Brasileiros caem em tráfico humano no Camboja: um morreu, outra segue presa

Gabriel Oliveira faleceu em circunstâncias suspeitas no Camboja; Daniela Marys permanece presa em cadeia superlotada após recusar participação em esquema criminoso, ambos vítimas de tráfico humano.
É uma vida. Para quem está aqui é uma vida.
Daniela Marys descrevendo o tempo que ainda falta cumprir na cadeia cambojana.
Mark

Por que o Camboja se tornou esse destino para brasileiros em situação de tráfico?

Mimi

A localização é crucial. Poipet fica na fronteira com a Tailândia, que é porta de entrada de vítimas. Quando a pandemia fechou a fronteira, os cassinos que serviam turistas tailandeses viraram centros de operações criminosas online. A infraestrutura já existia.

Mark

E como Gabriel foi aliciado? Parecia uma oportunidade legítima.

Mimi

Era assim que funcionava. Uma proposta real de trabalho em TI, com benefícios inclusos. Mas em vez de Bangkok, ele foi levado para o Camboja. Os contatos com a família eram superficiais, sempre do quarto, sempre vigiado. Ninguém percebia até ser tarde demais.

Mark

A morte dele nunca foi esclarecida?

Mimi

Nunca. A empresa disse que foi explosão de micro-ondas, mas não apresentou nada. Os pais precisaram de uma vaquinha para trazer o corpo de volta. Levou um ano inteiro.

Mark

E Daniela recusou participar dos golpes. Isso a colocou em perigo?

Mimi

Sim. Quando ela disse não, eles a colocaram medo. Depois veio a batida policial, drogas plantadas no banheiro. Ela está presa em cadeia superlotada, com um buraco no chão como banheiro.

Mark

Mas há esperança para ela?

Mimi

Mais do que para Gabriel. Sai em março de 2027. Há pedido de transferência para o Brasil. A família acredita que poderia ter sido muito pior, irreversível. Pelo menos ela está viva e há data de saída.

Mark

O que o governo brasileiro fez?

Mimi

O Itamaraty diz que comunicou, prestou assistência consular, ajudou na repatriação. Mas negou pagar os custos. A família de Gabriel precisou de crowdfunding. Para Daniela, acompanha as audiências e faz visitas.

  • Gabriel Oliveira, 24 anos, morreu em julho de 2025 no Camboja em circunstâncias não esclarecidas
  • Corpo repatriado um ano depois com ajuda de vaquinha que arrecadou R$ 52 mil
  • Daniela Marys, 37 anos, presa em Sisophon após recusar participar de golpes online
  • Camboja tornou-se principal destino de vítimas brasileiras de tráfico humano em 2025
  • Poipet, cidade na fronteira com Tailândia, é centro de operações criminosas de golpes online

Gabriel, 24 anos, foi levado ao Camboja sob promessa de emprego em TI na Tailândia e morreu em julho de 2025 em circunstâncias não esclarecidas, com corpo repatriado um ano depois. Daniela Marys, 37 anos, presa em cadeia superlotada após recusar participar de golpes da Polícia Federal, cumpre pena de dois anos e meio com previsão de saída em março de 2027.

Gabriel Oliveira morreu em circunstâncias suspeitas no Camboja após ser aliciado para trabalho no exterior, enquanto a arquiteta Daniela Marys permanece presa após recusar participar de esquema criminoso de golpes.

Numa manhã de agosto, os funcionários da funerária Evergreen, nos fundos de um templo budista em Phnom Penh, preparavam-se para cremar um corpo. O ritual era burocrático e religioso — um policial preenchendo fichas enquanto um altar dourado exibia incensos, alimentos e fotografias. Era assim em todo dia de cremação, disseram os funcionários. Mas havia também uma questão prática: o espaço armazenava corpos de estrangeiros, e a repatriação custava caro. As famílias geralmente optavam por traslado de cinzas. Os pais de Gabriel Oliveira recusaram.

Gabriel tinha 24 anos quando morreu no Camboja em julho de 2025. Seus pais, a professora Leniêr Quirino e o veterinário Daniel de Araújo Vieira, precisavam ter certeza de que se tratava do filho. O corpo permaneceu na funerária por cerca de um ano até ser repatriado. A empresa que supostamente o empregava afirmou por mensagens que a morte resultou da explosão de um micro-ondas, mas nunca apresentou qualquer comprovação. A tese principal é que Gabriel tenha sido vítima de tráfico humano — e o Camboja tornou-se em 2025 o principal destino de brasileiros nessa situação, segundo o Ministério da Justiça.

