Ansiedade é principal causa de incapacidade em crianças brasileiras de 5 a 9 anos

5.402 mortes anuais por suicídio entre jovens de 10 a 29 anos, com 77% entre rapazes; taxas entre povos indígenas mais que o dobro da média nacional.
Qualquer número para uma criança em termos de suicídio está acima do aceitável
Psiquiatra Christian Kieling sobre a necessidade de eliminar completamente mortes por suicídio entre crianças.
Mark

Por que a ansiedade aparece como a principal causa de incapacidade já aos 5 anos, e não depressão ou outros transtornos?

Mimi

Porque a ansiedade é muito mais frequente nessa idade. Depressão existe em crianças pequenas, mas é bem menos comum. Só depois dos 14, 15 anos é que a depressão começa a aparecer com mais força, especialmente em meninas. A ansiedade, porém, está presente desde cedo — às vezes como medo de separação, depois como ansiedade social. É um espectro que acompanha a infância.

Mark

O corte aos 18 anos que separa serviços de crianças dos de adultos parece ser um erro de design do sistema.

Mimi

Exatamente. É justo na idade em que o adolescente está tendo as maiores transições da vida que você diz para ele: agora não é mais aqui. Você perde a oportunidade de continuar acompanhando alguém que está no pico de demanda por saúde mental. Parece até atrapalhar.

Mark

Os dados sobre suicídio mostram uma disparidade clara entre homens e mulheres. O que explica 77% das mortes serem entre rapazes?

Mimi

Homens tendem a usar métodos mais letais. Mas também há uma questão de acesso: meninas e mulheres buscam ajuda mais frequentemente, mesmo que tardiamente. Rapazes historicamente são pouco alcançados pelos serviços de saúde mental. Há uma cultura que desestimula homens de falar sobre sofrimento emocional.

Mark

Por que os dados estão tão concentrados em São Paulo e Rio Grande do Sul?

Mimi

Porque são estados com melhor infraestrutura de coleta de dados e sistemas de saúde mais estruturados. O Norte, Nordeste e Centro-Oeste praticamente não aparecem. Isso significa que estamos operando com um retrato incompleto do país, e as políticas públicas acabam sendo pensadas a partir de uma realidade que não é representativa.

Mark

Se os dados são incompletos, como os pesquisadores justificam agir agora?

Mimi

Porque esperar pelos dados seria um desserviço para as crianças e adolescentes. Mesmo com fontes limitadas, as análises são rigorosas. E é difícil acreditar que números muito diferentes viriam do resto do país. O problema é real e urgente — não dá para ficar paralisado esperando perfeição.

  • Mais de 15 milhões de crianças e adolescentes brasileiros (20,91% da população de 5 a 29 anos) convivem com transtornos mentais
  • Internações por transtornos mentais cresceram 98,3% entre crianças de 5 a 9 anos em São Paulo entre 2020 e 2025
  • 5.402 mortes anuais por suicídio entre jovens de 10 a 29 anos, sendo 77% entre rapazes
  • Ansiedade é a principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias, superando qualquer doença física

Mais de 15 milhões de crianças e adolescentes brasileiros (20,91% da população de 5 a 29 anos) convivem com transtornos mentais, sendo ansiedade a causa principal de incapacidade. Internações por transtornos mentais cresceram 98,3% entre crianças de 5 a 9 anos em São Paulo (2020-2025); suicídio é terceira causa de morte prematura a partir dos 15 anos, com 5.402 mortes anuais.

Estudo abrangente revela que ansiedade é a principal causa de incapacidade entre crianças brasileiras de 5 a 9 anos, afetando mais de 15 milhões de jovens de 5 a 29 anos, com taxas de suicídio preocupantes.

Uma criança brasileira antes de completar dez anos tem mais probabilidade de enfrentar alguma limitação causada por ansiedade do que por qualquer doença física. Esse achado emerge de um estudo abrangente sobre saúde mental infantojuvenil no Brasil, publicado na revista The Lancet Regional Health - Americas, que analisou dados do Global Burden of Disease 2023.

Os números são expressivos. Mais de 15 milhões de crianças, adolescentes e jovens adultos brasileiros entre 5 e 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental — isso representa 20,91% de toda a população nessa faixa etária. Outros 2,5 milhões, correspondendo a 3,36% do total, preenchem critérios para transtorno por uso de substâncias. É a primeira vez que a situação é detalhada em janelas de cinco anos, permitindo uma visão granular de como os problemas de saúde mental evoluem ao longo da infância e da juventude. A pesquisa é liderada pelo psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre.

