Em 2020, enquanto o Brasil enfrentava quase 195 mil mortes e mais de 7,6 milhões de infecções pela covid-19, cerca de 40 mil trabalhadores formais foram afastados de seus postos por mais de 15 dias e passaram a depender do auxílio-doença do INSS para sobreviver. Os picos de julho e agosto revelam, em números, o momento em que a pandemia mais pesou sobre os corpos e os meios de vida da população trabalhadora. Esses dados, porém, capturam apenas uma sombra do impacto real — deixando invisíveis os informais, os que adoeceram brevemente e os que não sobreviveram para solicitar qualquer benefício.
Cerca de 40 mil trabalhadores recebem auxílio-doença por covid-19 em 2020
40 mil trabalhadores incapacitados, mas milhões de infectados invisíveis
Por que esses 40 mil casos importam se o Brasil teve 7,6 milhões de infectados?
Porque esses são os únicos que o sistema formal de proteção social conseguiu registrar. Representam trabalhadores que ficaram tão doentes que não conseguiram voltar ao trabalho por mais de duas semanas. Os outros milhões ou se recuperaram rápido, ou nunca tiveram acesso ao benefício.
E as empresas, como ficaram com essa mudança no final do ano?
Até 31 de dezembro, elas podiam descontar do INSS o que pagavam nos primeiros 15 dias. Depois disso, voltaram a pagar do próprio bolso. Era uma válvula de escape temporária que se fechou no pior momento.
Julho e agosto tiveram os picos. O que isso diz sobre a pandemia naquele momento?
Que o vírus estava circulando intensamente, adoecendo muita gente ao mesmo tempo. Hospitais lotados, pessoas graves. Não era mais uma doença distante — estava dentro das casas e dos escritórios.
Se alguém fica afastado, recebe quanto?
91% do que teria de aposentadoria. Não é o salário cheio, é um pouco menos. E só começa a ser pago no 16º dia. Antes disso, a empresa paga tudo.
Então muita gente pode ter ficado sem renda nos primeiros 15 dias?
Exatamente. A menos que a empresa tivesse caixa para honrar isso, ou que o trabalhador tivesse economias. Para quem vive do salário, foram duas semanas muito difíceis.
Der Puls
- Quase 40 mil trabalhadores formais ficaram incapacitados por mais de 15 dias devido à covid-19, revelando a face econômica silenciosa da pandemia.
- Julho e agosto concentraram o maior colapso: mais de 15 mil afastamentos em apenas dois meses, espelhando o momento em que hospitais e famílias chegaram ao limite.
- O sistema de benefícios só enxerga os casos mais graves — trabalhadores informais, sintomas leves e vítimas fatais ficam fora das estatísticas do INSS.
- Uma lei de abril de 2020 permitiu que empresas abatessem os custos dos primeiros 15 dias de afastamento de suas contribuições ao INSS, aliviando temporariamente o setor produtivo.
- Com o fim do decreto de calamidade em 31 de dezembro, esse alívio expirou — e as empresas voltaram a arcar integralmente com os custos, mesmo com a pandemia ainda em curso.
Em 2020, enquanto o Brasil enfrentava quase 195 mil mortes e mais de 7,6 milhões de infecções pela covid-19, cerca de 40 mil trabalhadores formais foram afastados de seus postos por mais de 15 dias e passaram a depender do auxílio-doença do INSS para sobreviver. Os picos de julho e agosto revelam, em números, o momento em que a pandemia mais pesou sobre os corpos e os meios de vida da população trabalhadora. Esses dados, porém, capturam apenas uma sombra do impacto real — deixando invisíveis os informais, os que adoeceram brevemente e os que não sobreviveram para solicitar qualquer benefício.
Ao longo de 2020, 39.532 trabalhadores formais no Brasil precisaram se afastar do trabalho por mais de 15 dias consecutivos em razão da covid-19 — o tempo mínimo exigido pelo INSS para liberar o auxílio-doença. Entre abril e dezembro, esses trabalhadores receberam 91% do chamado salário de benefício, calculado com base na média de suas melhores contribuições à previdência.
