Alemanha entra em território desconhecido com ascensão da AfD, diz historiador

A sensação de pertencimento é o elemento crucial
Böick explica por que a AfD conquistou eleitores em regiões que se sentem abandonadas há décadas.
Mark

O professor diz que o sistema político alemão foi criado especificamente para evitar isso. Como um mecanismo desenhado há 80 anos simplesmente deixa de funcionar?

Mimi

Não é que deixe de funcionar de repente. É que os mecanismos dependem de consenso entre os partidos. O Brandmauer — o cordão sanitário — só funciona se todos os outros partidos concordarem em isolar a AfD. Mas quando a AfD fica tão forte que os outros partidos ficam menores, o isolamento não é mais viável politicamente.

Luke

Mas o professor está dizendo que o sistema em si falhou, não apenas o consenso. Quer dizer, a Constituição alemã tem cláusulas de proteção. Por que não funcionaram?

Mimi

Porque nenhuma cláusula constitucional pode impedir que as pessoas votem em um partido. A Alemanha pode banir partidos, mas não baniu a AfD. E uma vez que o partido está dentro do sistema, o sistema não tem ferramentas para impedir que ele ganhe eleições.

Mark

O professor nasceu em Aschersleben. Ele diz que a situação é desesperadora. Mas também diz que o resultado era esperado. Como se concilia esperança com desesperança?

Mimi

Acho que é a diferença entre saber que algo vai acontecer e estar preparado para quando acontece. Ele sabia que a AfD seria forte. Mas 55% em sua cidade natal é diferente de uma previsão abstrata.

Luke

Mas há algo que o professor não explica completamente: por que agora? A AfD existe desde 2013. Por que levou 13 anos para chegar a 44%? O que mudou?

Mimi

Ele aponta para a decadência dos partidos tradicionais e para a habilidade da AfD em criar pertencimento. Mas você está certo — há algo mais estrutural acontecendo na economia europeia, na confiança nas instituições.

Mark

Ele menciona que a AfD está entrando em pequenos vilarejos, fazendo torneios de futebol, eventos comunitários. Isso é organização política sofisticada ou apenas preenchimento de um vácuo?

Mimi

Ambos. A AfD está sendo muito estratégica. Mas o vácuo é real — os outros partidos realmente não estão lá. As igrejas são fracas no leste. Praticamente não há religião. As pessoas se sentem perdidas.

Luke

O professor hesita em usar a palavra fascismo. Diz que é populismo digital de direita, talvez uma nova forma de fascismo. Mas hesita. Por quê?

Mimi

Porque a maioria dos eleitores não são fascistas. Alguns líderes da AfD têm histórico forte, mas a base eleitoral é composta de pessoas comuns que querem pertencimento e senso de comunidade. Chamar todos de fascistas é moralizante e não explica o fenômeno.

Mark

E quanto a 2029? O professor diz que a AfD lidera federalmente e que o partido mais forte costuma formar o governo.

Mimi

Sim, mas há uma diferença entre liderar em pesquisas e formar governo. O cordão sanitário ainda existe em nível federal. Mas se a AfD continuar crescendo e Merz continuar impopular, a pressão para romper o cordão sanitário vai aumentar.

  • AfD obtém 44% dos votos em Saxônia-Anhalt, 55% em Aschersleben
  • Sistema político alemão de 1949 foi criado para impedir ascensão fascista
  • Primeira vez desde 1945 que partido de extrema direita provavelmente formará governo
  • Merz extremamente impopular; mais duas eleições estaduais em setembro

AfD obtém quase 44% dos votos em Saxônia-Anhalt, seu maior resultado em região natal do professor, sinalizando possível formação de governo de extrema direita. Sistema político alemão de 80 anos, desenhado para evitar ascensão fascista, não funciona mais; isolamento de outros partidos contra AfD se mostra ineficaz.

A vitória da extrema direita AfD em Saxônia-Anhalt com 44% dos votos marca território desconhecido para a Alemanha pós-1945, quebrando mecanismos de proteção democrática criados após 1949 para impedir ascensão fascista.

A Alternativa para a Alemanha conquistou quase 44% dos votos em Saxônia-Anhalt no fim de semana, um resultado que Marcus Böick, professor de História Alemã Moderna na Universidade de Cambridge, descreve como entrada em território sem precedentes para o país desde 1945. Na cidade natal de Böick, Aschersleben, o partido alcançou seu melhor desempenho: 55% dos votos. Para o historiador, a situação é desesperadora não apenas pelos números, mas pelo que eles significam estruturalmente.

