Enfermeiros subcontratados boicotam centros de vacinação por atrasos salariais

Utentes enfrentam atrasos de até duas horas em centros de vacinação e remarcações de consultas devido aos boicotes dos enfermeiros subcontratados.
Um mês inteiro depois de prestar os serviços
Reflexo do atraso máximo de pagamento a que a Precise se comprometeu para os seus enfermeiros subcontratados.
Mark

Por que é que estes enfermeiros escolheram não avisar? Não seria mais eficaz avisar com antecedência?

Mimi

Não. O objetivo era criar caos máximo. Se avisassem, a Precise teria tempo para arranjar substituições. Sem aviso, o sistema colapsa. É a única linguagem que a empresa compreende.

Mark

A Precise nega os atrasos. Como é que sabemos que estão a mentir?

Mimi

Temos o e-mail deles próprios. A empresa compromete-se a pagar "o mais rápido possível, independentemente do prazo fixado". Isso é uma confissão. Se não houvesse atrasos, não precisavam de dizer isto.

Mark

Mas as vacinas não foram desperdiçadas. Os utentes foram vacinados. Qual é o verdadeiro dano?

Mimi

O dano é invisível. Duas horas de espera em vez de vinte minutos. Consultas remarcadas. Pessoas idosas em pé. E, mais importante, a mensagem: profissionais de saúde não são dignos de ser pagos a tempo. Se não protestarem assim, ninguém ouve.

Mark

A ARSLVT contratou através de empresas temporárias. Era uma decisão administrativa ou uma forma de evitar responsabilidade?

Mimi

Provavelmente ambas. Administrativamente, é mais flexível. Mas também significa que a ARSLVT fica com as mãos limpas. Se há problemas, culpa-se a Precise. Se há sucesso, a ARSLVT leva o crédito.

Mark

O que acontece agora?

Mimi

Ninguém sabe. A Precise ameaçou despedir quem faltar. Os enfermeiros continuam a faltar. A DGS quer acelerar a vacinação. Alguém tem de ceder, mas ninguém quer ser o primeiro.

  • Enfermeiros começaram a faltar aos turnos sem aviso, deixando centros de vacinação a funcionar com esqueletos de equipa e utentes à espera de até duas horas.
  • Estimam-se 101 turnos cancelados e 808 horas de trabalho perdidas só em novembro, precisamente quando a DGS anunciava planos para acelerar a vacinação.
  • Os profissionais denunciam pagamentos atrasados desde junho, com prazos que foram sendo empurrados até ao ponto em que um mês de trabalho só era pago 30 dias depois — e um e-mail interno da Precise parece confirmar o que a empresa nega publicamente.
  • A Precise respondeu com ameaças de exclusão dos turnos, a Ordem dos Enfermeiros remeteu a responsabilidade para os profissionais, e a ARSLVT ficou em silêncio — deixando utentes e enfermeiros sem interlocutor.

Em novembro de 2021, cento e oitenta e seis enfermeiros subcontratados pela empresa Precise iniciaram um boicote silencioso nos centros de vacinação de reforço contra a covid-19 e a gripe em vários concelhos da região de Lisboa. Sem avisar com antecedência, faltavam aos turnos como forma de protesto contra contratos precários, salários desiguais e pagamentos que chegavam com meses de atraso. O gesto, deliberadamente calculado para causar o máximo impacto, revelou uma contradição profunda: o sistema de saúde pública dependia de trabalhadores a quem o próprio sistema não cumpria os compromissos mais básicos.

Em novembro de 2021, os centros de vacinação de reforço contra a covid-19 e a gripe em concelhos como Sintra, Almada, Seixal, Sesimbra e Setúbal começaram a funcionar em câmara lenta. Enfermeiros deixavam de aparecer aos turnos sem qualquer aviso prévio. Os utentes esperavam duas horas. Alguns eram remarcados para o dia seguinte. As doses não eram desperdiçadas, mas o sistema rangia — e o problema era intencional.

Cento e oitenta e seis enfermeiros contratados pela empresa de trabalho temporário Precise estavam em boicote. Mário André Macedo, um dos rostos do protesto e mestre em Saúde Pública, explicou a lógica: não avisar com antecedência maximizava o impacto. As estimativas apontavam para 101 turnos cancelados e 808 horas de trabalho perdidas só ao longo de novembro.

As razões acumulavam-se há meses. Excesso de trabalho, falta de pessoal, contratos precários e, sobretudo, pagamentos que não chegavam nos prazos acordados. Os atrasos tinham começado em junho e prolongado-se até setembro. Os prazos foram sendo empurrados — do dia 15 para o 22, depois para o 30 do mês seguinte — o que significava que um enfermeiro que trabalhasse todo outubro só receberia em 30 de novembro. A isso somava-se uma assimetria salarial gritante: pelo mesmo trabalho, um enfermeiro recebia valores diferentes consoante o concelho, fruto da opção da ARSLVT de recorrer a empresas de trabalho temporário em vez de contratar diretamente.

