Zanone afirma que PF tem zero chance de descobrir quem pagou sua defesa de Adélio

Adélio Bispo vive isolado em cela por mais de três anos, saindo apenas duas horas diárias para banho de sol, sem visitas familiares, em condições descritas como análogas à tortura.
Destrói os celulares para proteger clientes, para que ninguém saiba
Zanone explica sua prática de destruir aparelhos regularmente, impossibilitando rastreamento de quem o contratou.
Mark

Por que Zanone destruir celulares é tão importante nessa história? Não é só um advogado sendo cuidadoso?

Mimi

Porque a pergunta central é: quem pagou pela defesa de Adélio? Um advogado criminalista experiente não aparece do nada em um caso de repercussão nacional sem ser contratado. Destruir celulares torna impossível rastrear essa contratação.

Luke

Mas ele diz que faz isso para proteger todos os clientes, não só Adélio. Não é uma admissão de culpa, é uma prática que ele alega ser rotineira.

Mimi

Verdade, mas o timing é suspeito. Ele destrói o aparelho que teria sido usado quando foi contratado, e depois admite isso abertamente em entrevista.

Mark

E a estratégia legal que ele escolheu — por que isso importa tanto?

Mimi

Porque não beneficia Adélio. Um Tribunal do Júri ofereceria pena determinada. A estratégia de Zanone resultou em isolamento indefinido. É como se estivesse trabalhando contra o cliente.

Luke

Mas Adélio assinou procuração. Ele concordou com a representação. A questão é: tinha capacidade mental para consentir?

Mimi

Exatamente. Zanone o abordou através de um ex-estagiário que mentiu sobre ter sido enviado pela mãe de Adélio — que já estava morta.

Mark

Adélio está realmente em condições de tortura?

Mimi

Segundo um perito que o visitou, sim. Isolado em cela, duas horas de sol por dia, sem visitas familiares há três anos. Noventa por cento dos presos no mesmo presídio tomam psicofármacos para suportar o isolamento.

Luke

Mas o outro advogado, Pedro Possa, disse ao UOL que Adélio está melhorando com medicação. Isso contradiz o relato do perito.

Mimi

Contradiz, sim. E é publicado em um site de grande audiência. Valber Rondon, o defensor público, vê a situação como violação grave de direitos humanos.

Mark

O que deveria ter acontecido?

Mimi

Se Adélio é inimputável, deveria estar em hospital psiquiátrico ou com a família recebendo atendimento médico. Não em presídio federal isolado indefinidamente.

Luke

E ninguém conseguiu mudar isso? Nem a Justiça?

Mimi

Tentaram. Chegou ao STF. Kássio Nunes Marques negou a liminar. A Segunda Turma confirmou por unanimidade em agosto. Adélio continua lá.

  • Zanone Manuel de Oliveira Júnior admite destruir celulares regularmente
  • Adélio Bispo isolado há mais de três anos em presídio federal, saindo apenas 2 horas diárias
  • Estratégia legal de Zanone resultou em medida de segurança por tempo indeterminado, não em pena determinada
  • STF confirmou por unanimidade em agosto a manutenção de Adélio no presídio federal
  • Adélio é o único inimputável cumprindo medida de segurança em presídio federal no Brasil

Zanone admite destruir celulares periodicamente, alegando proteção ao cliente, tornando impossível rastrear quem o contratou para defender Adélio. O advogado assumiu o caso de forma surpreendente e propôs estratégia que beneficiaria interesses políticos em vez de defender adequadamente seu cliente.

Zanone Manuel de Oliveira Júnior, advogado de Adélio Bispo, afirma que destrói celulares regularmente para proteger clientes, impossibilitando investigação sobre quem financiou sua defesa no caso da facada em Bolsonaro.

Zanone Manuel de Oliveira Júnior, o advogado que assumiu a defesa de Adélio Bispo de Oliveira — o homem acusado de desferir uma facada em Jair Bolsonaro em setembro de 2018 — tem uma resposta pronta para qualquer investigação sobre quem pagou por seus serviços. A Polícia Federal, disse ele em entrevista, tem zero chance de encontrar essa informação em seu celular. Ele destrói os aparelhos regularmente, explicou, para proteger seus clientes e manter sigilo sobre suas conversas.

A tática é conhecida. Zanone a descreveu comparando-se ao personagem Saul Goodman da série Breaking Bad — um advogado que opera nas sombras. Quando a PF apreendeu seu celular em dezembro de 2018, três meses após o episódio em Juiz de Fora, já não era o aparelho que ele usava quando teria sido contratado para defender Adélio. Joaquim de Carvalho, que entrevistou Zanone para um documentário sobre desinformação da extrema direita, registrou essa declaração. Durante a conversa, quando começou a fazer perguntas sobre detalhes do processo, Zanone recebeu uma ligação de uma assessora, desligou e não atendeu mais aos telefonemas do jornalista.

