Belém intensifica combate ao Aedes aegypti com estratégia inovadora de larvicida

Em 2024, a dengue infectou mais de 10 milhões de brasileiros e matou mais de 6 mil; nos EUA, seis pessoas morreram entre quase 3.800 casos registrados.
Estamos usando o mosquito contra o mosquito
O microbiologista Moisés Silva explica a estratégia dos baldes com larvicida que transformam a fêmea em disseminadora do produto.
Mark

Por que um balde plástico é mais eficaz do que simplesmente pulverizar inseticida?

Mimi

Porque o balde usa a própria fêmea como veículo. Ela pousa ali para botar ovos, fica coberta de larvicida e espalha o produto em locais que os humanos nunca conseguiriam alcançar — num raio de 400 metros.

Luke

Mas isso depende de as pessoas manterem o balde no lugar certo e não o descartarem ou usarem para outra coisa, certo? Vi na reportagem que um neto jogou fora durante a limpeza.

Mimi

Exatamente. Por isso o trabalho comunitário é tão importante. Os agentes visitam mensalmente para reabastecer e verificar. Sem educação e acompanhamento, a estratégia não funciona.

Mark

E quanto aos números? 70% de redução em um ano é realista?

Luke

O prefeito citou isso, mas a reportagem não detalha como foi medido. É redução de casos confirmados? De larvas encontradas? Seria bom saber a metodologia.

Mimi

Verdade. Mas o contexto é claro: em 2024 a dengue infectou mais de dez milhões de brasileiros. Belém viu seus casos aumentarem sete vezes. Algo precisava mudar urgentemente.

Mark

E essa fábrica de mosquitos com Wolbachia — é segura?

Luke

A reportagem menciona que é ecologicamente correta e que a bactéria bloqueia o vírus, mas não entra em detalhes sobre testes de segurança ou possíveis efeitos colaterais. É uma técnica promissora, mas ainda em desenvolvimento.

Mimi

O Brasil está apostando em múltiplas frentes justamente porque nenhuma solução única resolve o problema. Baldes, educação, Wolbachia, nebulização durante surtos.

Mark

Então é realmente uma questão de mobilização total?

Mimi

Sim. Luciano Moreira, da Wolbito, deixa claro: "Não basta só o governo chegar pulverizando; é preciso desenvolver todo um movimento." Treinar médicos, educar a população, reforçar orçamentos.

  • Prefeitura de Belém distribuiu 5 mil baldes com larvicida em 2025
  • Em 2024, dengue infectou mais de 10 milhões de brasileiros e matou mais de 6 mil
  • Casos de dengue em Belém aumentaram sete vezes em 2024 em relação a 2023
  • Redução de 70% em doenças transmitidas por mosquitos na última temporada em Belém
  • Cerca de um terço dos mais de mil agentes municipais de saúde trabalha no controle de vetores

A prefeitura de Belém distribuiu 5 mil baldes especiais contendo larvicida que usam as fêmeas para espalhar o produto em locais de reprodução inacessíveis. Em 2024, a dengue infectou mais de 10 milhões de brasileiros e matou mais de 6 mil, com casos em Belém aumentando sete vezes em relação ao ano anterior.

Belém implementa campanha agressiva contra o mosquito da dengue usando baldes com larvicida e mobilização comunitária, reduzindo casos em 70% na última temporada.

Paulo Gomes tem 65 anos e nunca esqueceu o medo que sentiu dez anos atrás, quando sua esposa Lucirene foi internada com dengue. Quinze dias no hospital, o corpo consumido por febre e dores que pareciam não ter fim. Ela voltou para casa, mas levou meses para se recuperar completamente. Aquela experiência reconfigurou tudo em Paulo — a maneira como ele via os mosquitos, o risco que representavam, a urgência de fazer algo a respeito.

Hoje, Paulo participa com entusiasmo de uma campanha agressiva lançada pela Prefeitura de Belém, a cidade onde vive, cercada pela floresta amazônica. Os agentes municipais o ensinaram que o Aedes aegypti se reproduz em água parada, prospera em lugares úmidos e com cheiro de mofo. Ele esvazia a piscina do quintal religiosamente após os netos irem embora no domingo. Mantém a varanda limpa e organizada com sua mulher. E desde o início do ano, guarda um balde plástico — peça central de uma estratégia que transforma o próprio mosquito em arma contra si mesmo.

