No coração de um templo esportivo transformado em arena política, um bispo evangélico navegou com habilidade retórica a fronteira tênue entre fé e voto, declarando apoio a Flávio Bolsonaro enquanto negava fazê-lo. O evento de centenário das Assembleias de Deus no Maracanãzinho tornou-se, na noite de sábado, um espelho da disputa pelo eleitorado evangélico que marcará o segundo turno — um campo onde a linguagem do sagrado e a lógica do poder se entrelaçam há décadas.
Bispo diz que 'pediria voto para Flávio' em evento evangélico com candidato
Se eu pudesse, eu pediria voto para o Flávio
Como é possível negar que está pedindo voto enquanto explica detalhadamente por que pediria?
O bispo estava navegando uma restrição legal. Líderes religiosos não podem fazer campanha direta em eventos, então ele criou uma construção retórica que permitia expressar apoio sem tecnicamente violar a regra.
Mas a construção é tão óbvia que fica a pergunta: qual é o propósito legal de uma restrição que pode ser contornada tão facilmente com palavras?
É verdade. A intenção da lei é clara, e a execução aqui também. O que importa é que o público entendeu a mensagem.
E quanto ao bispo Abner Ferreira saudando Douglas Ruas? Isso não contradiz a aliança dele com Paes?
Não necessariamente. Abner apoiou Paes para prefeito, mas Douglas Ruas é governador eleito. São disputas diferentes. Ainda assim, mostra que as lideranças evangélicas estão se movimentando em múltiplas direções.
Mas o artigo não deixa claro se Abner apoiou Ruas na campanha ou se apenas o saudou no evento. Há uma diferença importante entre reconhecer um resultado e ter feito campanha ativa.
Justo. O que sabemos é que Abner esteve ao lado de Paes em 2024 e promoveu encontros com pastores em apoio a Paes este ano. O saudação a Ruas no evento é um gesto, mas não sabemos se houve campanha ativa.
Qual é o significado maior disso tudo?
Que o eleitorado evangélico é disputado e que lideranças diferentes fazem escolhas diferentes. Não é um bloco monolítico.
Le Pouls
- O bispo Samuel Ferreira pediu ao público que repetisse 'irmão vota em irmão' dez vezes e depois explicou em detalhes por que pediria votos a Flávio Bolsonaro — tudo enquanto insistia que não estava pedindo voto algum.
- A prisão de Jair Bolsonaro foi evocada como ferida aberta: 'Dói, mas dói muito', disse o bispo, transformando a condenação por tentativa de golpe em narrativa de martírio religioso.
- Flávio Bolsonaro cantou música gospel no palco e projetou a vitória no segundo turno, prometendo que o pai 'ficará livre' e que Madureira estará presente nesse momento.
- O evento expõe a disputa acirrada pelo voto evangélico: enquanto lideranças das Assembleias de Deus se mobilizam pelo bolsonarismo, outras denominações mantêm alianças com candidatos progressistas.
- A presença simultânea do bispo Abner Ferreira — aliado histórico de Eduardo Paes — no mesmo evento revelou as tensões e acomodações internas do campo evangélico às vésperas do segundo turno.
No coração de um templo esportivo transformado em arena política, um bispo evangélico navegou com habilidade retórica a fronteira tênue entre fé e voto, declarando apoio a Flávio Bolsonaro enquanto negava fazê-lo. O evento de centenário das Assembleias de Deus no Maracanãzinho tornou-se, na noite de sábado, um espelho da disputa pelo eleitorado evangélico que marcará o segundo turno — um campo onde a linguagem do sagrado e a lógica do poder se entrelaçam há décadas.
Na noite de sábado, o Maracanãzinho abrigou a festa de centenário das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira — e, com ela, uma das cenas mais reveladoras da campanha para o segundo turno. O bispo Samuel Ferreira, presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus, subiu ao palco diante de Flávio Bolsonaro e do governador eleito Douglas Ruas e entregou uma performance retórica de rara habilidade: pediu ao público que repetisse dez vezes a frase 'irmão vota em irmão', depois negou estar pedindo votos enquanto listava, em detalhes, todas as razões pelas quais o faria se pudesse. Honesto, sério, crente, indicado pelo presidente — assim descreveu o candidato. Ao convocar Flávio ao microfone, perguntou à multidão se estava pedindo voto. O coro respondeu: 'não'.
