Advogado preso multiplicou patrimônio por dez e acumulou R$ 314 milhões em 7 anos

Dividendos isentos de impostos para si mesmo, depois propina em mochilas
Como Buttini transformou R$ 30,5 milhões em R$ 314,2 milhões através de um esquema que combinava estruturas legais com corrupção.
Mark

Como um advogado consegue acumular R$ 314 milhões em sete anos sem que ninguém perceba?

Mimi

Ele usava suas próprias empresas como intermediárias. Recebia dinheiro de clientes que queriam favores tributários, depois distribuía dividendos isentos de impostos para si mesmo. Parecia tudo legal na superfície.

Luke

Mas dividendos isentos de impostos são legítimos. O que torna isso criminoso?

Mimi

A origem do dinheiro. Buttini estava cobrando propina de contribuintes para interferir em processos na Fazenda. Depois lavava esse dinheiro através das empresas.

Mark

E os servidores públicos? Como eles se encaixam nisso?

Mimi

Buttini pagava propina a eles para que acelerassem ou aprovassem os pedidos de crédito tributário dos seus clientes. Um colaborador disse que recebeu R$ 13,6 milhões e repassou R$ 4,5 milhões a André Weiss, que comandava a administração tributária.

Luke

Espera — como um servidor público recebe R$ 4,5 milhões sem deixar rastro?

Mimi

Segundo o relato, em dinheiro vivo, dentro de mochilas, em restaurantes. Mas a Justiça disse que há documentos manuscritos, dados bancários e até uma gravação ambiental que corroboram a história.

Mark

E as empresas que pagavam Buttini? Elas sabiam que estavam financiando propina?

Luke

Ótima pergunta. O Ministério Público não esclarece isso. Cinco grandes empresas pagaram R$ 140,65 milhões ao grupo de Buttini por serviços jurídicos e consultoria tributária. Pode ser que fossem clientes legítimos que não sabiam para onde o dinheiro ia.

Mimi

Ou pode ser que soubessem exatamente o que estavam pagando — um atalho para conseguir seus créditos tributários aprovados mais rápido.

Mark

Qual é o próximo passo?

Luke

Julgamento. Buttini, Weiss e os outros ainda não foram condenados. O MP investiga crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

  • João André Buttini de Moraes preso em 3 de setembro de 2026
  • Patrimônio declarado multiplicado por dez: de R$ 30,5 milhões (2017) para R$ 314,2 milhões (2024)
  • R$ 383,47 milhões em recursos recebidos de terceiros entre 2018 e 2025
  • R$ 13,6 milhões em propina declarados por colaborador premiado
  • R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros constituídos pela Secretaria da Fazenda

João André Buttini de Moraes liderava organização criminosa que cobrava propina de contribuintes para interferir na análise de créditos tributários na Secretaria da Fazenda de SP. Investigação identificou R$ 383,47 milhões em recursos recebidos de terceiros entre 2018 e 2025, com 87,7% originários de suas próprias empresas através de dividendos isentos de impostos.

Advogado preso em operação contra corrupção na Fazenda de SP multiplicou patrimônio por dez em sete anos, acumulando R$ 314,2 milhões através de esquema de propina para liberar créditos tributários.

João André Buttini de Moraes foi preso na quinta-feira, 3 de setembro, em uma operação que desmantelou um esquema de corrupção na administração tributária de São Paulo. O advogado, que liderava o núcleo privado de uma organização criminosa, havia transformado sua riqueza declarada de forma extraordinária: em sete anos, entre 2017 e 2024, seu patrimônio saltou de R$ 30,5 milhões para R$ 314,2 milhões — um aumento de dez vezes. Segundo o Ministério Público de São Paulo, mais de 99% dessa renda declarada era composta por dividendos isentos de impostos distribuídos por empresas que ele controlava.

O funcionamento da rede criminosa era direto: Buttini captava grandes contribuintes que precisavam de créditos tributários liberados pela Secretaria da Fazenda e Planejamento. Ele negociava honorários e facilidades com esses clientes, depois repassava parte dos valores recebidos a agentes públicos encarregados de destravar, acelerar ou aprovar os pedidos de ressarcimento de impostos. Essa divisão de propina era essencial para o esquema funcionar — sem os servidores públicos dispostos a interferir nos processos, o negócio não teria pé.