O balde, do tamanho de uma lixeira, é exatamente o tipo de cavidade escura e cheia de água que uma fêmea procura para depositar seus ovos. Mas contém larvicida, um produto químico que mata os mosquitos jovens. Quando a fêmea pousa ali, fica coberta pela substância. Ao voar para longe — geralmente num raio de 400 metros — espalha o produto em outros locais de reprodução que seriam impossíveis de alcançar manualmente. A Prefeitura distribuiu 5 mil dessas unidades nas áreas mais afetadas pela dengue no ano passado. Cada uma custa menos de dois dólares.

Belém é uma cidade que conhece bem o sofrimento causado pelo mosquito. Há décadas seus moradores convivem com o Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya. A umidade é constante — os belenenses brincam que a cidade tem apenas duas estações: a que chove todo dia e aquela em que chove o dia inteiro. As mangueiras caem nas ruas atraindo insetos; pequenas poças de água nas calçadas, pilhas de pneus, lixeiras — tudo oferece ao mosquito o berçário perfeito para se multiplicar aos milhões. Em 2024, a dengue infectou mais de dez milhões de brasileiros e matou mais de 6 mil. Em Belém especificamente, os casos aumentaram sete vezes em relação ao ano anterior, lotando os hospitais e forçando uma reavaliação completa da estratégia municipal.

Foi o microbiologista Moisés Silva, da Universidade Federal do Pará, quem pediu ao ministro da Saúde que incluísse Belém entre dez cidades para testar os baldes especiais e financiasse o treinamento dos funcionários municipais. Com sua equipe, Silva analisou a distribuição dos casos pela cidade, cruzando dados do laboratório de entomologia local sobre larvas e armadilhas de ovos para avaliar o tamanho da população de mosquitos. Com base nessas informações, identificaram as áreas mais vulneráveis — muitas delas em bairros de baixa renda e favelas — que se beneficiariam com as unidades. "Estamos usando o mosquito contra o mosquito. Essa é a parte inteligente da armadilha", explicou Silva.

A estratégia vai além dos baldes. A Prefeitura treinou funcionários para ensinar aos moradores das áreas de baixa renda como manter os insetos afastados, reconhecer os sintomas da dengue e procurar o hospital ao primeiro sinal de gravidade. Febre alta, dor de cabeça e vômito podem ser confundidos com outras doenças, mas a dengue também causa dores intensas nos músculos e articulações — o que lhe rendeu o apelido de "febre quebra-ossos" — e pode evoluir para vazamento nos vasos sanguíneos e morte se não for tratada. Dos mais de mil agentes da Secretaria Municipal de Saúde, cerca de um terço se dedica a reduzir as populações de mosquitos. Vão de porta em porta, lembrando os moradores de manter a casa livre de insetos, tampando recipientes de água e secando pontos molhados após as chuvas diárias inevitáveis. As casas com unidades de larvicida recebem visitas mensais para reabastecimento e verificação.

Em julho, durante uma ronda em dia de calor sufocante, a agente Elizabete Reis verificou o balde na varanda de Paulo, procurando por larvas. Não havia nenhuma. Ela despejou a água, voltou a encher e colocou uma tira de tela nova revestida com larvicida. Segundo o prefeito Igor Normando, graças a essa iniciativa integrada — educação, coleta de lixo, procedimentos múltiplos e não apenas um detalhe específico — o número de doenças transmitidas por mosquitos caiu em 70% na última temporada. O Brasil, fortalecido por experiências amargas com epidemias, adotou novas técnicas de combate, a maioria ecologicamente correta. Está construindo a maior fábrica de mosquitos do mundo, que produz insetos portadores da Wolbachia, uma bactéria que bloqueia a dengue e outros vírus, para serem soltos nas comunidades e se reproduzirem, transmitindo a proteção para gerações seguintes.

Estamos usando o mosquito contra o mosquito. Essa é a parte inteligente da armadilha.
— Moisés Silva, microbiologista da Universidade Federal do Pará
O programa deu certo porque não focamos só um detalhe específico; combinamos a educação, a coleta de lixo e vários outros procedimentos.
— Igor Normando, prefeito de Belém
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