Corte de ajuda externa dos EUA pode intensificar crise migratória global e aumentar fluxo para o país

Mais de 500 mil venezuelanos no Brasil podem enfrentar redução de serviços de acolhimento e interiorização; populações refugiadas em Líbano, Turquia, Bangladesh e outras regiões sofrerão cortes em assistência humanitária essencial.
Menos interiorizações significa mais pessoas em Roraima
Advogado de imigração explica como cortes na ajuda podem sobrecarregar estados brasileiros já frágeis.
Mark

Por que Trump escolheu congelar a ajuda externa agora, se representa menos de 1% do orçamento?

Mimi

É mais sobre política doméstica do que lógica fiscal. A ajuda externa é impopular entre o eleitorado republicano, e não tem lobby poderoso em Washington para defendê-la. É um alvo fácil.

Luke

Mas precisamos ser claros: o congelamento não é total. Israel, Egito e programas de "salvar vidas" foram isentados. Então não é "quase toda" ajuda — é quase toda exceto as prioridades políticas da administração.

Mark

E qual é o impacto real no Brasil?

Mimi

Imediato e concreto. A OIM perde 60% de seus recursos operacionais aqui. A Operação Acolhida, que atende 500 mil venezuelanos, depende desse financiamento. Menos recursos significa menos interiorizações — menos pessoas sendo inseridas no mercado de trabalho em outros estados.

Luke

Lula disse que vai bancar isso emergencialmente, então não é abandono total. Mas por quanto tempo? E qual é o custo para o Brasil?

Mark

Isso vai realmente aumentar a migração para os EUA?

Mimi

Analistas dizem que sim. Se você dificulta a entrada nos EUA e corta recursos nos países de trânsito, os migrantes ficam retidos. Eles não desaparecem — ficam em situação pior, mais vulneráveis.

Luke

Isso é uma previsão, não um fato confirmado. Sabemos que venezuelanos foram a terceira nacionalidade na fronteira americana no ano passado. Sabemos que há expectativa de aumento. Mas o "efeito rebote" é uma análise, não uma certeza.

Mark

Quem mais sofre com isso?

Mimi

Líbano, que tem a maior população de refugiados per capita do mundo. Turquia, que funciona como tampão para migrantes do Oriente Médio. Bangladesh, com o maior campo de refugiados do planeta. Sírios, afegãos que trabalharam para os EUA. É global.

Luke

E também é seletivo. Alguns países foram isentados. Isso mostra que não é uma política de "eficiência" — é uma política de prioridades geopolíticas.

Mark

A ajuda externa americana sempre foi assim — um instrumento de poder?

Mimi

Sim. Desde o Plano Marshall após a Segunda Guerra, era sobre vender valores liberais contra o comunismo. Soft power. Mas a percepção pública mudou ao longo dos anos, especialmente com Reagan nos anos 1980.

Luke

E Trump está aproveitando essa mudança de percepção. Mas há uma ironia: cortar ajuda para migrantes pode aumentar a migração — exatamente o oposto do que ele quer.

  • Trump congelou quase toda ajuda externa americana por 90 dias
  • Brasil é quinto maior beneficiário nas Américas; 500 mil venezuelanos vivem no país
  • OIM no Brasil perde 60% de seus recursos operacionais (5 milhões de dólares)
  • Acnur recebeu um quinto de seu orçamento anual (2,4 bilhões) dos EUA em 2023
  • Venezuelanos foram terceira nacionalidade que mais cruzou fronteira americana em 2024

Os EUA congelaram quase toda ajuda externa por três meses como parte da agenda 'América primeiro', embora esses gastos representem menos de 1% do orçamento federal. O Brasil, quinto maior beneficiário nas Américas, pode sofrer impactos na Operação Acolhida que atende 500 mil venezuelanos, com risco de sobrecarga em estados como Roraima.

Trump congela quase toda ajuda externa americana por 90 dias, medida que analistas alertam pode aumentar fluxos migratórios para os EUA e agravar crise global, afetando principalmente países como Brasil, Líbano e Turquia.

Donald Trump retornou à Casa Branca com uma agenda clara: endurecer a política migratória americana. Mas uma de suas primeiras ações ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos. No início de fevereiro, o presidente congelou quase toda a ajuda externa americana pelos próximos três meses — uma medida que analistas alertam pode produzir exatamente o oposto do que pretende: aumentar o fluxo de migrantes em direção ao país.

O congelamento faz parte de um esforço mais amplo de revisão do Departamento de Estado para alinhar iniciativas aos interesses da administração Trump. Inicialmente, a ordem isentava transferências para Israel e Egito, além de fundos alimentares. Uma semana depois, o secretário de Estado Marco Rubio assinou um memorando criando exceções para "programas essenciais para salvar vidas" — medicamentos, vacinas, serviços médicos e abrigos. Ainda assim, o impacto é significativo. Os Estados Unidos são o maior fornecedor de ajuda humanitária do mundo, tendo gasto 13,8 bilhões de dólares em 2023 — 9,8 bilhões pela Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e 4 bilhões pelo Escritório de Refugiados e Imigrantes (PRM). Embora esses valores representem menos de 1% do orçamento federal americano, sua importância é desproporcional ao tamanho.

