Cores de aviso em turbinas eólicas podem reduzir mortalidade de aves

Colisões com turbinas eólicas causam mortalidade significativa em aves, particularmente em espécies vulneráveis como águias, abutres e aves migratórias.
As aves interpretam cores de aviso como perigosas, não apenas as veem
O estudo sugere que o aposematismo funciona porque os pássaros têm aversão genética a certos padrões, não apenas porque os veem melhor.
Mark

Porque é que as cores de aviso funcionariam melhor do que simplesmente tornar as turbinas mais visíveis?

Mimi

Porque não se trata apenas de ver a turbina — trata-se de o pássaro a interpretar como perigosa. O aposematismo é um sinal evolutivo que diz "afasta-te", não apenas "há algo aqui".

Luke

Mas o estudo foi feito com uma única espécie, em laboratório, com imagens digitais. Sabemos se funciona com águias reais ou com turbinas que rodam de verdade?

Mimi

Não, ainda não. É por isso que os autores são claros sobre as limitações. Precisam de testes em condições reais com múltiplas espécies.

Mark

E em Portugal, temos dados sobre quantas aves morrem com as turbinas que temos agora?

Mimi

Não temos um número consensual. O Instituto da Conservação da Natureza reconhece o problema, mas muitos cadáveres não são detetados no terreno. Os números variam entre estudos.

Luke

Portanto, estamos a propor uma solução para um problema que não conseguimos medir com precisão?

Mimi

Sim, mas o problema é real — espécies vulneráveis como águias e abutres colidem com turbinas. O que falta é a quantificação exata.

Mark

Há obstáculos regulamentares?

Mimi

Sim. Em alguns países europeus, incluindo alguns casos na UE, só são permitidas turbinas brancas. Há também custos de repintura e impacto visual para humanos a considerar.

Luke

Então, mesmo que a ciência funcione, a política e a economia podem bloquear a implementação?

Mimi

Exatamente. É um problema de transição energética que não é apenas técnico.

Mark

Mas se isto funcionar, poderia mudar a indústria toda?

Mimi

Segundo a professora Mappes, se os resultados forem replicados em condições práticas com diferentes espécies, sim — poderia representar uma mudança significativa para toda a indústria.

  • Energia eólica representa 37,5% da eletricidade renovável da UE em 2025
  • Portugal tem 82,9% de eletricidade de origem renovável, no top 3 europeu
  • Padrões em vermelho, amarelo e preto afastam aves significativamente melhor que turbinas brancas
  • Colisões com turbinas afetam particularmente águias, abutres e aves migratórias
  • Portugal não tem um número consensual de mortalidade de aves por turbinas eólicas

A energia eólica representa 37,5% da eletricidade renovável da UE em 2025, com Portugal no top 3 com 82,9% de energia renovável, mas turbinas brancas causam colisões letais de aves. Investigação mostra que padrões em vermelho, amarelo e preto inspirados no aposematismo natural afastam aves significativamente melhor do que turbinas brancas ou com uma única pá preta.

Estudo propõe pintar pás de turbinas eólicas com cores de aviso inspiradas em animais venenosos para reduzir colisões fatais de aves, um problema relevante em Portugal onde a energia eólica é crucial.

A energia eólica tornou-se em 2025 a principal fonte de eletricidade renovável na União Europeia, respondendo por 37,5% de toda a produção verde — à frente da solar, com 27,5%, e da hídrica, com 25,9%. Portugal integra o top 3 dos Estados-membros com maior quota de eletricidade de origem renovável, alcançando 82,9%, sustentada sobretudo pela produção hídrica e eólica. Apenas a Dinamarca, com 92,4%, e a Áustria, com 83,1%, ficam à frente. Mas essa força do vento para produzir eletricidade tem um custo que não aparece nas contas de eficiência: as turbinas, com alturas entre 150 a 250 metros, provocam colisões fatais de pássaros, em grande parte porque as pás são brancas — praticamente invisíveis contra o céu.