Gabriel tinha experiência em tecnologia da informação e recebeu uma proposta que parecia sólida: trabalho em Bancoc, na Tailândia, com hospedagem, alimentação e passagens aéreas inclusos. Deixou Igarapé, em Minas Gerais, onde morava com a família. Desembarcou na capital tailandesa, mas logo entrou numa van que o levou para uma cidade cambojana cujos pais ainda desconhecem o nome. Mantinha contato constante com a família, mas superficial — vídeos sempre do quarto onde dormia, apesar dos pedidos para mostrar a cidade. "Ele falava que tinha várias pessoas junto, não dava muitos detalhes, mas sempre falou que estava tudo bem", disse a mãe. O último contato ocorreu em 5 de julho de 2025. Dez dias depois, o Itamaraty comunicou que o filho havia morrido. Houve várias versões: a polícia o encontrou, foi socorrido, levado ao hospital. Nada ficou claro.

A forma de aliciamento, o pacote de benefícios, o deslocamento da Tailândia ao Camboja, os contatos superficiais e a morte suspeita configuraram o caso como tráfico de pessoas. Após a confirmação, o obstáculo tornou-se financeiro. Os pais buscaram a Justiça para obrigar o governo a arcar com a repatriação, mas o pedido foi negado. Uma vaquinha virtual arrecadou cerca de 52 mil reais. O corpo chegou a São Paulo em julho de 2026, um ano após a notícia da morte. Lívia Miraglia, professora de direito e coordenadora da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG, que atuou no caso, descreveu-o como um dos mais difíceis de sua carreira. "No caso de Gabriel, 'dar certo' significava trazer o corpo de um menino de 20 e poucos anos para ser enterrado no Brasil. Isso mexeu muito comigo", disse.

Enquanto lidava com o traslado de Gabriel, Miraglia atuava também no caso de Daniela Marys, 37 anos, arquiteta de Belo Horizonte, presa na cadeia de Banteay Meanchey em Sisophon, também no Camboja, após se tornar vítima de tráfico humano. Daniela foi levada para Poipet, cidade na fronteira com a Tailândia conhecida pelo histórico de tráfico. A localização oferecia um ecossistema perfeito para redes criminosas — a Tailândia é porta de entrada de vítimas, e a região tem rotas para travessia ilegal. Poipet também é famosa por cassinos voltados ao público tailandês, infraestrutura que organizações criminosas aproveitaram para instalar complexos de golpes. Quando a fronteira fechou na pandemia, as casas de apostas passaram a ser usadas para operações online.

Daniela foi a primeira brasileira levada pelos criminosos para a central em área remota da cidade. Poucos dias depois chegou o restante da equipe. Começaram as operações de tradução e atendimento ao cliente para as quais ela foi contratada. Durante o treinamento, porém, descobriu que seria parte do golpe da Polícia Federal, no qual teria de se passar por uma policial e avisar a vítima de que era alvo de investigação — uma farsa. "Quando eu falei que eu não ia fazer, para eles foi como uma afronta", disse ela. "É abuso mental mesmo, de você ficar assim: 'O que eles vão fazer comigo?'. Porque eles te colocam medo, medo do que pode acontecer se você não trabalhar para eles."

Foi presa após uma batida policial que encontrou drogas no banheiro do quarto do complexo. Ela argumenta que os três comprimidos foram plantados após recusar participar do esquema. A cadeia onde está está superlotada — 130 pessoas ante as 63 de quando chegou. As regras endureceram após tentativa de fuga. Um buraco no chão serve como vaso sanitário para todas. O banho é de caneca no tanque, onde as presas também lavam louça. Tudo que é oferecido é pago por ela com ajuda da família. "É tudo muito complicado, tudo muito demorado. Eu tenho mais oito meses ainda de pena. É uma vida. Para quem está aqui é uma vida", disse. Sentenciada a dois anos e meio, teve a pena reduzida em seis meses após recurso. A expectativa é deixar a cadeia em março de 2027. Há esperança de que o pedido de transferência para cumprir o restante da pena no Brasil seja atendido. Sua irmã, Lorena Costa Oliveira, notava que as interações não eram espontâneas — parecia que Daniela estava sendo vigiada o tempo todo, coagida. "Apesar desse desespero de quase um ano e meio em que a Dani está presa, a gente acredita que, sim, ela teve um livramento. Poderia ser pior e poderia ser irreversível", afirmou.

Ele falava que tinha várias pessoas junto, não dava muitos detalhes, mas sempre falou que estava tudo bem
— Leniêr Quirino, mãe de Gabriel, sobre os contatos do filho
No caso de Gabriel, 'dar certo' significava trazer o corpo de um menino de 20 e poucos anos para ser enterrado no Brasil. Isso mexeu muito comigo
— Lívia Miraglia, coordenadora da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG
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