O Brasil sente o impacto imediatamente. O país é o quinto maior beneficiário de assistência migratória nas Américas, e a Operação Acolhida — o sistema que desde 2018 atende migrantes venezuelanos — depende fortemente de financiamento norte-americano. Mais de 500 mil venezuelanos vivem no Brasil, o terceiro principal destino na América Latina. A operação funciona como um ecossistema complexo envolvendo entidades públicas, privadas, ONGs e agências da ONU para Refugiados (Acnur) e para Migrações (OIM). Victor Del Vecchio, advogado de imigração e direitos humanos, explica que muitas dessas organizações dependem de recursos americanos. "Menos interiorizações significa mais pessoas em Roraima, estado com baixa capacidade de inserção socioeconômica desse contingente," afirma. "É possível que o número de migrantes em situação de rua, pobreza e miséria dispare."

A OIM no Brasil deixará de receber cerca de 5 milhões de dólares durante os 90 dias de congelamento — 60% de seus recursos operacionais no país. O Acnur, que recebeu um quinto de seu orçamento anual (2,4 bilhões de dólares) dos Estados Unidos no ano passado, anunciou uma redução imediata de gastos, vetando contratações e novos contratos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu bancar a Operação Acolhida em caráter emergencial enquanto novos financiadores são buscados.

Mas o efeito pode ser ainda mais amplo. Países como Líbano — que abriga a maior população de refugiados per capita do mundo — Turquia, Colômbia e Bangladesh enfrentarão cortes severos. A Turquia funciona como "tampão" para migrantes do Oriente Médio tentando chegar à Europa. A Colômbia é o principal destino de imigrantes venezuelanos e rota de passagem pela selva de Darién para os EUA. Bangladesh hospeda o maior campo de refugiados do planeta, com rohingyas que fugiram de Myanmar. Ucrânia, Jordânia, afegãos que trabalharam para o governo americano e sírios — vítimas da maior crise migratória do mundo — também sofrerão. Na África, onde há disputa por influência com a China, Etiópia e Sudão do Sul enfrentarão os maiores impactos.

Analistas alertam para um "efeito rebote". Gabrielle Oliveira, professora de educação e migração na Universidade Harvard, observa que a combinação de cortes de recursos com endurecimento na fronteira criará um gargalo. "Os imigrantes não vão parar de sair da Venezuela," diz. "No governo Biden, as pessoas podiam pedir asilo nos EUA em países de passagem como Guatemala, Costa Rica, Panamá. Agora, elas vão ficar mais tempo nesses lugares." Del Vecchio concorda: o financiamento americano era "uma forma de criar condições para que o contingente de pessoas que migra em direção aos EUA seja menor". O corte pode gerar o efeito oposto, aumentando o número de pessoas buscando construir suas vidas nos EUA. Venezuelanos foram a terceira nacionalidade que mais cruzou a fronteira americana no ano passado, e há expectativa de intensificação diante do recrudescimento do regime de Nicolás Maduro.

Historicamente, a ajuda externa americana é parte central do soft power dos EUA, remontando ao Plano Marshall após a Segunda Guerra Mundial. Lucas Leite, professor de história dos EUA na Universidade Temple, explica que havia interesse econômico em garantir que a Europa pudesse comprar produtos americanos, mas também a intenção de vender uma boa imagem dos valores liberais contra o comunismo soviético. A estratégia ganhou força a partir dos anos 1960 com a criação da Usaid. "Há um interesse geopolítico na ajuda humanitária," afirma Leite. "Existe ali a busca pela construção de um ordenamento que privilegie o poder americano."

Mas a percepção pública americana sobre essa ajuda mudou. Positiva nas primeiras décadas após a guerra, tornou-se alvo de crítica com o choque do petróleo nos anos 1970 e o neoliberalismo dos anos 1980 sob Ronald Reagan — sementes da política "América primeiro" que Trump agora invoca. Embora a ajuda externa represente uma fração mínima dos gastos federais, ela é vulnerável politicamente: não tem lobby poderoso em Washington e é malvista pelo eleitorado republicano. O novo Departamento de Eficiência Governamental, comandado por Elon Musk, prometeu uma varredura completa nas contas públicas, e qualquer corte é válido para essa agenda.

Essa combinação do Trump de segurar recurso e dificultar a passagem na fronteira vai criar um gargalo muito grande, porque os imigrantes não vão parar de sair da Venezuela
— Gabrielle Oliveira, professora de educação e migração na Universidade Harvard
O financiamento americano é uma forma de criar condições para que o contingente de pessoas que migra em direção aos EUA seja menor. O corte pode gerar um efeito rebote e aumentar o número de pessoas que buscarão construir suas vidas nos EUA
— Victor Del Vecchio, advogado de imigração e direitos humanos
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