Os números revelados pela quebra de sigilo bancário ilustram a escala da operação. Entre janeiro de 2018 e novembro de 2025, as contas pessoais de Buttini registraram uma movimentação bruta de R$ 2,12 bilhões. Quando os investigadores excluíram operações duplicadas, resgates de investimentos e transferências entre contas do próprio advogado, chegaram a R$ 383,47 milhões em recursos efetivamente recebidos de terceiros — uma média superior a R$ 48 milhões por ano. Desse total, R$ 336,28 milhões, ou 87,7%, vieram de suas próprias empresas: o escritório Buttini de Moraes Sociedade de Advogados, a BM Tax, a BM Investimentos e a Juri Consultoria Empresarial. Apenas o escritório de advocacia distribuiu R$ 80,15 milhões em dividendos a Buttini nos anos de 2023 e 2024. Considerando todas as empresas do grupo, os pagamentos ultrapassaram R$ 190 milhões no período analisado.

A investigação também identificou movimentações suspeitas para o exterior. Buttini enviou R$ 36,5 milhões ao exterior, valor mais de oito vezes superior aos R$ 4,4 milhões que ele havia declarado em uma conta no Itaú Miami. Além disso, os investigadores encontraram duas aquisições imobiliárias de alto valor sem localizar nas contas examinadas as saídas bancárias correspondentes aos pagamentos: a Mansão Tucumã, avaliada em R$ 33 milhões, e um conjunto de imóveis em Itupeva avaliado em R$ 40 milhões.

Quanto aos pagamentos de propina, a investigação baseou-se em depoimento de um colaborador premiado. Paulo Prado declarou ter recebido de Buttini R$ 13,6 milhões entre 2021 e 2025 para agilizar e destravar pedidos tributários de clientes do escritório. Segundo Prado, R$ 4,5 milhões desse total foram repassados a André Weiss, que comandou a Diretoria-Geral Executiva da Administração Tributária até maio deste ano. As entregas teriam ocorrido em dinheiro vivo, dentro de mochilas, principalmente em restaurantes de Pinheiros. Weiss também foi preso preventivamente na mesma operação. A Justiça, ao autorizar as prisões, afirmou que o relato do colaborador encontra respaldo em documentos manuscritos, dados bancários e fiscais, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, mensagens extraídas de aparelhos eletrônicos e uma gravação ambiental submetida a perícia.

Cinco grandes empresas pagaram, juntas, R$ 140,65 milhões ao escritório e às empresas ligadas a Buttini entre 2018 e 2025 por serviços jurídicos e de consultoria tributária. O Ministério Público sustenta que uma parcela desses honorários foi utilizada para pagar propina a agentes públicos, embora os documentos não esclareçam se as empresas contratantes tinham conhecimento dos supostos pagamentos ilícitos. A defesa de Buttini informou que está tomando conhecimento dos elementos da investigação e que, tão logo tenha acesso integral aos autos, prestará todos os esclarecimentos necessários às autoridades competentes.

A Secretaria da Fazenda e Planejamento afirmou que, desde a deflagração da Operação Ícaro em agosto de 2025, atua em conjunto com o Ministério Público na apuração rigorosa dos fatos. A pasta resultou na demissão de cinco envolvidos, além de um exonerado e 17 servidores afastados sem remuneração. As empresas envolvidas também estão sendo responsabilizadas, com autuações que já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros. O Ministério Público investiga possíveis crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Os citados ainda não foram julgados.

Desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025, a Secretaria da Fazenda e Planejamento atua em conjunto com o Ministério Público de São Paulo na apuração rigorosa dos fatos.
— Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo
Em total transparência e colaboração com a investigação, informa que tão logo tenha acesso integral aos autos do caso, prestará todos esclarecimentos necessários às autoridades competentes.
— Defesa de João André Buttini de Moraes
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