Países ricos como Canadá garantiram vacinas para cinco vezes sua população, enquanto 67 nações pobres e de médio rendimento arriscam ficar sem acesso adequado. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste estão entre os países lusófonos afetados pela distribuição desigual de vacinas.
70 países em desenvolvimento só conseguem vacinar 1 em cada 10 pessoas em 2021
Os países ricos têm doses para vacinar toda a gente quase três vezes
Como é que chegámos a uma situação onde um país como o Canadá tem vacinas para cinco vezes a sua população, enquanto 67 países não têm sequer para 10% da sua gente?
Os países ricos começaram a fazer contratos bilaterais diretos com as farmacêuticas muito cedo, antes de haver sequer vacinas aprovadas. Tinham o dinheiro e a influência para garantir quantidades massivas. Os países pobres não tinham essa capacidade de negociação.
Mas espera — o COVAX foi criado exatamente para evitar isto. Porque é que não funcionou?
O COVAX conseguiu 700 milhões de doses, o que parece muito, mas para 92 países com 3,6 mil milhões de habitantes é uma gota no oceano. E muitos países ricos também aderiram ao COVAX enquanto compravam bilateralmente — portanto duplicaram as suas garantias.
As organizações dizem que as farmacêuticas receberam 5 mil milhões em financiamento público. Não deveria isso dar aos governos algum controlo sobre como as vacinas são distribuídas?
Teoricamente sim, mas o financiamento foi dado com poucas condições. Os governos ricos queriam as vacinas para as suas populações — não estavam particularmente interessados em impor obrigações globais.
E há um argumento económico: as empresas dizem que se não pudessem manter lucros altos e direitos exclusivos, não teriam incentivo para inovar tão rapidamente. Mas isso significa que a tecnologia fica fechada, e ninguém mais pode produzir.
Então o que é que as organizações estão a pedir, exatamente?
Querem que os governos obriguem as farmacêuticas a partilhar a propriedade intelectual e o conhecimento científico, para que outros fabricantes possam produzir vacinas. E querem que os lucros não sejam a prioridade.
Mas isso é politicamente muito difícil. Os governos ricos têm relações próximas com as suas indústrias farmacêuticas. E há questões legítimas sobre se a partilha forçada de tecnologia funcionaria na prática.
Verdade. Mas o custo de não fazer nada é que milhares de milhões de pessoas não recebem vacina durante anos. Isso mantém a pandemia viva globalmente.
Der Puls
- 70 países em desenvolvimento terão vacinas para apenas 10% da população em 2021
- Países ricos controlam 53% da oferta global, apesar de representarem 14% da população mundial
- Canadá garantiu vacinas para cinco vezes a sua população
- Seis países lusófonos afetados: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste
- COVAX assegurou 700 milhões de doses para 92 países com 3,6 mil milhões de habitantes
Países ricos como Canadá garantiram vacinas para cinco vezes sua população, enquanto 67 nações pobres e de médio rendimento arriscam ficar sem acesso adequado. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste estão entre os países lusófonos afetados pela distribuição desigual de vacinas.
Coligação internacional alerta que 70 países em desenvolvimento, incluindo seis lusófonos, terão vacinas suficientes apenas para imunizar 10% da população em 2021, enquanto países ricos já garantiram 53% do fornecimento global.
Uma coligação de organizações internacionais divulgou esta quarta-feira um retrato alarmante da distribuição global de vacinas contra a covid-19: enquanto os países mais ricos do mundo já garantiram mais de metade de toda a oferta mundial, cerca de 70 nações em desenvolvimento — incluindo seis países de língua portuguesa — terão doses suficientes apenas para imunizar uma em cada dez pessoas durante 2021.
O estudo, produzido pela Peoples Vaccine Alliance, que reúne a Amnistia Internacional, Frontline AIDS, Global Justice Now e Oxfam, analisou os contratos já assinados entre governos e os oito principais candidatos a vacina. Os números revelam uma disparidade brutal: os países ricos, que representam apenas 14% da população global, já controlam 53% de todas as vacinas mais promissoras. O Canadá, por exemplo, conseguiu garantir doses suficientes para vacinar cinco vezes toda a sua população. Entretanto, 67 nações de baixo e médio rendimento enfrentam o risco de ficar completamente para trás, a menos que governos e indústria farmacêutica tomem medidas urgentes para aumentar a produção.
Entre os países afetados estão seis nações lusófonas: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A maioria dos 67 países vulneráveis localiza-se em África e na Ásia. Cinco deles — Quénia, Mianmar, Nigéria, Paquistão e Ucrânia — registam em conjunto 1,5 milhões de casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus, tornando a vacinação ainda mais urgente.
Os porta-vozes das organizações foram diretos nas críticas. Anna Marriott, gestora de política de saúde da Oxfam, alertou que "a menos que algo mude drasticamente, milhares de milhões de pessoas em todo o mundo não receberão uma vacina segura e eficaz para a covid-19 durante os próximos anos". Steve Cockburn, da Amnistia Internacional, denunciou o que chamou de "açambarcamento de vacinas" pelos países ricos, argumentando que esta prática viola as obrigações internacionais em matéria de direitos humanos. Heidi Chow, da Global Justice Now, sublinhou a necessidade de partilhar o conhecimento científico e a propriedade intelectual das vacinas, permitindo que sejam produzidas doses suficientes em todo o mundo.
O problema estrutural é claro: as vacinas desenvolvidas pela AstraZeneca/Oxford, Moderna e Pfizer/BioNTech receberam mais de 5 mil milhões de dólares de financiamento público, o que, segundo as organizações, deveria ter criado uma obrigação de agir no interesse público global. Em vez disso, as empresas farmacêuticas mantêm direitos exclusivos e guardam a sua tecnologia em segredo para maximizar lucros. Mohga Kamal Yanni, da People's Vaccine Alliance, resumiu a situação com clareza: "Os países ricos têm doses suficientes para vacinar toda a gente quase três vezes, enquanto os países pobres não têm o suficiente para chegar sequer aos trabalhadores da saúde e às pessoas de risco".
O mecanismo de distribuição global, o COVAX, oferece uma esperança limitada. Este compromisso entre países conseguiu assegurar 700 milhões de doses dos principais candidatos a vacina, a serem distribuídas entre 92 países que aderiram ao programa e que, no seu conjunto, têm 3,6 mil milhões de habitantes. Porém, este número está longe de ser suficiente para as necessidades globais. Os cálculos da análise baseiam-se no facto de que 30 países de baixo rendimento e 37 de rendimento médio terão acesso a qualquer vacina apenas através do COVAX.
Lois Chingandu, da Frontline AIDS, colocou o problema numa perspetiva mais ampla: esta pandemia é um desafio global que exige uma solução global. "A economia global continuará a sofrer enquanto grande parte do mundo não tiver acesso a uma vacina", afirmou. O que está em jogo não é apenas a saúde de milhares de milhões de pessoas nos países pobres, mas a recuperação económica global e a capacidade de conter uma doença que não respeita fronteiras.
Bemerkenswerte Zitate
A menos que algo mude drasticamente, milhares de milhões de pessoas em todo o mundo não receberão uma vacina segura e eficaz para a covid-19 durante os próximos anos— Anna Marriott, Oxfam
Os países ricos têm doses suficientes para vacinar toda a gente quase três vezes, enquanto os países pobres não têm o suficiente para chegar sequer aos trabalhadores da saúde e às pessoas de risco— Mohga Kamal Yanni, People's Vaccine Alliance