Um estudo recente publicado na revista científica Behavioral Ecology propõe uma solução inesperada: imitar a natureza. A investigação, liderada por George R. A. Hancock e colegas, testou se padrões visuais inspirados no aposematismo — as cores vivas e contrastantes que animais perigosos usam para afastar predadores — poderiam ajudar aves a evitar colisões com turbinas eólicas. A professora Johanna Mappes, da Universidade de Helsinquia, explica o ponto de partida: na natureza, muitos animais usam cores para alertar sobre o perigo, e frequentemente essa tendência de evitar certas combinações de cores é genética — as cores são evitadas mesmo sem experiência prévia com elas.

O modelo experimental recorreu a uma espécie comum na Europa, o chapim-real, exposta a imagens digitais de turbinas com diferentes padrões: totalmente brancas, com riscas vermelhas, com uma pá preta e, finalmente, com um padrão biomimético em vermelho, amarelo e preto. Os resultados foram claros. As aves mostraram maior hesitação — e até evitamento — perante turbinas com padrões contrastantes. O efeito foi particularmente forte no caso do padrão biomimético, inspirado em espécies como vespas ou cobras venenosas. As aves demoraram mais tempo a aproximar-se das turbinas com padrões, a probabilidade de sequer se aproximarem foi menor e, quando tinham escolha, optavam mais frequentemente por trajetórias seguras, fora da zona de rotação das pás. As pás brancas, o padrão mais utilizado em todo o mundo, revelaram-se a pior opção para as aves.

As colisões com turbinas eólicas são um problema reconhecido à escala global. Espécies como águias, abutres e aves migratórias estão entre as mais vulneráveis, sobretudo quando voam à altura das pás ou atravessam parques eólicos durante a noite. Em Portugal, a dimensão exata do problema continua difícil de quantificar com rigor. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas reconhece a importância de monitorizar impactos sobre a fauna, mas os números de mortalidade associados a turbinas eólicas variam entre estudos e podem estar subestimados, já que muitos cadáveres não são detetados no terreno. Ao contrário de outros países com monitorização sistemática mais extensa, não existe um valor único consensual e atualizado para Portugal.

Até agora, algumas soluções têm sido testadas: sensores, radares, paragem temporária de turbinas ou pintura parcial, como o uso de uma única pá preta, que já demonstrou reduzir colisões em certos contextos. O novo estudo vai mais longe ao sugerir que não é apenas uma questão de visibilidade — mas também de perceção de risco. Ou seja, as aves não só veem melhor as turbinas como podem interpretá-las como perigosas. Isso abre caminho a uma abordagem inovadora: usar princípios da ecologia sensorial e da evolução para comunicar com as aves.

Os próprios autores alertam que os resultados foram obtidos em laboratório, com simulações digitais e uma única espécie. Será necessário testar outras espécies, sobretudo as mais vulneráveis, bem como turbinas reais em condições naturais e diferentes combinações de cores e padrões. Há também obstáculos práticos, desde os custos de repintura até à regulamentação — em alguns países, incluindo casos europeus, só são permitidas turbinas de cor branca — e ao impacto visual para humanos. O Dr. Hancock sublinha que pintar turbinas é apenas um exemplo de um conjunto de estratégias que podem ser usadas para ajudar as aves, como posicionar as turbinas longe de rotas migratórias importantes ou usar câmeras controladas por computador para instruir as turbinas a desligarem quando uma ave se aproximar.

A longo prazo, este trabalho poderá levar a novos padrões no projeto de turbinas eólicas. No futuro, as pás poderão ser projetadas para serem não apenas aerodinamicamente eficientes, mas também mais visíveis ou assustadoras para as aves. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado, por exemplo, a linhas de energia, janelas e outras estruturas com as quais as aves interagem. Num contexto em que a transição energética é urgente mas não pode ignorar a biodiversidade, soluções simples — e inspiradas pela própria natureza — podem vir a fazer a diferença.

As pás brancas, que são o padrão mais utilizado em todo o mundo, revelaram-se a pior opção para as aves. Uma alteração visual relativamente simples poderia reduzir a mortalidade de aves associada à energia eólica.
— Professora Johanna Mappes, Universidade de Helsinquia
Se os resultados forem replicados em condições práticas em diferentes países e com diferentes espécies de aves, isso poderá representar uma mudança significativa para toda a indústria de energia eólica.
— Professora Johanna Mappes, Universidade de Helsinquia
Contattaci Domande frequenti