Antes disso, Ferreira havia lamentado a prisão de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de estado, com palavras de saudade e dor. No palco, Flávio cantou uma música gospel, falou em 'guerra espiritual' e prometeu que o pai 'ficará livre' e que Madureira estará presente na vitória. Douglas Ruas, muito aplaudido, manteve tom mais contido e religioso, dizendo não haver lugar melhor para estar naquele momento.
O evento iluminou a mobilização evangélica em torno do bolsonarismo, mas também suas contradições internas: o bispo Abner Ferreira, da mesma Assembleia de Deus de Madureira e aliado histórico de Eduardo Paes, estava presente e saudou a eleição de Ruas com uma bênção — lembrança de que, no campo evangélico, as alianças são múltiplas e o eleitorado, disputado por todos os lados.
No sábado à noite, dentro do Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira subiu ao palco durante a festa de centenário das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira e fez uma declaração que ocuparia as próximas horas de debate político. Ferreira, que preside a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil, estava diante de Flávio Bolsonaro e do governador eleito Douglas Ruas, ambos do PL, e tinha uma mensagem para entregar.
Após um discurso longo repleto de referências a Jair Bolsonaro e expressões de saudade pelo ex-presidente e sua proximidade com a Igreja Evangélica, Ferreira pediu que o público repetisse dez vezes a frase "irmão vota em irmão". Depois disso, virou-se diretamente para Flávio Bolsonaro. O que se seguiu foi uma performance retórica notável: o bispo negou estar pedindo votos enquanto, simultaneamente, explicava em detalhes por que pediria votos se pudesse. Disse que Flávio era honesto, sério, crente, e havia sido indicado pelo presidente. Repetiu várias vezes que não gostava de pedir voto, que a mídia estava equivocada se interpretasse suas palavras assim, mas que se pudesse, pediria. Quando chamou o candidato ao microfone, perguntou à multidão: "Igreja, eu estou pedindo voto, sim ou não?" A resposta foi um coro de "não".
Antes disso, Ferreira havia criticado a prisão de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de estado. "A gente sente saudade, mas a gente não pode mais ver ele. Que país é esse? Dói, mas dói muito", disse, acrescentando que respeitavam a lei ainda que discordassem dela. No palco, Flávio Bolsonaro cantou uma música gospel enquanto Douglas Ruas, ao fundo, fingiu conhecer a letra com pequenos trechos. O candidato bolsonarista falou sobre enfrentar uma "guerra espiritual" que o Brasil estaria vivendo, mencionando inimigos que usam "a arma do diabo, que é a mentira". Fez referências ao pai e projetou a vitória no segundo turno: "Jair Bolsonaro ficará livre e Madureira estará lá. O Brasil vai ter um novo presidente e Madureira estará lá".
Douglas Ruas, muito aplaudido, fez um discurso mais contido, também de tom religioso, dizendo que não haveria lugar melhor para estar naquele momento de retotalização dos votos do que na casa do Senhor. O evento revelou a mobilização de lideranças evangélicas em torno da candidatura bolsonarista para o segundo turno, enquanto outras denominações mantêm alianças distintas. Durante o mesmo evento, o bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e tradicional aliado político de Eduardo Paes, saudou a eleição de Ruas com uma bênção. Abner havia participado das articulações de apoio a Paes, inclusive durante a campanha à prefeitura de 2024, e também promoveu encontros com pastores em apoio à candidatura de Paes neste ano, quando o então prefeito buscava ampliar sua presença entre o eleitorado evangélico, historicamente disputado por forças conservadoras.
Citations marquantes
Se eu pudesse pedir voto, eu pediria. Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é honesto. Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é sério. Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é crente.— Bispo Samuel Ferreira
Jair Bolsonaro ficará livre e Madureira estará lá. O Brasil vai ter um novo presidente e Madureira estará lá— Flávio Bolsonaro