emergiu da sessão foi uma acusação direta: o presidente da comissão, vereador Juliano Lopes, afirmou que o prefeito Alexandre Kalil havia cometido pedalada fiscal ao transferir recursos públicos para as empresas sem deixar claro como o dinheiro seria devolvido e sem passar pela aprovação da Câmara.
O repasse foi dividido em duas partes. Uma porção saiu do adiantamento de vale-transporte dos servidores municipais. Outra veio de um acordo mediado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O problema, segundo Reis, é que ninguém sabe muito bem como recuperar os 116 milhões de reais que a prefeitura colocou nas mãos das empresas por meio desse acordo judicial. A ideia inicial era usar um programa de auxílio vale-transporte para a população carente como forma de recuperar o dinheiro, mas isso nunca saiu do papel e precisaria de aprovação legislativa.
Juliano Lopes explicou a matemática que torna a situação ainda mais complicada. A prefeitura gasta 25 milhões de reais por ano com vale-transporte de seus próprios servidores. O contrato com as empresas de transporte público vai até 2028, ou seja, sete anos a partir daquele momento. Multiplicando 25 por sete, chegamos a 175 milhões. Isso deixa um buraco de 45 milhões de reais que nunca será preenchido. Se as empresas devolverem esse dinheiro em espécie, o que a prefeitura fez foi simplesmente subsidiar as operadoras de ônibus — exatamente o que a lei exige que seja aprovado pela Câmara.
"Não sabe como devolver o dinheiro, não tem como devolver", disse Lopes durante a sessão, caracterizando o repasse como pedalada fiscal. A acusação não ficou isolada. A vereadora Flávia Borja, do Avante, também atacou a administração, dizendo que a prefeitura havia criado uma "bagunça" orçamentária e agora tentava regularizá-la por meio de um projeto de lei. "A Câmara não vai compactuar com isso", afirmou, chamando a operação de crime.
Nem todos na comissão estavam prontos para tirar conclusões. O relator da CPI, vereador Irlan Melo, do PSD, disse que só havia tido acesso ao acordo judicial durante a própria reunião, depois de pedir o documento várias vezes. Sem conhecer os detalhes do acordo, ele não se sentia autorizado a falar em pedalada fiscal ou em indiciamentos. A prefeitura, procurada para comentar, não respondeu.
O que fica claro é que a administração municipal transferiu centenas de milhões de reais para as empresas de ônibus sem um mecanismo transparente de recuperação. Agora, conforme a Câmara receber um projeto de lei para tentar regularizar a situação, os vereadores terão de decidir se aprovam ou rejeitam o que alguns deles já chamam de desvio orçamentário disfarçado de subsídio.
Citações Notáveis
É empréstimo para empresa de ônibus, é subsídio, e isso precisa de lei aqui na Câmara. Isso é pedalada fiscal do prefeito Alexandre Kalil.— Vereador Juliano Lopes, presidente da CPI da Covid
A Câmara não vai compactuar com isso. Regularizar o crime cometido pelo senhor prefeito porque foi sim uma pedalada fiscal.— Vereadora Flávia Borja, Avante