Em um momento em que o Brasil ainda luta para vacinar sua população contra a Covid-19, a Anvisa abriu, em 9 de junho de 2021, as portas para que o Instituto Butantan testasse em humanos a Butanvac — um imunizante concebido e produzido inteiramente em solo nacional. A vacina carrega consigo não apenas uma promessa científica, mas também a de uma soberania tecnológica rara: sua fabricação aproveita infraestrutura já existente no país, a mesma usada há décadas para produzir a vacina da gripe. Se os testes confirmarem segurança e eficácia, o Brasil poderá contar com mais uma ferramenta própria na
Anvisa autoriza testes clínicos da Butanvac em humanos; Butantan tem 6 milhões de doses prontas
Nenhuma vacina Covid no mundo é produzida em ovo
Por que essa aprovação importa agora, em junho de 2021? Não temos vacinas suficientes já?
Temos contratos para 660 milhões de doses, mas a entrega é lenta e irregular. A Butanvac oferece algo diferente: produção nacional, sem depender de importações ou de acordos internacionais que podem atrasar.
Mas é importante notar que isso ainda são testes iniciais. Fases 1 e 2 testam segurança e resposta imune, não eficácia real contra a doença. Pode levar meses ou anos até saber se funciona de verdade.
Como essa tecnologia de ovo é diferente das outras vacinas?
A maioria das vacinas Covid usa biorreatores ou células de mamífero. A Butanvac usa ovos de galinha, como a vacina da gripe. O Brasil já tem fábricas inteiras preparadas para isso.
Sim, mas nenhuma vacina Covid no mundo usa essa tecnologia ainda. É inovadora, mas também significa que há menos dados globais sobre como funciona em larga escala.
E se der certo? Qual é o plano?
Se as fases 1 e 2 mostrarem segurança e resposta imune adequada, a vacina pode entrar no Plano Nacional de Imunização. O Butantan já tem 6 milhões de doses prontas e pode produzir 40 milhões até novembro.
Importante: isso depende de aprovação para as fases posteriores, que ainda não aconteceu. E a produção em larga escala de uma vacina nova sempre tem desafios inesperados.
O consórcio internacional com Mount Sinai muda algo?
Fornece credibilidade técnica e expertise, mas o Butantan deixou claro que a vacina é brasileira. O consórcio se compromete a fornecer para países de baixa e média renda também.
Verdade, mas o Butantan controla 85% da capacidade do consórcio, então tem poder real sobre a produção e distribuição.
O Pulso
- Com apenas 11% da população brasileira completamente vacinada até então, a pressão por novas doses e novas vacinas era intensa — e a Butanvac surgia como uma resposta genuinamente nacional a essa urgência.
- O Instituto Butantan já acumulava 6 milhões de doses prontas nos galpões, aguardando o sinal verde da Anvisa para que o esforço produtivo ganhasse sentido concreto.
- A aprovação para as fases 1 e 2 dos testes clínicos representa o primeiro contato da vacina com seres humanos, um passo decisivo que determinará se ela é segura e capaz de gerar imunidade.
- A tecnologia baseada em ovos embrionários de galinha — a mesma plataforma da vacina da gripe — permite que o Brasil produza a Butanvac sem depender de importações, usando dezenas de fábricas já equipadas para isso.
- Se eficaz, a vacina poderá ser incorporada ao Plano Nacional de Imunização e contribuir para metas ambiciosas como a de São Paulo, que prometia vacinar todos os adultos até outubro de 2021.
Em um momento em que o Brasil ainda luta para vacinar sua população contra a Covid-19, a Anvisa abriu, em 9 de junho de 2021, as portas para que o Instituto Butantan testasse em humanos a Butanvac — um imunizante concebido e produzido inteiramente em solo nacional. A vacina carrega consigo não apenas uma promessa científica, mas também a de uma soberania tecnológica rara: sua fabricação aproveita infraestrutura já existente no país, a mesma usada há décadas para produzir a vacina da gripe. Se os testes confirmarem segurança e eficácia, o Brasil poderá contar com mais uma ferramenta própria na corrida contra a pandemia.
Na quarta-feira, 9 de junho de 2021, a Anvisa autorizou o Instituto Butantan a iniciar os testes clínicos da Butanvac em seres humanos. A vacina, desenvolvida integralmente no Brasil, entra agora nas fases 1 e 2 de pesquisa — a primeira vez que será aplicada em voluntários. A aprovação veio após intensa troca de informações entre a agência e o instituto, que ainda precisa apresentar alguns dados complementares antes de iniciar a vacinação experimental.
O que torna a Butanvac singular é sua tecnologia: o vírus é cultivado em ovos embrionários de galinha, usando como veículo o vírus da Doença de Newcastle — inofensivo para humanos — para expressar a proteína spike do coronavírus. Nenhuma outra vacina contra Covid-19 no mundo adota essa abordagem. A vantagem prática é enorme: o Brasil já possui dezenas de fábricas com essa infraestrutura, usada há anos para produzir a vacina da gripe. O Butantan sozinho fabrica 80 milhões de doses anuais por esse método.