A entrada de Zanone no caso foi surpreendente. No dia da facada — ou suposta facada, como alguns questionam — ele agiu rápido. Como tem escritório em Belo Horizonte, pediu a um ex-estagiário com escritório em Barbacena que fosse até a sede da Polícia Federal em Juiz de Fora e assumisse o caso em seu nome. Esse advogado, Pedro Possa, depois contaria ao UOL que foram contratados por um líder religioso que teria assumido o caso por "amor ao próximo". Possa esteve com Adélio no mesmo dia e, segundo policiais que acompanharam o encontro, teria dito que havia sido enviado pela mãe de Adélio — que já havia falecido. Quando Adélio riu e apontou o erro, Possa tentou se corrigir, dizendo que era uma tia. Adélio respondeu que não tinha proximidade com nenhuma tia. Mesmo assim, assinou procuração no dia seguinte para Zanone, Possa e outros dois advogados.

O que torna o caso ainda mais complexo é a estratégia adotada por Zanone desde o início. Ele poderia ter defendido Adélio em um Tribunal do Júri por tentativa de homicídio — uma rota que ofereceria penas determinadas e deixaria clara a motivação do acusado. Em vez disso, propôs que o caso fosse enquadrado na Lei de Segurança Nacional então vigente, que Adélio fosse declarado inimputável por transtorno mental grave, e que fosse transferido para um presídio federal longe de Minas Gerais. Essa estratégia, vista nos bastidores da Justiça como contrária aos interesses do próprio cliente, resultou em uma medida de segurança por tempo indeterminado — na prática, uma prisão perpétua.

Adélio permanece isolado há mais de três anos em uma cela no presídio federal de Campo Grande, em regime de segurança máxima. Sai apenas duas horas por dia para banho de sol. Nunca recebeu visita da família. Há duas semanas, um sobrinho, Jeferson Ramos de Souza, mandou mensagem a Zanone tentando agendar uma visita. O advogado respondeu em áudio que providenciaria o deslocamento, mas não deu data — a mesma resposta vaga que, segundo parentes de Adélio, ele sempre oferece. Um perito que visitou Adélio no presídio, José de Ribamar de Araújo e Silva, relatou que o encontrou visivelmente insano, em contraste com seu estado de saúde em setembro de 2018, quando falou em audiência de custódia. Adélio reclamou muito da falta de contato com os irmãos e o sobrinho com quem se dava bem.

Se Adélio é de fato portador de transtorno mental grave — como a Justiça determinou — ele deveria estar em um hospital psiquiátrico ou, na ausência de vaga, junto de familiares recebendo atendimento médico adequado. O defensor público Valber Rondon, que acompanha o caso, vê a situação como grave violação de direitos humanos e recorreu à Justiça para que Adélio fosse transferido a um hospital psiquiátrico em Minas Gerais. Um juiz em Campo Grande determinou a transferência, mas o magistrado responsável pelo caso em Juiz de Fora negou. O conflito chegou ao Supremo Tribunal Federal. Kássio Nunes Marques negou liminar para a transferência, e em agosto a Segunda Turma do STF confirmou por unanimidade a decisão, mantendo Adélio no presídio federal.

Adélio é o único caso de inimputável cumprindo medida de segurança em presídio federal no Brasil. Noventa por cento dos presos ali tomam remédio psiquiátrico para suportar o isolamento e as regras de segurança máxima. Valber Rondon defende que o caso deveria ser denunciado a cortes internacionais de direitos humanos, da ONU ou OEA. Ele foi transferido para Brasília há cerca de um ano — transferência que, segundo ele, não tem relação com o caso Adélio. Seu sucessor em Campo Grande, efetivado há pouco tempo, ainda não tomou nenhuma providência. Enquanto isso, Zanone permanece formalmente como curador processual de Adélio, mas ainda dá as cartas no caso, como mostram suas respostas aos pedidos de visita da família. O episódio da facada em Juiz de Fora segue marcado por lacunas que apenas uma investigação independente poderia preencher — e talvez revelar quem realmente pagou pela defesa que mantém Adélio isolado.

Eu destruo os celulares para proteger meus clientes, para que ninguém saiba o que converso com eles
— Zanone Manuel de Oliveira Júnior
Ele disse que tem três irmãos, com quem se dava muito bem, e um sobrinho, com quem também se dá muito bem, mas que nunca foi visitado por eles, e ele sente falta desse contato
— José de Ribamar de Araújo e Silva, perito que visitou Adélio
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