Desde os anos 1790, o capitalismo moderno atravessa recessões com uma regularidade de aproximadamente cinco em cinco anos — não por falha humana, mas como expressão da própria natureza do sistema. A cada geração, surge uma nova tecnologia que promete romper esse ciclo: antes foi a eletricidade, o computador, a internet; hoje é a inteligência artificial. A história, porém, não se deixa convencer por promessas, e o colunista da Folha de S.Paulo nos lembra que a ilusão de imunidade é, ela mesma, parte do ciclo.
A recessão virá, mas ninguém sabe quando
Ninguém consegue prever recessões com precisão suficiente para ficar bilionário
Se ninguém consegue prever recessões, por que você tem tanta certeza de que uma virá?
Porque ela sempre veio. Não é previsão — é padrão. Desde 1790, a cada cinco anos mais ou menos. Não sei quando, mas sei que virá.
Mas e se a IA realmente mudou as regras? E se desta vez for diferente?
Disseram isso antes. Sempre disseram. Ricardo em 1817, depois outros. Cada geração acha que descobriu a fórmula que elimina as crises. Depois vem a crise.
Então você está dizendo que os jornalistas financeiros e os economistas estão igualmente errados?
Estão. Os jornalistas dizem que tudo vai bem para sempre. Os economistas dizem que tudo vai desabar. Os dois ganham dinheiro com a certeza que não têm.
Por que as pessoas acreditam em livros sobre o fim do mundo?
Porque é mais interessante que a verdade. A verdade é que oscilamos entre pânico e euforia. Ninguém vende livro dizendo "provavelmente vai ficar mais ou menos igual".
E a China escapou da Grande Depressão. Isso não prova que é possível evitar crises?
Não. A China escapou porque tinha o padrão-prata, não porque era mais inteligente. Depois sofreu guerra civil e invasão. O capitalismo moderno ainda pulsa do mesmo jeito.
O Pulso
- Jornalistas financeiros e economistas continuam afirmando, com falsa certeza, que a IA tornou os ciclos econômicos coisa do passado — repetindo um erro que gerações anteriores já cometeram.
- A incapacidade de prever recessões com precisão é tão absoluta que, se alguém realmente soubesse quando elas ocorrem, acumularia uma riqueza impossível de calcular.
- O pessimismo catastrofista tem tanto apelo de mercado quanto o otimismo ingênuo — livros sobre 'O Fim' vendem milhões, mas não por isso se tornam ciência.
- Desde 1790, crises econômicas deixaram de ser fenômenos regionais ligados a guerras ou colheitas e passaram a ser eventos globais, pulsando a cada cinco anos como batimento do próprio sistema.
- A mudança tecnológica — imprevisível por definição — é a força que alimenta esse ritmo, e nenhuma ferramenta econométrica conseguiu, até hoje, domesticá-la.
Desde os anos 1790, o capitalismo moderno atravessa recessões com uma regularidade de aproximadamente cinco em cinco anos — não por falha humana, mas como expressão da própria natureza do sistema. A cada geração, surge uma nova tecnologia que promete romper esse ciclo: antes foi a eletricidade, o computador, a internet; hoje é a inteligência artificial. A história, porém, não se deixa convencer por promessas, e o colunista da Folha de S.Paulo nos lembra que a ilusão de imunidade é, ela mesma, parte do ciclo.
Nenhum jornalista financeiro, por mais confiante que pareça, sabe quando a próxima recessão chegará. O argumento de que a inteligência artificial tornou os ciclos econômicos obsoletos é apenas a versão mais recente de uma promessa que se repete a cada geração. Antes da IA, era outra tecnologia. Sempre é outra coisa.
A lógica é direta: se alguém pudesse prever recessões com precisão suficiente, apostaria contra ou a favor dos mercados e acumularia uma fortuna inimaginável. Como isso não acontece, a conclusão é inevitável — ninguém consegue. Nem economistas otimistas, nem os catastrofistas que pregam o apocalipse com a mesma falta de base científica. Robert Gordon, Tyler Cowen, Thomas Piketty — todos escreveram best-sellers sobre declínio ou concentração de riqueza. As pessoas adoram histórias sobre O Fim, mas isso não as torna proféticas.
