Em setembro de 2021, o advogado Marcos Tolentino compareceu à CPI da Covid para responder sobre sua relação com o FIB Bank — instituição que garantiu a venda da vacina Covaxin ao Ministério da Saúde. Sob juramento, negou ser sócio oculto da entidade, atribuindo sua proximidade à prestação de serviços advocatícios para o grupo Benetti. O depoimento, porém, revelou uma teia de vínculos — endereços compartilhados, telefones em comum, histórias empresariais entrelaçadas — que a negação formal, por si só, não era capaz de desfazer inteiramente.
Advogado nega ser sócio oculto de banco que garantiu compra da Covaxin
Derivaram muitos negócios dessa empresa, e ainda mantenho empresas em comum
Por que um advogado que presta serviços a uma empresa precisa compartilhar o mesmo telefone e escritório que ela?
Tolentino disse que era uma questão de conveniência e eficiência operacional. Quando você trabalha regularmente para um cliente, especialmente uma empresa, é comum estar próximo. Mas é claro que isso levanta perguntas.
Ele estava realmente internado durante toda a negociação da Covaxin?
Segundo seu depoimento, sim — na UTI, intubado, com Covid grave. Se verdadeiro, isso o coloca fora da ação. Mas a CPI estava tentando entender se havia outras pessoas atuando em seu lugar, ou se sua presença era necessária de outras formas.
E quanto aos encontros com Bolsonaro? Por que isso importa?
Porque sugere proximidade com o poder. Se Tolentino tinha acesso ao presidente, mesmo que casual, isso poderia significar que tinha influência sobre decisões. Ele negou amizade pessoal, mas a simples existência desses encontros é relevante quando você está investigando como um negócio foi aprovado.
A história sobre Ederson Benetti e Ricardo Benetti parece complicada. Tolentino estava tentando confundir?
Talvez não intencionalmente. A divisão de ativos após uma morte pode ser genuinamente complexa. Mas a complexidade também pode servir como cobertura — é difícil rastrear quem realmente controla o quê quando há camadas de empresas e transferências.
Se ele se desligou da empresa há doze anos, por que ainda importa?
Porque a Pico do Juazeiro, que ele diz ter mantido, tornou-se acionista do FIB Bank em 2016. Então mesmo que ele tenha saído da empresa original, seus ativos derivados continuaram conectados ao banco que garantiu a Covaxin. Nunca houve um corte limpo.
El Pulso
- A CPI da Covid pressionava Tolentino a explicar por que seu escritório e o FIB Bank dividiam o mesmo prédio e o mesmo número de telefone, sugerindo uma proximidade que ia além da advocacia.
- O advogado chegou à sessão acompanhado de médicos, ainda debilitado pela Covid-19, e usou sua internação na UTI do Sírio Libanês como prova de que não poderia ter participado das negociações da Covaxin.
- Senadores exploraram suas conexões com Bolsonaro, Ricardo Barros e os filhos do presidente, tentando mapear se Tolentino era um elo entre os operadores da vacina e o núcleo do governo.
- Tolentino reconheceu que da empresa original com Ederson Benetti 'derivaram muitos negócios', admitindo uma rede de vínculos que tornava difícil traçar fronteiras claras entre o que era seu e o que era do grupo.
- Ao fim do depoimento, as dúvidas sobre a transparência dos laços entre os intermediários da Covaxin e o governo Bolsonaro permaneciam sem resposta definitiva.
Em setembro de 2021, o advogado Marcos Tolentino compareceu à CPI da Covid para responder sobre sua relação com o FIB Bank — instituição que garantiu a venda da vacina Covaxin ao Ministério da Saúde. Sob juramento, negou ser sócio oculto da entidade, atribuindo sua proximidade à prestação de serviços advocatícios para o grupo Benetti. O depoimento, porém, revelou uma teia de vínculos — endereços compartilhados, telefones em comum, histórias empresariais entrelaçadas — que a negação formal, por si só, não era capaz de desfazer inteiramente.
Marcos Tolentino chegou à CPI da Covid em setembro de 2021 ainda se recuperando de uma internação grave por Covid-19, acompanhado de médicos. Sob juramento, negou categoricamente ser sócio oculto do FIB Bank, a instituição que forneceu a garantia financeira para a venda da Covaxin ao Ministério da Saúde. Sua explicação buscava separar proximidade de cumplicidade: ele prestava serviços advocatícios ao grupo Benetti, o que justificaria até mesmo o fato de seu escritório e a empresa ocuparem o mesmo prédio e compartilharem o mesmo telefone.
A história que contou aos parlamentares era complexa. Havia sido sócio de Ederson Benetti, já falecido, em uma empresa em Curitiba. Após a morte do parceiro, dividiu ativos com o filho Ricardo Benetti — algumas empresas ficaram com ele, outras foram transferidas como herança. Uma dessas empresas, a Pico do Juazeiro, tornou-se acionista do FIB Bank em 2016. Tolentino disse ter se afastado dessa empresa há doze anos, mas admitiu que dela 'derivaram muitos negócios', o que explicava por que ainda mantinha vínculos com o grupo.