O instituto iniciou o desenvolvimento da vacina em março de 2020, firmando um acordo com o Hospital Mount Sinai de Nova York para licenciar a tecnologia. Apesar da parceria internacional, a produção é 100% nacional. Com 6 milhões de doses já prontas e capacidade projetada de até 40 milhões até novembro, o potencial produtivo é expressivo — mas dependia, até então, da liberação regulatória.
Os testes responderão perguntas essenciais sobre segurança e resposta imune, além de definir se a vacina será aplicada em uma ou duas doses. O cenário de urgência é claro: embora o Brasil tivesse contratos para cerca de 660 milhões de doses de diferentes vacinas, apenas 24% da população havia recebido ao menos uma dose no momento da reportagem. A Butanvac, se aprovada para uso amplo, poderia acelerar significativamente a cobertura vacinal do país.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária deu sinal verde, na quarta-feira 9 de junho, para que o Instituto Butantan começasse a testar sua vacina contra a Covid-19 em pessoas. A Butanvac, desenvolvida integralmente no Brasil sem necessidade de importar seus componentes principais, entrará agora nas fases iniciais de pesquisa clínica — os testes 1 e 2 — marcando a primeira vez que o imunizante será aplicado em seres humanos.
A aprovação da Anvisa veio após o que a agência descreveu como uma troca intensa de informações e reuniões para garantir que todos os aspectos do estudo estivessem claros e que a segurança dos voluntários fosse assegurada. O Instituto Butantan ainda precisa apresentar algumas informações complementares sobre pesquisas em andamento antes de começar a vacinação experimental, mas o caminho está aberto. O governador de São Paulo, João Doria, havia feito apelos públicos semanas antes para que a Anvisa acelerasse o processo, afirmando que o Butantan havia atendido todas as solicitações de dados adicionais.
O timing da aprovação é significativo porque o instituto já tem 6 milhões de doses prontas nos galpões. Doria havia declarado em meados de maio que o estado havia autorizado a produção de 18 milhões de doses, com 6,8 milhões já fabricadas e a possibilidade de chegar a 18 milhões até julho e 40 milhões até novembro — mas tudo dependia da liberação da Anvisa. Agora que os testes podem prosseguir, essas doses de reserva ganham propósito concreto.
A tecnologia por trás da Butanvac é o que a torna singular no cenário global. O vírus é cultivado em ovos embrionários de galinhas — especificamente, usa-se um vírus da Doença de Newcastle, que afeta aves mas não humanos, como veículo. O vírus se desenvolve bem nesse ambiente, é depois inativado, e ajuda a expressar a proteína spike do coronavírus. Dimas Covas, presidente do Butantan, ressaltou que nenhuma outra vacina contra Covid-19 no mundo usa essa abordagem. A importância prática é clara: o Brasil já possui dezenas de fábricas equipadas com essa tecnologia de produção em ovos, usada há anos para fabricar a vacina da gripe — o Butantan sozinho produz 80 milhões de doses anuais dessa forma. Em uma situação de emergência epidêmica, essa infraestrutura existente é um ativo valioso.
O desenvolvimento da Butanvac começou em 27 de março de 2020, pouco depois que a pandemia foi declarada. O Instituto Butantan firmou um acordo de licenciamento com o Hospital Mount Sinai, de Nova York, para usar a tecnologia desenvolvida pela instituição nova-iorquina, e a vacina faz parte de um consórcio internacional do qual o Butantan é responsável por 85% da capacidade produtiva. Esse consórcio se comprometeu a fornecer a vacina para o Brasil e para países de baixa e média renda. Ainda assim, o instituto enfatizou que a produção será 100% nacional — o consórcio internacional contribui com a concepção da tecnologia e suporte técnico, mas o desenvolvedor e fabricante é brasileiro.
Os testes das fases 1 e 2 responderão perguntas fundamentais: a vacina é segura? Ela produz uma resposta imune capaz de prevenir a Covid-19? O estudo também determinará se a Butanvac será aplicada em duas doses, como a CoronaVac, ou em uma dose única, como a vacina da Janssen. Se os resultados forem positivos, a vacina pode ser adicionada ao Plano Nacional de Imunização, oferecendo ao Brasil mais uma ferramenta para ampliar sua cobertura vacinal.
O contexto de urgência é real. O Brasil tem contratos fechados para cerca de 660 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 — o suficiente para dar praticamente três doses por pessoa. Mas até o momento da reportagem, apenas 24% da população havia recebido pelo menos uma dose, e apenas 11% havia completado a imunização com duas doses. Em São Paulo, Doria prometeu vacinar toda a população adulta acima de 18 anos até 18 de outubro, contando com a retomada da produção da CoronaVac e a chegada de outras vacinas. A Butanvac, se aprovada para uso, poderia contribuir significativamente para acelerar esse cronograma.
Citações Notáveis
Nenhuma vacina no mundo contra Covid-19 é produzida em ovo. Existem muitas fábricas que usam essa tecnologia para produção da vacina da gripe, portanto essa é uma saída em uma situação epidêmica.— Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan
O consórcio internacional tem um papel importantíssimo na concepção da tecnologia e no suporte técnico, mas no Brasil o desenvolvedor da vacina é o Instituto Butantan. A vacina, portanto, é brasileira e dos brasileiros.— Instituto Butantan