Desde a década de 1790, quando o capitalismo moderno começou a pulsar, crises econômicas deixaram de ser fenômenos locais causados por guerras ou quebras de safra e passaram a ser eventos globais. O ritmo é aproximadamente o mesmo: uma recessão a cada cinco anos, com grandes colapsos de tempos em tempos. A China do padrão-prata escapou da Grande Depressão dos anos 1930, mas pagou o preço de formas mais antigas de crise — guerra civil e invasão.
A causa desse ritmo é, por definição, imprevisível: a mudança tecnológica. Ela acelera, provoca pânico ou euforia, e então o ciclo recomeça. A ilusão de que desta vez é diferente não é ingenuidade — é parte do próprio mecanismo.
Ninguém sabe quando a recessão chega. Mas qualquer jornalista financeiro que lhe disser com certeza que a "nova economia" está imune a crises deve ser jovem demais para ter visto isso tudo acontecer antes. Essa conversa sobre imunidade econômica não é nova. Agora dizem que foi a inteligência artificial que tornou os ciclos obsoletos. Antes era outra coisa. Sempre é outra coisa.
Se alguém realmente conseguisse prever recessões com precisão, seria mais rico que Elon Musk. Se Deus sussurrasse no seu ouvido quando o próximo boom imobiliário em São Paulo aconteceria, ou quando a Bolsa de Nova York subiria, você poderia ganhar uma fortuna infinita apostando contra ou a favor. Portanto, a lógica é simples: ninguém consegue. Nem a econometria, nem nenhuma outra ferramenta consegue prever com a precisão necessária para gerar esses bilhões. Muitos economistas fazem o oposto dos jornalistas otimistas — pregam o apocalipse com a mesma falta de base científica e a mesma confiança lucrativa. Dizem que sabem que tudo vai desabar. Alguns deles são excelentes, admiráveis até. Robert Gordon e Tyler Cowen escreveram livros catastróficos que viraram best-sellers. As pessoas adoram histórias sobre O Fim.
Em 1968, o biólogo Paul Ehrlich vendeu mais de três milhões de cópias de um livro sobre a bomba populacional. O mundo inteiro estava em pânico com a superpopulação que causaria o colapso. Esse pânico desapareceu. Transformou-se no pânico atual sobre a subpopulação. Alguma lição nisso? Economistas vêm divulgando pessimismo desde David Ricardo, em 1817, quando previu que os proprietários de terras abocanhariam toda a renda e deixariam o resto de nós na pobreza. Em 2011, Thomas Piketty, um marxista ricardiano orgulhoso, previu exatamente a mesma coisa — que os capitalistas abocanhariam tudo. Mas como se sabe que a recessão virá? Porque ela sempre veio.
Desde que o capitalismo moderno começou a pulsar, lá pela década de 1790, as crises são parte do sistema. Antes disso, os altos e baixos das economias vinham de guerras e quebras de safra, não da própria máquina econômica. Desde então, aproximadamente a cada cinco anos ocorre uma recessão. De vez em quando, uma grande. As crises econômicas anteriores a 1790 tendiam a ficar presas em uma região ou outra. Depois disso, quase sempre foram mundiais. A China oferece uma exceção interessante: tinha o padrão-prata em sua moeda e não sofreu a Grande Depressão dos anos 1930 como as nações que adotavam o padrão-ouro. Em vez disso, enfrentou as causas antiquadas de dificuldades econômicas — guerra civil e invasão japonesa.
Por que essa pulsação? A causa é imprevisível: a mudança tecnológica. Sua aceleração moderna foi possibilitada pelo novo liberalismo, que permitiu até aos pobres experimentar coisas em grande escala. As pessoas entram em pânico ou ficam maníacas — é assim que somos, oscilando entre pessimismo e otimismo injustificados. Então novas tecnologias mecânicas, biológicas ou organizacionais pulsam. Estava mais que na hora.
Citações Notáveis
Se eu soubesse quando a recessão chegará, seria uma bilionária mais rica que Elon Musk— Colunista
As pessoas adoram livros que dizem que O Fim está próximo— Colunista