Em um campo historicamente dominado por laboratórios multinacionais, uma universidade pública brasileira chegou a um limiar raro: a Anvisa autorizou os primeiros testes em humanos da Vivaxin, vacina desenvolvida pela UFMG contra o Plasmodium vivax — parasita que nenhuma vacina existente no mundo consegue combater com eficácia. Com 118.037 casos registrados no Brasil em 2025 e uma concentração devastadora na Amazônia, o experimento que começa agora carrega o peso de uma lacuna científica de décadas e a promessa de soberania tecnológica em saúde.
Anvisa autoriza testes em humanos de primeira vacina brasileira contra malária por Plasmodium vivax
Primeira vacina do mundo contra um parasita que ninguém havia priorizado
Por que essa vacina é tão diferente das que já existem?
As duas vacinas contra malária que temos hoje foram feitas para o Plasmodium falciparum, que é o parasita africano. O vivax, que é o nosso problema aqui, é biologicamente diferente. Ninguém tinha investido em uma vacina específica para ele até agora.
Mas espera — 48 pessoas em fase I é muito pequeno. Como sabemos que vai funcionar em escala?
Fase I não é para provar eficácia. É só para ver se é seguro e se o corpo responde. As fases II e III virão depois, com mais gente.
E quanto ao tempo? Quanto tempo até termos uma vacina disponível?
Isso depende de como as fases correm. Estamos falando de anos, não meses. Mas pelo menos agora temos permissão para começar.
Os R$ 12 milhões cobrem tudo?
Cobrem os ensaios clínicos das três fases. Depois, se funcionar, vem a produção em escala, que é outro investimento.
E se não funcionar?
Então aprendemos por que não funcionou e tentamos de novo. Mas o fato de uma universidade brasileira conseguir chegar até aqui já é um marco.
Uma coisa que me intriga: por que ninguém tinha feito isso antes? O vivax mata gente há séculos.
Porque é mais fácil fazer vacina para o falciparum — ele é mais prevalente globalmente, então há mais mercado. O vivax é um problema das Américas e da Ásia, regiões com menos poder de compra. Agora o Brasil está fazendo porque é o Brasil que sofre.
Il Polso
- A Anvisa autorizou os primeiros testes humanos da Vivaxin, abrindo uma corrida contra um parasita que as duas únicas vacinas contra malária do mundo simplesmente ignoram.
- Com 118.037 casos em 2025 e mortalidade mais alta fora da Amazônia — onde a doença é menos reconhecida —, a urgência de uma solução específica para o vivax nunca foi tão evidente.
- O Ministério da Saúde comprometeu R$ 12 milhões para financiar as três fases de ensaios clínicos, apostando no potencial de uma tecnologia 100% nacional.
- A fase I começa com 48 voluntários acompanhados por 360 dias, testando segurança, tolerância e resposta imunológica antes de qualquer avanço em escala.
- Se os resultados forem positivos, o Brasil não apenas resolverá um problema interno de saúde pública, mas poderá oferecer uma ferramenta inédita a países vizinhos que enfrentam o mesmo parasita.
Em um campo historicamente dominado por laboratórios multinacionais, uma universidade pública brasileira chegou a um limiar raro: a Anvisa autorizou os primeiros testes em humanos da Vivaxin, vacina desenvolvida pela UFMG contra o Plasmodium vivax — parasita que nenhuma vacina existente no mundo consegue combater com eficácia. Com 118.037 casos registrados no Brasil em 2025 e uma concentração devastadora na Amazônia, o experimento que começa agora carrega o peso de uma lacuna científica de décadas e a promessa de soberania tecnológica em saúde.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início dos testes em humanos da Vivaxin, a primeira vacina do mundo desenvolvida especificamente contra o Plasmodium vivax — o parasita responsável pela maioria dos casos de malária no Brasil. O imunizante é fruto de anos de pesquisa no Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais, inteiramente construído com tecnologia brasileira.
A primeira fase dos ensaios clínicos envolverá 48 voluntários entre 18 e 59 anos, sem histórico de infecção por malária, acompanhados durante 360 dias. Os pesquisadores buscarão respostas sobre segurança, tolerância à dose e resposta do sistema imunológico. O Ministério da Saúde investirá R$ 12 milhões para financiar esta e as fases seguintes do estudo.