O sistema político da Alemanha Ocidental foi construído após 1949 com um propósito específico: impedir a ascensão de um partido fascista ou nazista. Continha mecanismos de freios e contrapesos, normas e medidas destinadas a restringir o poder. Quase 80 anos depois, esse sistema deixou de funcionar. A AfD provavelmente formará um governo — a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema direita chega ao poder na Alemanha. O isolamento promovido pelos outros partidos, conhecido como Brandmauer ou cordão sanitário, mostrou-se ineficaz. Böick observa que em Saxônia-Anhalt, pela primeira vez, os demais partidos ficaram menores do outro lado dessa barreira.

Os partidos tradicionais alemães tentaram reagir invocando a importância de defender o sistema democrático. Mas fizeram isso repetidamente, e o argumento perdeu força. A AfD simplesmente responde que as pessoas votam neles, e isso é democracia. Enquanto isso, há uma decadência clara dos partidos estabelecidos. Friedrich Merz, líder da CDU, descumpriu promessas antes mesmo de entrar para o governo, fazendo acordos com os sociais-democratas, gastando dinheiro, aumentando impostos e não enfrentando a imigração de forma satisfatória. Merz é extremamente impopular em toda parte, e Böick não vê saída fácil para ele.

A campanha da AfD funcionou porque criou uma sensação de pertencimento nos eleitores. Os outros partidos estão ausentes. O partido escolheu um candidato carismático, Ulrich Siegmund, sem os traços excêntricos de líderes anteriores — alguém simpático, articulado, com boa aparência. Pela primeira vez em muitos anos, a AfD conseguiu transmitir que estão ali e vão começar a mudar as coisas, especialmente nas áreas rurais. Nos últimos 20 ou 30 anos, essas regiões vivem um processo permanente de retração. Cinemas fecharam, estações ferroviárias foram desativadas, escolas e hospitais também. Não há futuro visível. Quando a AfD chega com eventos comunitários que remetem a um passado glorioso — seja a Alemanha Oriental, o Império ou qualquer outra era — oferece algo que faltava: uma sensação de que alguém se importa.

Böick ressalta que não se trata apenas de fascismo puro. Embora haja neonazistas e pós-nazistas trabalhando com Siegmund, a sociedade mais ampla à qual apelam não é composta apenas por fascistas. Essas pessoas não são movidas exclusivamente por ideologia nacional-socialista ou nostalgia. O elemento crucial é a sensação de pertencimento. É fantasia, mas as pessoas não tiveram nenhuma durante anos. A AfD está sendo muito hábil em criar uma colagem digital de nostalgias: Alemanha Oriental, Império Alemão, a grande nação orgulhosa, forte, confiante.

Os anos 1990 explicam parte dessa nostalgia. No fim da década de 1980, as pessoas odiavam a Alemanha Oriental. Mas quando os efeitos do capitalismo atingiram aquela sociedade, a visão mudou. Antes havia emprego, eram relativamente pobres, mas estavam todos no mesmo barco. Havia um senso de comunidade mais forte, que agora se perdeu porque muita gente foi embora ou porque a competição individual é hoje muito maior. Isso alimenta a nostalgia.

Olhando para frente, a AfD já é o partido mais forte em âmbito federal. Como ocorre na tradição alemã, o partido mais forte costuma formar o governo. Siegmund e Alice Weidel já mencionaram 2029, data das eleições federais. Há mais duas eleições estaduais este mês — em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e em Berlim, onde a CDU vai perder. Talvez haja uma grande mudança no partido. Böick compara a situação de Merz à de Keir Starmer no Reino Unido, ambos extremamente impopulares. A Alemanha enfrenta desafios econômicos críticos, uma Rússia hostil, concorrência da China e uma América imprevisível. Não há muito a oferecer aos eleitores, e a AfD promete fazer o que os outros não conseguem.

O sistema político da Alemanha Ocidental, estabelecido após 1949, foi criado para impedir isso, evitar a ascensão de um partido fascista ou nazista. Após quase 80 anos, já não funciona.
— Marcus Böick, professor de História Alemã Moderna, Universidade de Cambridge
A defesa do sistema democrático não é mais argumento
— Marcus Böick
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