A Precise negou tudo num comunicado, afirmando que as condições eram acordadas individualmente e que não havia atrasos. Mas a TVI24 teve acesso a um e-mail da empresa, datado de 29 de outubro, onde se lia: "Fica também aqui o compromisso da nossa parte em pagar-vos o mais rápido possível, independentemente do prazo fixado." Uma confissão disfarçada de promessa. A resposta da empresa aos boicotes foi ameaçar com a exclusão de qualquer profissional que faltasse sem justificação atempada.

A situação agravava-se precisamente quando a Direção-Geral da Saúde anunciava planos para acelerar a vacinação. A Ordem dos Enfermeiros limitou-se a dizer que as formas de protesto eram da responsabilidade dos profissionais, cujos direitos não tinham sido respeitados. A ARSLVT não respondeu. O silêncio das autoridades era ensurdecedor — e os centros de vacinação continuavam à espera.

Nos centros de vacinação de reforço contra a covid-19 e a gripe, algo começou a falhar em novembro. Enfermeiros deixavam de aparecer aos turnos sem aviso prévio. Não havia substituições. Os utentes, em vez de esperarem quinze ou vinte minutos, viam-se obrigados a aguardar duas horas. Alguns eram remarcados para o dia seguinte. A vacinação não parava — as doses não eram desperdiçadas — mas o sistema funcionava em câmara lenta, e a culpa era intencional.

Cento e oitenta e seis enfermeiros, todos contratados através da empresa de trabalho temporário Precise, estavam a fazer boicote. Mário André Macedo, um deles, explicou à TVI24 que a estratégia era simples: não avisar com antecedência. Assim, o impacto seria máximo. Os concelhos mais atingidos eram Sintra, Almada, Seixal, Sesimbra e Setúbal. As estimativas apontavam para cento e um turnos cancelados entre o primeiro e o trigésimo de novembro — oitocentas e oito horas de trabalho perdidas.

O protesto tinha raízes profundas. Os enfermeiros denunciavam excesso de trabalho, falta de pessoal, contratos precários e, sobretudo, pagamentos que não chegavam nos prazos combinados. Macedo, que era também mestre em Saúde Pública, apontava o dedo à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Em vez de contratar diretamente, a ARSLVT havia optado por empresas de trabalho temporário. O resultado foi caótico: assimetrias salariais gritantes. Pelo mesmo trabalho, um enfermeiro recebia um valor em Odivelas e outro na Amadora. A Precise, em particular, pagava menos do que as concorrentes e, nos últimos meses, fazia-o fora dos prazos acordados.

Os atrasos não eram episódios isolados. Começaram em junho e prolongaram-se até setembro. Inicialmente, os pagamentos deveriam chegar até ao dia quinze do mês seguinte. Depois passaram para o vinte e dois. A empresa comprometeu-se então a pagar até ao trigésimo dia do mês seguinte — o que significava que um enfermeiro que trabalhasse todo o mês de outubro só receberia o salário a trinta de novembro. Um mês inteiro depois de prestar os serviços. A Precise, porém, negava tudo. Num comunicado, afirmou que as condições de pagamento eram acordadas individualmente com cada profissional e que não havia atrasos. Mas a TVI24 teve acesso a um e-mail da empresa, datado de vinte e nove de outubro, onde se lia: "Fica também aqui o compromisso da nossa parte em pagar-vos o mais rápido possível, independentemente do prazo fixado." Uma confissão disfarçada.

A Precise respondeu aos boicotes com ameaças. Enviou um e-mail informando que qualquer falta injustificada ou de última hora resultaria na exclusão do enfermeiro dos turnos nos centros de vacinação. Os turnos tinham de ser confirmados na véspera até às três da tarde. Até ao momento em que a reportagem foi publicada, nenhum profissional havia sido dispensado, mas a tensão era palpável.

Tudo isto acontecia quando a Direção-Geral da Saúde anunciava planos para acelerar a vacinação. O timing era desastroso. A Ordem dos Enfermeiros, contactada pela TVI24, respondeu apenas que as formas de protesto diziam respeito aos enfermeiros, uma vez que os seus direitos não tinham sido respeitados. A ARSLVT não respondeu às questões colocadas. O silêncio das autoridades era ensurdecedor, enquanto os centros de vacinação funcionavam em câmara lenta e os utentes esperavam.

Os enfermeiros não avisam com a antecedência necessária que não vão fazer determinado turno, precisamente para criar um forte impacto na organização dos centros de vacinação
— Mário André Macedo, enfermeiro representante do grupo
As formas de protesto só aos enfermeiros dizem respeito, uma vez que não têm sido respeitados
— Bastonária da Ordem dos Enfermeiros
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