Em um momento em que o Brasil colhe os frutos de décadas de políticas públicas contra o HIV — incluindo a certificação histórica de eliminação da transmissão vertical em 2025 —, o Ministério da Saúde propõe dar mais um passo: incorporar ao SUS o cabotegravir, uma PrEP injetável aplicada a cada dois meses. A iniciativa, apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, reconhece que a adesão diária a um comprimido é, para muitos, um obstáculo real à proteção. A Conitec avaliará a proposta em agosto, pesando eficácia, economia e equidade de acesso — o eterno triângulo das decisões de
Brasil propõe PrEP injetável no SUS para ampliar prevenção do HIV
Duas injeções por ano em vez de 365 doses anuais
Por que o Brasil está propondo isso agora? Já não tinha a PrEP oral?
Tinha, mas a PrEP oral exige um comprimido todos os dias. Muitas pessoas simplesmente não conseguem manter essa rotina — seja por esquecimento, constrangimento, ou circunstâncias da vida. O injetável muda o jogo: duas vezes por ano em vez de 365 doses anuais.
E funciona? Os testes mostram que protege mesmo?
Os ensaios clínicos no Hospital das Clínicas indicam proteção extremamente alta. Mas a Conitec ainda vai analisar tudo — não é só eficácia, é também custo e se o SUS consegue oferecer para todo mundo que precisa.
O Brasil está em uma posição especial nessa conversa, certo?
Muito. Foi o único país continental a eliminar a transmissão vertical do HIV. Isso significa que praticamente nenhuma criança nasce com o vírus aqui. É um feito raro no mundo.
Como conseguiram isso?
Testagem e tratamento em massa durante a gravidez. Mais de 95% das gestantes com HIV recebem pré-natal e medicação. Quando você trata a mãe, o risco de passar para o bebê cai drasticamente.
E as mortes? Melhoraram?
Caíram 13% em um ano. Eram 10 mil óbitos em 2023, caíram para 9,1 mil em 2024. Globalmente, desde 2010, as mortes por aids caíram 57%.
Então essa proposta do injetável é o próximo passo?
Exatamente. Já controlaram a transmissão vertical, já aumentaram o acesso ao diagnóstico. Agora querem oferecer uma prevenção que funcione melhor para quem tem dificuldade com a rotina diária.
El Pulso
- O Brasil registrou 9,1 mil mortes por aids em 2024, queda de 13% em relação ao ano anterior, mas o vírus ainda cobra um preço alto de populações com menor acesso ou dificuldade de adesão ao tratamento oral diário.
- A PrEP oral exige disciplina cotidiana que nem todos conseguem manter, criando uma lacuna de proteção justamente entre os mais vulneráveis — lacuna que o cabotegravir injetável, com apenas duas doses por ano, promete fechar.
- O medicamento já está em fase de testes no Hospital das Clínicas da USP, com resultados preliminares que apontam proteção elevada, e a proposta formal foi encaminhada à Conitec para análise em agosto.
- A decisão final equilibrará critérios científicos, econômicos e de acesso equitativo, determinando se essa tecnologia chegará aos usuários do SUS ainda em 2026.
- O anúncio ocorre no palco simbólico da primeira Conferência Internacional de Aids realizada no Brasil, reforçando o protagonismo do país numa agenda global em que já acumula marcos históricos.
Em um momento em que o Brasil colhe os frutos de décadas de políticas públicas contra o HIV — incluindo a certificação histórica de eliminação da transmissão vertical em 2025 —, o Ministério da Saúde propõe dar mais um passo: incorporar ao SUS o cabotegravir, uma PrEP injetável aplicada a cada dois meses. A iniciativa, apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, reconhece que a adesão diária a um comprimido é, para muitos, um obstáculo real à proteção. A Conitec avaliará a proposta em agosto, pesando eficácia, economia e equidade de acesso — o eterno triângulo das decisões de saúde pública.
Durante a 26ª Conferência Internacional de Aids — realizada no Brasil pela primeira vez —, o Ministério da Saúde anunciou a proposta de incorporar o cabotegravir ao SUS. O medicamento injetável de longa duração seria aplicado a cada dois meses, oferecendo uma alternativa concreta à PrEP oral diária para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão. O ministro Alexandre Padilha destacou que a decisão considerará não apenas eficácia científica, mas também critérios econômicos e de acesso equitativo.