Sobre a negociação da Covaxin, ofereceu uma defesa temporal: durante as tratativas entre a Precisa Medicamentos e o Ministério da Saúde, ele estava intubado na UTI do Hospital Sírio Libanês. Negou também ter participado de um jantar com o ex-ministro Pazuello e representantes da Precisa. Quanto às suas conexões políticas, confirmou conhecer Bolsonaro desde a época de deputado e manter amizade com o deputado Ricardo Barros, pedindo desculpas por tê-lo acompanhado em seu próprio depoimento à CPI.
O depoimento de Tolentino ocorria em meio ao escrutínio intenso sobre os mecanismos da negociação da Covaxin — uma vacina que gerou controvérsia desde o início, com questionamentos sobre a legitimidade da Precisa como intermediária e sobre os vínculos entre os operadores do negócio e o governo. Sua presença no centro dessa teia — pelos endereços, pelos telefones, pela história empresarial compartilhada — levantava perguntas que a negação formal não era suficiente para encerrar.
Marcos Tolentino compareceu à CPI da Covid em setembro de 2021 para responder perguntas sobre seu envolvimento com o FIB Bank, a instituição que forneceu a garantia financeira para a Precisa Medicamentos vender a vacina Covaxin ao Ministério da Saúde. O advogado e empresário chegou acompanhado de médicos, ainda se recuperando das sequelas de uma internação grave por Covid-19. Sob juramento, negou categoricamente ser sócio oculto da instituição. "Não possuo qualquer participação na sociedade, não sou sócio da empresa", declarou.
A explicação que ofereceu aos parlamentares traçava uma linha entre sua história pessoal e a estrutura empresarial em questão. Tolentino havia sido sócio de Ederson Benetti, falecido, em uma empresa de prestação de serviços em Curitiba. Após a morte de Benetti, chegou a um acordo com o filho e herdeiro, Ricardo Benetti, dividindo ativos e empresas. Algumas dessas empresas permaneceram sob sua propriedade; outras foram transferidas para Ricardo. Uma delas, a Pico do Juazeiro, tornou-se acionista do FIB Bank em 2016. Tolentino argumentou que sua proximidade com a instituição e com Ricardo Benetti explicava-se unicamente pela prestação de serviços advocatícios que realizava para o grupo — um trabalho que justificava, segundo ele, até mesmo o fato de seu escritório e a empresa ocuparem o mesmo prédio comercial e compartilharem o mesmo número de telefone em cartões de visita.
Quanto ao papel específico na negociação da Covaxin, Tolentino ofereceu uma defesa temporal. Afirmou que durante o período em que a Precisa Medicamentos conduzia suas tratativas com o Ministério da Saúde, ele estava internado na UTI do Hospital Sírio Libanês em estado crítico, intubado e lutando contra a Covid-19. Essa condição, argumentou, o impossibilitava de participar de qualquer intermediação de negócios. Também negou ter comparecido a um jantar que teria reunido representantes da Precisa, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e outras figuras ligadas ao governo.
Os parlamentares também exploraram as conexões de Tolentino com círculos políticos. O advogado confirmou conhecer o presidente Jair Bolsonaro desde a época em que este era deputado federal, mas insistiu que não havia amizade pessoal entre eles — apenas encontros ocasionais, como em um evento sobre marco regulatório de televisões. Sobre o deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, Tolentino disse manter uma relação de longa data baseada em amizade e respeito. Pediu desculpas por ter acompanhado Barros durante seu próprio depoimento à CPI em agosto, esclarecendo que não se tratava de provocação. Quanto aos filhos do presidente, afirmou conhecer Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro através de eventos políticos e sociais, mas negou conhecer Jair Renan Bolsonaro. Notavelmente, não mencionou Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro.
Sobre sua desvinculação do grupo Benetti, Tolentino declarou ter se afastado da empresa acionista do FIB Bank há doze anos. Porém, reconheceu que dessa empresa original "derivaram muitos negócios", o que explicava por que ainda mantinha empresas em comum com o grupo. Descreveu um processo complexo de divisão de ativos após a morte de Ederson Benetti, com algumas empresas permanecendo em seu nome e outras sendo transferidas para Ricardo Benetti como parte de seus direitos hereditários. Algumas dessas empresas ainda carregavam o sobrenome Benetti em sua razão social.
O depoimento de Tolentino ocorria em um momento de intenso escrutínio sobre os mecanismos pelos quais a Covaxin havia sido negociada com o governo federal. A vacina indiana havia gerado controvérsia desde o início, com questões sobre a legitimidade da Precisa Medicamentos como intermediária e sobre os vínculos entre os operadores do negócio e figuras próximas ao governo Bolsonaro. O FIB Bank, ao fornecer a garantia que permitiu a transação, havia se tornado um ponto focal dessa investigação. A presença de Tolentino no centro dessa teia de relações — através de sua proximidade com Ricardo Benetti, através de seu escritório no mesmo prédio, através de seu número de telefone compartilhado — levantava questões sobre a transparência e a clareza das linhas de responsabilidade. Seu depoimento, embora negasse participação direta, não dissipava inteiramente essas dúvidas.
Citas Notables
Não possuo qualquer participação na sociedade, não sou sócio da empresa— Marcos Tolentino, em depoimento à CPI
Me encontrava internado na UTI no Sírio Libanês, em razão de severo quadro de Covid-19. Fui entubado— Marcos Tolentino, explicando sua ausência durante as negociações