A criança nocauteada impelida para o combate por sete décadas
Bucci traça a habilidade de Marinho em circular entre elites políticas desde 1930, passando por Getúlio Vargas, regime militar e eleição de Collor. O livro relaciona agressão sofrida na infância com interpretação pessoal do quadro 'O Boneco' de Pancetti como chave psicológica para compreender o personagem.
- Roberto Marinho fundou a Rede Globo e permaneceu no comando por 70 anos, morrendo em 2003 aos 98 anos
- Eugênio Bucci é professor da ECA-USP e estuda televisão há quase 30 anos
- O livro tem 329 páginas e foi lançado pela Companhia das Letras na série Perfis Brasileiros
- Marinho tinha 1,64 metro de altura e usava palmilhas nos sapatos para parecer mais alto
- Marinho foi aliado de Getúlio Vargas em 1930 e apoiou Fernando Collor em 1989
Eugênio Bucci lança perfil biográfico de Roberto Marinho que conecta trauma infantil e obra de arte para explicar a ascensão do fundador da Globo nos meandros do poder político brasileiro.
Eugênio Bucci acaba de lançar um livro que não é bem uma biografia, embora pareça uma. Chamado "Roberto Marinho: Um Jornalista e Seu Boneco Imaginário", o trabalho de 329 páginas trata o fundador da Rede Globo não como um simples magnata de mídia, mas como um homem de 1,64 metro que usava palmilhas nos sapatos para parecer mais alto — um detalhe que resume, de certa forma, a obsessão de Bucci em entender quem foi realmente Roberto Marinho.
O que torna este livro diferente é sua estrutura psicológica. Bucci conecta dois pontos aparentemente distantes: um episódio de agressão que Marinho sofreu na infância, quando foi socado por um colega na escola, e um quadro de José Pancetti chamado "O Boneco", que pendia na parede da mansão do Cosme Velho, no Rio, onde Marinho viveu até sua morte em 2003, aos 98 anos. Marinho mesmo descreveu o quadro em depoimento de 1991, dizendo que via nele um menino envolto em solidão, mistério e fantasia. Para Bucci, essa conexão revela a chave psicológica de um homem que passou sete décadas no comando de um império de comunicação.
O livro percorre a trajetória de Marinho desde seus primeiros passos no jornalismo. Seu pai, Irineu Marinho, havia fundado o jornal A Noite, negócio que se perdeu para um sócio traidor. Roberto herdou essa ferida e construiu algo maior. O nome O Globo nasceu de um concurso para batizar um novo jornal de Marinho e se tornaria a marca de mídia mais poderosa do país. Mas o que interessa a Bucci não é apenas o sucesso empresarial — é como Marinho navegou pelos meandros do poder político desde muito cedo. Em 1930, já era aliado de Getúlio Vargas, embora tenha se afastado quando Vargas se aproximou do nazismo. Durante o regime militar, Marinho manteve relações delicadas, protegendo jornalistas comunistas em suas redações enquanto evitava a subserviência total. Em 1989, apoiou Fernando Collor de Mello, cujo pai conhecia há décadas.
Bucci é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e passou quase 30 anos estudando televisão e seu papel na sociedade brasileira. Ele foi, durante anos, crítico severo de Marinho — um homem que se fazia chamar de "doutor" sem ter formação acadêmica. Mas ao visitar a mansão transformada em museu e contemplar "O Boneco" sob a perspectiva de seu biografado, Bucci se emocionou. O convite para escrever o livro veio em 2013, após uma participação no Roda Viva, quando Mario Sergio Conti, coordenador da série Perfis Brasileiros da Companhia das Letras, o procurou.
Para Bucci, um perfil é uma categoria clássica do jornalismo — uma forma de olhar um personagem que não pretende ser exaustiva como uma biografia. Ele leu extensamente, consultou bibliotecas, conversou com pessoas e entrevistou João Roberto Marinho, atual presidente do Grupo Globo. Com João Roberto, validou um dos episódios mais polêmicos narrados pelo biógrafo Leonencio Nossa: a questão do empréstimo que o banqueiro Walther Moreira Salles supostamente faria a Marinho para quitar sua dívida com o Citibank em troca de assumir a Globo. João Roberto não acredita que Moreira Salles fosse um traidor, mas admite não poder descartar a hipótese. O fato é que quem socorreu Marinho foi José Luiz de Magalhães Lins, executivo do Banco Nacional.
O lançamento do livro de Bucci suscitou rumores de que a Companhia das Letras buscava compensar a perda da biografia de Leonencio Nossa, que saiu pela Nova Fronteira após disputas editoriais. A editora nega isso, afirmando que o perfil de Bucci foi feito simultaneamente à biografia de Leonencio e que os dois produtos não são excludentes — citando exemplos como as obras sobre Getúlio Vargas e D. Pedro II, que contam tanto com biografias quanto com perfis. Bucci reforça que sua meta era de fato um perfil, não uma biografia completa, para a qual diz não ter tempo nem energia. O que o interessa é compreender quem é essa figura que aos 20 e poucos anos começou a assumir posições de liderança e permaneceu no comando por 70 anos — alguém que comporta muitos estudos, uma figura-chave na evolução do capitalismo brasileiro da segunda metade do século 20.
Notable Quotes
Toda vez que olho esse pequeno quadro de Pancetti, tenho a comovida sensação de estar olhando para dentro de mim mesmo— Roberto Marinho, sobre o quadro 'O Boneco'
Foi a memória oculta, inconfessa, da criança nocauteada que o impeliu para o combate— Eugênio Bucci, no livro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Bucci escolheu conectar um trauma infantil com um quadro de arte para entender Marinho?
Porque Marinho mesmo fez essa conexão. O quadro não é uma interpretação forçada — é o próprio Marinho falando sobre o que via nele. Bucci apenas seguiu o fio que Marinho deixou.
Mas isso não é análise psicanalítica? Bucci não disse que não queria fazer isso?
Exato. Ele é cuidadoso em dizer que não está fazendo psicanálise. Está usando a psicologia como uma chave narrativa — a agressividade, a combatividade que apareceu em Marinho desde criança, e que ele mesmo reconheceu naquele quadro.
Como um homem que era crítico severo de Marinho consegue escrever sobre ele com admiração?
Bucci visitou a mansão, viu o quadro com seus próprios olhos, e algo mudou. A admiração não é pela pessoa — é pela complexidade da figura. Você pode criticar alguém e ainda reconhecer sua importância histórica.
Por que a editora insiste que não é uma compensação pela biografia perdida?
Porque tecnicamente não é. Mas a disputa judicial com Leonencio Nossa deixou a Companhia das Letras em posição delicada. Ter dois livros sobre o mesmo personagem ajuda a narrativa de que ambos têm valor próprio.
O que diferencia um perfil de uma biografia?
Tempo e escopo. Uma biografia é exaustiva, cronológica, tenta cobrir tudo. Um perfil é uma fotografia em profundidade — escolhe um ângulo, ilumina bem, deixa sombras. Bucci escolheu iluminar o homem através de suas próprias palavras e de um quadro que o obsessionava.