O cabotegravir já está sendo testado no Hospital das Clínicas da USP, com resultados preliminares promissores. A proposta foi encaminhada à Conitec, que deve analisar o pedido em agosto. Se aprovado, o medicamento representaria uma mudança de paradigma na prevenção do HIV dentro do sistema público.
O anúncio chega em um momento de avanços expressivos. Em 2025, o Brasil foi certificado pela OPAS como o único país continental a eliminar a transmissão vertical do HIV, mantendo a taxa abaixo de 2% e garantindo pré-natal, testagem e tratamento para mais de 95% das gestantes com o vírus. Em 2024, os óbitos por aids caíram 13%, chegando a 9,1 mil — reflexo de políticas que também dobraram a oferta de testes rápidos no SUS nos últimos três anos.
A decisão da Conitec em agosto dirá se essa nova ferramenta chegará aos usuários do sistema público ainda em 2026, potencialmente abrindo uma nova porta de proteção para quem mais precisa.
O Brasil apresentou nesta segunda-feira uma proposta ambiciosa para expandir as ferramentas de prevenção do HIV dentro do sistema público de saúde. Durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no país pela primeira vez em sua história, o Ministério da Saúde anunciou a intenção de incorporar o cabotegravir, um medicamento injetável de ação prolongada, ao portfólio do SUS. A droga seria administrada a cada dois meses, oferecendo uma alternativa radicalmente diferente da PrEP oral que o sistema oferece atualmente — um comprimido diário que muitos pacientes enfrentam dificuldades em manter.
O medicamento já está sendo testado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e os resultados preliminares apontam para uma proteção extremamente elevada contra a infecção. A proposta foi encaminhada à Conitec, a comissão responsável por avaliar novas tecnologias para o SUS, que deve analisar o pedido em agosto. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, explicou o raciocínio por trás da iniciativa: pessoas que enfrentam dificuldades em aderir a um regime diário de medicação poderiam se beneficiar de uma opção que exige apenas duas injeções por ano. A decisão final, ressaltou, considerará não apenas a eficácia científica, mas também critérios econômicos e a capacidade de o sistema oferecer acesso equitativo à população.
O anúncio ocorre em um momento de avanços significativos na resposta brasileira ao HIV. Em 2025, o Brasil foi certificado pela Organização Pan-Americana da Saúde como o único país continental a eliminar a transmissão vertical do HIV — aquela que passa de mãe para filho durante a gravidez ou parto. Para alcançar esse marco, o país manteve a transmissão vertical abaixo de 2% e garantiu que menos de 0,5 caso por mil nascidos vivos fosse infectado. Mais de 95% das gestantes com HIV receberam pré-natal, testagem e tratamento adequado.
Os números de mortalidade também refletem essa trajetória. Em 2024, o Brasil registrou 9,1 mil óbitos relacionados à aids, uma queda de 13% em relação aos 10 mil óbitos de 2023. Globalmente, segundo dados da Unaids, o número de mortes por aids caiu 57% desde 2010, passando de 1,3 milhão para 570 mil. No Brasil especificamente, a oferta de testes rápidos para HIV no SUS aumentou 100% nos últimos três anos, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce. Atualmente, 22% das pessoas que recebem o diagnóstico iniciam o tratamento no mesmo dia, e mais da metade começa a terapia antirretroviral em até 30 dias.
A PrEP — Profilaxia Pré-Exposição — é uma estratégia destinada a pessoas que correm risco de exposição ao HIV mas ainda não vivem com o vírus. A versão oral, disponível no SUS desde antes, requer disciplina diária. A versão injetável de longa duração representa uma mudança de paradigma: menos frequência de administração, potencialmente maior adesão, e uma nova porta de entrada para pessoas que não conseguem manter a consistência de um comprimido diário. A decisão da Conitec em agosto determinará se essa tecnologia chegará aos usuários do sistema público nos próximos meses.
Citas Notables
O Brasil quer incorporar novas tecnologias de prevenção do HIV porque elas podem ampliar as possibilidades de cuidado e oferecer alternativas para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao uso diário da medicação— Ministro da Saúde Alexandre Padilha