O impacto não foi uniforme. Julho e agosto concentraram os momentos mais agudos: 8.415 afastamentos no primeiro mês, 7.131 no segundo — reflexo direto do pico da pandemia no país. Em dezembro, mesmo com alguma estabilização, mais de 3 mil pessoas ainda ingressavam no sistema por causa da doença.
Os números, porém, contam apenas parte da história. O Brasil registrou quase 195 mil mortes e mais de 7,6 milhões de infecções em 2020. O INSS registra apenas quem ficou incapacitado por mais de 15 dias com vínculo formal de emprego — deixando de fora os trabalhadores informais, os que tiveram sintomas leves e os que não sobreviveram. A recomendação sanitária era afastar todos por ao menos 14 dias, mas o sistema de benefícios só alcança os casos mais severos.
Para aliviar as empresas durante a crise, uma lei aprovada em abril permitiu que os custos dos primeiros 15 dias de afastamento fossem descontados das contribuições mensais ao INSS. Esse mecanismo, no entanto, expirou com o fim do decreto de calamidade em 31 de dezembro — devolvendo às empresas a responsabilidade integral sobre esses custos, mesmo com a pandemia ainda longe do fim.
No ano de 2020, quando a pandemia de covid-19 atingiu seu auge no Brasil, quase 40 mil trabalhadores formais precisaram se afastar do trabalho por mais de 15 dias consecutivos — o tempo mínimo que o Instituto Nacional do Seguro Social exige para liberar o auxílio-doença. Entre abril e dezembro, segundo dados da Secretaria de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, 39.532 pessoas receberam esse benefício especificamente por causa do novo coronavírus.
O peso da doença não se distribuiu uniformemente ao longo dos meses. Julho e agosto concentraram o maior número de afastamentos: 8.415 trabalhadores em julho, 7.131 em agosto. Esses números refletem o momento em que a pandemia acelerou no país, sobrecarregando hospitais e deixando milhares incapacitados para o trabalho. Em dezembro, quando a situação começava a se estabilizar, 3.064 pessoas ainda entravam no sistema de auxílio-doença por covid-19.
Mas esses 40 mil casos representam apenas uma fração do impacto real da doença. O Brasil registrou 194.949 mortes e mais de 7,6 milhões de infecções em 2020. Os números do INSS capturam apenas aqueles que precisaram se afastar por mais de 15 dias — deixando de fora os trabalhadores que tiveram sintomas leves, aqueles sem carteira assinada, e os que morreram. A recomendação sanitária era afastar todos os trabalhadores por pelo menos 14 dias, independentemente da gravidade dos sintomas, mas o sistema de benefícios só registra os casos mais severos.
O auxílio-doença funciona assim: trabalhadores com carteira assinada que ficam incapacitados por mais de 15 dias recebem 91% do chamado salário de benefício — um valor calculado pela média dos melhores salários que o trabalhador já contribuiu ao INSS. Nos primeiros 15 dias de afastamento, porém, a empresa é responsável por pagar o salário integral. Essa era uma carga pesada para o setor produtivo, especialmente em 2020, quando muitas empresas enfrentavam crises de caixa. Por isso, uma lei aprovada em abril autorizou as firmas a descontarem esses custos de suas contribuições mensais ao INSS, aliviando temporariamente o peso sobre os negócios.
Esse alívio, porém, tinha data de validade. Com o fim do decreto de calamidade em 31 de dezembro de 2020, as empresas voltaram a ter de arcar com o custo integral dos trabalhadores afastados por covid-19 nos primeiros 15 dias — uma mudança que recolocava a pressão financeira sobre o setor produtivo justamente quando a pandemia ainda não havia terminado. Enquanto isso, o Ministério da Economia ainda não havia consolidado todos os dados de 2020, faltando os números completos de dezembro. Também foi possível observar uma redução nos pedidos de auxílio-doença relacionados a acidentes de trabalho, reflexo direto do aumento do trabalho remoto durante o ano.
Bemerkenswerte Zitate
A recomendação era o afastamento de todos os trabalhadores, mesmo daqueles com quadro leve de sintomas, por pelo menos 14 dias— Orientação sanitária durante a pandemia