Fraudes de empréstimo cresceram 15,6% no primeiro semestre de 2021, com 1,9 milhão de ataques registrados pela Serasa Experian. Jovens até 25 anos são os principais alvos; modalidades mais comuns incluem pedidos de depósito antecipado e roubo de dados pessoais.
Como se proteger dos golpes de empréstimo que exploram vulnerabilidade financeira
A sensação é de total impotência, porque você não pode fazer nada
Por que os jovens até 25 anos se tornaram os principais alvos se supostamente entendem mais de internet?
Porque justamente por isso. Os criminosos sabem que jovens confiam mais em plataformas digitais e redes sociais. Além disso, muitos estão entrando no mercado de trabalho, têm menos histórico de crédito, e às vezes precisam desesperadamente de dinheiro. A confiança digital virou vulnerabilidade.
A clonagem de WhatsApp parece ser particularmente devastadora. Como exatamente isso funciona?
O criminoso consegue seus dados pessoais — muitas vezes através de um site falso ou de uma mensagem de phishing. Com esses dados, consegue acessar sua conta do WhatsApp. Depois usa suas redes sociais e contatos para pedir empréstimos em seu nome. Suas próprias pessoas conhecidas se tornam vítimas também.
E por que as vítimas levam tanto tempo para se recuperar? Um ano parece uma eternidade.
Porque a fraude de identidade não é resolvida em um dia. Você precisa registrar boletim de ocorrência, notificar o banco, contestar cada dívida fraudulenta, às vezes litigar. Cada instituição que teve seus dados usados precisa ser contatada. É um processo burocrático que a vítima tem que conduzir enquanto tenta viver normalmente.
O saque-aniversário do FGTS é legítimo, mas virou isca para golpistas. Isso não deveria ter sido previsto?
Deveria, mas a velocidade da inovação financeira sempre supera a velocidade da segurança. Quando algo novo oferece vantagens reais — juros menores, facilidade — os criminosos veem oportunidade. Eles não criam a demanda; exploram a que já existe.
Se alguém receber uma oferta de empréstimo por WhatsApp, qual é o sinal mais claro de que é golpe?
O pedido de depósito antecipado. Ponto final. Nenhuma instituição financeira regulada pelo Banco Central faz isso. Se alguém pede dinheiro antes de liberar crédito, é fraude. Não há exceção.
El Pulso
- 1,9 milhão de tentativas de fraude no primeiro semestre de 2021 — aumento de 15,6% em relação a 2020
- Jovens até 25 anos são os principais alvos dos golpistas
- Mais de 5,4 milhões de operações de saque-aniversário do FGTS realizadas, movimentando R$ 10,3 bilhões
- Vítimas podem levar até um ano para regularizar situação após fraude de identidade
Fraudes de empréstimo cresceram 15,6% no primeiro semestre de 2021, com 1,9 milhão de ataques registrados pela Serasa Experian. Jovens até 25 anos são os principais alvos; modalidades mais comuns incluem pedidos de depósito antecipado e roubo de dados pessoais.
Pesquisa da Serasa revela que 8 em cada 10 brasileiros recorreram a empréstimos durante a pandemia, atraindo fraudadores. Artigo oferece 10 dicas para evitar golpes de crédito, desde verificação de sites até cuidados com WhatsApp e depósitos antecipados.
A pandemia de Covid-19 abriu uma porta que os criminosos não deixaram passar. Quando a economia desabou e o desemprego disparou, oito em cada dez brasileiros buscaram empréstimos para sobreviver. A Serasa documentou essa realidade em seus números: pessoas desesperadas, contas vazias, contas a pagar. E onde há desespero, há predadores.
No primeiro semestre de 2021, a Serasa Experian registrou uma tentativa de fraude a cada oito segundos. Foram 1,9 milhão de ataques em seis meses — um aumento de 15,6% comparado ao mesmo período do ano anterior e o maior volume já visto desde que o índice começou a ser medido, em 2011. Os bancos e cartões de crédito sofreram o maior impacto, com 1,2 milhão de ocorrências. Mas havia algo que surpreendeu os especialistas: os principais alvos não eram idosos ingênuos ou pessoas sem educação digital. Eram jovens até 25 anos, nativos da internet, supostamente mais espertos.