O contexto torna o avanço ainda mais significativo. Em 2025, o Brasil registrou 118.037 casos da doença, concentrados nos nove estados da região amazônica. As duas vacinas contra malária existentes no mundo foram criadas para combater o Plasmodium falciparum, predominante na África, e não funcionam bem contra o vivax, que domina as Américas e a Ásia. A Vivaxin preenche um vazio que nenhuma outra tecnologia havia ocupado.
O Ministério da Saúde alerta ainda para um paradoxo geográfico: embora os casos fora da Amazônia sejam poucos, a taxa de mortalidade nessas regiões é mais alta, provavelmente porque médicos e pacientes reconhecem a doença com menos rapidez onde ela é rara.
O que está em jogo vai além das fronteiras brasileiras. Se os testes confirmarem eficácia e segurança, o país terá não apenas uma resposta ao seu próprio desafio de saúde pública, mas uma ferramenta que poderá ser compartilhada com nações vizinhas que enfrentam o mesmo inimigo. Os próximos 360 dias dirão se essa aposta histórica vai se sustentar.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária abriu caminho para um experimento que pode mudar o curso da malária no Brasil. A autorização, concedida recentemente, permite que pesquisadores comecem a testar em seres humanos a Vivaxin — a primeira vacina do mundo desenhada especificamente contra o Plasmodium vivax, o parasita responsável pela maioria dos casos da doença no país. O imunizante é inteiramente desenvolvido com tecnologia brasileira, resultado de anos de trabalho no Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais.
O Ministério da Saúde investirá R$ 12 milhões para financiar os ensaios clínicos que virão — as fases I, II e III que determinarão se a vacina funciona e é segura. A primeira fase, que está começando agora, é modesta em escala: 48 voluntários entre 18 e 59 anos, nenhum deles com histórico de infecção por malária, serão acompanhados durante 360 dias. Os pesquisadores querem saber três coisas: se a vacina causa reações adversas, se o corpo consegue tolerar a dose, e se o sistema imunológico responde como esperado.
Este desenvolvimento ganha peso quando se considera o cenário atual. Em 2025, o Brasil registrou 118.037 casos de malária. As duas vacinas contra malária que existem hoje no mundo foram criadas para combater o Plasmodium falciparum, o parasita predominante na África. Nenhuma delas funciona bem contra o vivax, que é o vilão das Américas e da Ásia. A Vivaxin preenche um vazio que nenhuma outra vacina conseguiu ocupar até agora.
A malária em si é uma doença transmitida por mosquitos Anopheles fêmeas infectadas — insetos que picam principalmente ao entardecer e ao amanhecer. Diferentemente do que muitas pessoas pensam, não é contagiosa de pessoa para pessoa; o mosquito é o intermediário obrigatório. A doença tem muitos nomes populares no Brasil: maleita, sezão, tremedeira, batedeira, febre. Qualquer pessoa pode contraí-la, embora aqueles que sobrevivem a vários episódios desenvolvam uma imunidade parcial que reduz os sintomas. Mas uma proteção total e permanente nunca foi observada. Se não tratada adequadamente, uma pessoa infectada pode continuar transmitindo o parasita por meses ou até anos.
A concentração geográfica da doença é marcante. Nove estados formam a região amazônica onde a maioria dos casos ocorre: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Mas o Ministério da Saúde faz um alerta importante sobre o resto do país. Embora as notificações fora da Amazônia sejam poucas, a taxa de morte entre os infectados nessas regiões é mais alta do que na Amazônia. Isso significa que quando a malária chega a lugares onde é rara, ela tende a ser mais letal — possivelmente porque médicos e pacientes a reconhecem menos rapidamente.
O que torna a Vivaxin notável não é apenas que ela existe, mas que ela é brasileira. Num campo dominado por laboratórios multinacionais, uma universidade federal conseguiu desenvolver uma tecnologia completamente nova. Os próximos 360 dias de testes dirão se essa aposta vai funcionar. Se funcionar, o Brasil terá não apenas uma solução para seu próprio problema de saúde pública, mas uma ferramenta que poderia ser oferecida a países vizinhos que enfrentam o mesmo parasita. Se não funcionar, pelo menos o caminho estará mapeado para a próxima tentativa.
Citazioni salienti
O avanço na pesquisa da tecnologia representa um marco e abre a possibilidade de uma nova forma de prevenção contra a doença— Ministério da Saúde
Uma imunidade esterilizante, que confere total proteção clínica, até hoje não foi observada— Ministério da Saúde