Essa precisão no recorte etário revela um problema estrutural no sistema de saúde: o corte abrupto aos 18 anos que separa serviços para crianças e adolescentes dos serviços para adultos ocorre justamente quando a demanda por saúde mental atinge seu pico. Adolescentes vivenciam suas maiores transições de vida nessa idade, mas é exatamente quando são desligados do sistema que os acompanhava. Entre 5 e 9 anos, mais de 10% das crianças brasileiras preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental. Essa proporção cresce ao longo da infância e da juventude, chegando a quase 25% entre 25 e 29 anos. Em São Paulo, as internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças e adolescentes foram as que mais cresceram entre 2020 e 2025, com a faixa de 5 a 9 anos registrando um aumento de 98,3%.

Quando comparados com mais de 300 condições de saúde monitoradas pelo estudo, os transtornos de ansiedade ocupam o primeiro lugar como causa de incapacidade em todas as faixas etárias. A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão dominam o ranking geral, superando qualquer doença física, com impacto particularmente maior entre meninas e mulheres. Álcool e outras drogas são mais prevalentes entre homens a partir dos 20 anos. A ansiedade, porém, não é um fenômeno único. Ela muda de forma ao longo da vida: predominam quadros de ansiedade de separação na infância, transtorno de ansiedade social na adolescência, e mais adiante, ansiedade generalizada ou transtorno de pânico. Entre mulheres de 20 a 29 anos, os dados de ansiedade são particularmente altos — um padrão que chama atenção quando comparado com dados mundiais, refletindo uma vulnerabilidade específica da população feminina brasileira.

O suicídio representa uma dimensão ainda mais grave dessa crise de saúde mental. O estudo registra 5.402 mortes anuais por suicídio entre jovens de 10 a 29 anos, sendo 77% delas entre rapazes. A taxa por 100 mil habitantes sobe de 1,24 entre 10 e 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos. A partir dos 15 anos, o suicídio se torna a terceira causa de morte prematura entre todas as causas monitoradas no país. Entre povos indígenas, as taxas chegam a mais que o dobro da média nacional, refletindo uma lacuna grave de informação e política pública. Claudia Buchweitz, pesquisadora e primeira autora do estudo, aponta que esses números indicam a necessidade de políticas específicas de prevenção voltadas a jovens do sexo masculino, um grupo historicamente pouco alcançado pelos serviços de saúde mental.

O estudo também expõe uma lacuna crítica na produção de conhecimento. Para estimar a situação de toda a população de 5 a 29 anos, o GBD contou com apenas 66 fontes de dados nacionais, concentradas quase inteiramente em São Paulo e Rio Grande do Sul, com praticamente nada vindo do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Essa escassez de dados reflete e contribui para a falta de atenção à saúde mental dos jovens no Brasil. Embora o GBD recorra a modelagens estatísticas para estimar prevalência mesmo em vazios epidemiológicos, extrapolando a partir de renda e estrutura demográfica regional, Kieling reforça a necessidade urgente de mais dados regionais.

Os pesquisadores defendem que não se pode esperar por dados mais completos para agir. As prioridades deveriam ser identificação precoce e acesso a cuidado efetivo — algo que a maioria da população brasileira não possui. O padrão no país tende a ser de busca tardia por ajuda, com quadros precisando ficar muito graves para chegar numa emergência, muitas vezes numa tentativa de suicídio, antes de conseguir um encaminhamento adequado. As propostas incluem ampliar as portas de entrada para o cuidado além dos serviços tradicionais, passando por escolas e serviços comunitários, e maior transparência no uso de recursos do SUS destinados à área. A escola é apontada como ponto estratégico de identificação precoce, mas não pode ser sobrecarregada sozinha com essa responsabilidade. Kieling cita como inspiração o Headspace, serviço australiano de porta aberta para jovens de 12 a 24 anos, replicado em países como Irlanda, Canadá e Dinamarca — um modelo que ainda não existe em países de baixa e média renda, apesar de a imensa maioria dos jovens do planeta viver justamente nesses países.

Se eu olho para infância e adolescência como um conjunto único, daqui a pouco estou oferecendo serviços que atendam questões de depressão para menores de dez anos
— Christian Kieling, psiquiatra e líder da pesquisa
É justo na idade em que o adolescente está tendo as maiores transições da vida que a gente diz para ele: agora não é mais aqui
— Christian Kieling, sobre o corte abrupto aos 18 anos nos serviços de saúde mental
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