Os golpes seguem um roteiro previsível, mas eficaz. O primeiro pede um depósito antecipado — uma taxa, uma comissão, um IOF, um seguro — qualquer desculpa para que a vítima transfira dinheiro antes de receber o crédito. O segundo rouba dados pessoais para aplicar fraudes posteriores. E há um terceiro, cada vez mais comum: clonam o WhatsApp da vítima e usam suas redes sociais para pedir empréstimos em seu nome aos seus próprios contatos. Naiary Costa, auxiliar administrativo de 22 anos, quase caiu duas vezes. Na primeira, encontrou um site de simulação de crédito que era completamente falso. Na segunda, recebeu uma mensagem de uma "financeira conhecida" pedindo um valor antecipado para validar o empréstimo. Ela desconfiou a tempo.
Mas nem todos têm essa sorte. Samara Sant'Ana, gerente de Recursos Humanos com 41 anos, recebeu uma mensagem pedindo atualização de cadastro em uma clínica de estética. Seu WhatsApp foi clonado. A partir dali, seus contatos começaram a receber pedidos de empréstimo em seu nome. Duas pessoas caíram: uma depositou R$ 700, outra R$ 1.900. Samara postou o relato nas redes sociais tentando avisar os outros, mas ainda viu mais gente caindo. Três pessoas a procuraram depois. "A sensação é de total impotência", disse ela, "porque você não pode fazer nada". Alisson Azevedo, analista fiscal de 39 anos, teve a experiência ainda pior. Criminosos acessaram seus dados e criaram dívidas de R$ 6 mil em seu nome. Tentaram até comprar um carro usando suas informações. Levou quase um ano para regularizar a situação.
O Banco Central e a Caixa Econômica Federal alertam: instituições legítimas nunca pedem depósito antecipado. Nunca. Essa é uma regra absoluta. Quando alguém oferece um empréstimo com condições "vantajosas" e pede um pagamento inicial, é golpe. Os fraudadores são criativos — simulam até a musiquinha de espera dos bancos reais. Eles anunciam em jornais, revistas, panfletos, sites e telefonam diretamente para as vítimas. Segundo a advogada Patrícia dos Santos, especializada em Direito do Consumidor, algumas vítimas desconfiaram da oferta, mas os criminosos imitavam tão bem o atendimento bancário que conseguiram convencer.
Um novo alvo surgiu: o saque-aniversário do FGTS. Desde que a modalidade foi liberada, mais de 5,4 milhões de operações foram realizadas, movimentando R$ 10,3 bilhões. O sistema é legítimo e oferece taxas de juros menores que empréstimos pessoais — em um empréstimo comum com taxa média de 5,21% ao mês, uma parcela custa R$ 151; no saque-aniversário com 1,09% ao mês, cai para R$ 82. Mas a internet e as redes sociais explodem com anúncios prometendo facilitar a liberação. Os golpistas pedem depósitos para "liberar" o fundo ou roubam dados pessoais para aplicar outros golpes.
Para não cair nessas armadilhas, a proteção começa com pesquisa. Verifique o endereço eletrônico do site — deve começar com https, não apenas http, e ter um cadeado indicando segurança. Procure a empresa no Reclame Aqui e em redes sociais. Nunca forneça dados pessoais por WhatsApp, redes sociais ou e-mail. Nunca pague em contas de pessoas físicas — instituições legítimas usam contas jurídicas. Desconfie de ofertas para "negativados". Se cair em um golpe, registre um boletim de ocorrência imediatamente, reúna provas (comprovantes, prints, conversas), notifique seu banco e procure órgãos de defesa do consumidor. A regularização pode levar meses, mas o registro protege seus dados e documenta tentativas futuras de fraude.
Citas Notables
Os fraudadores são criativos e se aproveitam de um momento de vulnerabilidades das vítimas. A busca pela facilidade pode significar risco de fraudes.— Arthur Farme D'Amoed, executivo do Grupo H
Dizem que até a musiquinha de espera para atendimento era a mesma utilizada pela instituição financeira.— Patrícia dos Santos, advogada especializada em Direito do Consumidor