Defesa de Azeredo Lopes acusa acusação de ser 'fantasiosa' no julgamento de Tancos

A acusação construiu uma história imaginando a conduta do ex-ministro
Argumento central da defesa de Azeredo Lopes no início do julgamento de Tancos.
Mark

Porque é que a defesa de Azeredo Lopes diz que a acusação é fantasiosa? O que significa isso exatamente?

Mimi

Significa que, na visão do advogado, a acusação não aponta factos específicos que incriminem Azeredo Lopes. Construiu uma história sobre o que ele teria feito, mas sem provas concretas ligadas a ele.

Luke

Mas ele está pronunciado por cinco crimes diferentes. A acusação deve ter alguma coisa. Ou é que o advogado está apenas a fazer o trabalho dele?

Mimi

Provavelmente ambas as coisas. O advogado está a contestar, mas também é verdade que em processos complexos como este, com 23 arguidos, é possível que alguns estejam mais diretamente ligados aos factos do que outros.

Mark

E quanto a João Paulino? Ele admitiu o furto?

Mimi

Não exatamente. O seu advogado diz que ele está arrependido e que entregou o material que faltava. Mas também diz que Paulino foi enganado e que lhe foi prometido que não seria processado.

Luke

Espera. Se lhe foi prometido que não seria processado, como é que está agora a ser julgado? Quem fez essa promessa?

Mimi

O advogado diz que foi um acordo com o Estado e com a PJ. Mas claramente não foi cumprido, ou pelo menos é isso que a defesa alega.

Mark

Isso parece uma questão importante. Se houve um acordo, porque é que não foi honrado?

Luke

Exatamente. E isso é uma coisa que o tribunal vai ter de determinar. Mas por enquanto, é apenas a alegação da defesa. Não sabemos se o acordo existiu realmente ou em que termos.

Mimi

A defesa também questiona as competências investigativas. Dizem que a decisão de dar a investigação à PJ civil foi ilegal.

Mark

Porque é que isso importa?

Mimi

Porque se a investigação foi conduzida de forma ilegal, tudo o que dela resultou pode ser questionado. É uma forma de atacar a base do processo inteiro.

  • A defesa de Azeredo Lopes abriu o julgamento com uma ofensiva direta: a acusação é fantasiosa, sem factos concretos imputáveis ao ex-ministro, e serve interesses políticos.
  • Com 23 arguidos em tribunal — incluindo ex-responsáveis da PJM, elementos da GNR e o alegado mentor do furto —, o caso expõe fraturas profundas entre forças de segurança civis e militares.
  • A promessa feita a João Paulino de que não seria criminalmente responsabilizado em troca da sua cooperação não foi cumprida, gerando confronto aceso entre advogados logo nas primeiras horas.
  • A atribuição da investigação à PJ civil é contestada como ilegal pela defesa do ex-diretor da PJM, adicionando uma camada de disputa institucional ao já complexo processo.
  • O julgamento está apenas no início, mas as defesas já sinalizaram que vão questionar não só os factos, mas os próprios alicerces do processo que os trouxe a tribunal.

Em Santarém, num novembro que trouxe à superfície as tensões ainda vivas de 2017, o julgamento do caso de Tancos abriu com as defesas a contestar não apenas os factos da acusação, mas a própria legitimidade do processo. O ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, um dos 23 arguidos, viu o seu advogado denunciar uma acusação descrita como fantasiosa e politicamente motivada — um reflexo de como os grandes escândalos institucionais raramente se resolvem apenas nos tribunais, mas também na memória coletiva e na confiança nas instituições.

O julgamento do caso de Tancos abriu numa segunda-feira de novembro em Santarém com uma declaração de guerra jurídica. O advogado Germano Marques, representando o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, foi direto nas disposições introdutórias: a acusação era fantasiosa, carecia de factos específicos contra o seu cliente e tinha motivações políticas. Azeredo Lopes estava pronunciado por denegação de justiça, prevaricação, abuso de poder e outros crimes relacionados com a alegada encenação da recuperação de armamento furtado dos paióis militares em 2017.

O caso envolve 23 arguidos. João Paulino, apontado como mentor do furto ocorrido em junho de 2017, responde por terrorismo, tráfico de armas e associação criminosa. Os restantes, incluindo Azeredo Lopes e elementos da PJM e da GNR, estão acusados de crimes ligados à operação de recuperação do material em outubro do mesmo ano — uma operação que o Ministério Público descreve como encenada.

Nas mesmas sessões iniciais, o advogado do major Vasco Brazão admitiu que o seu cliente havia ocultado informações à PJ civil, mas negou qualquer acordo com Paulino. Ricardo Sá Fernandes foi mais longe, afirmando que a credibilidade de Paulino era nula. A afirmação gerou confronto imediato com o advogado de Paulino, Melo Alves, que defendeu o seu cliente como alguém arrependido, que entregou o material em falta e que havia sido enganado pelo Estado: foi-lhe prometida imunidade criminal em troca de cooperação, promessa que nunca foi cumprida.

Outra frente de contestação centrou-se nas competências investigativas. A defesa do ex-diretor da PJM Luís Vieira questionou a decisão de atribuir a investigação à PJ civil, descrevendo-a como ilegal e ignorando alertas que o coronel havia feito na altura. O julgamento estava apenas a começar, mas as defesas já deixaram claro que o combate seria travado em múltiplas frentes — nos factos, nos processos e na própria arquitetura institucional do caso.

O julgamento do caso de Tancos começou numa segunda-feira de novembro em Santarém, e logo nas primeiras horas a defesa do ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes disparou uma acusação contundente: a acusação contra seu cliente era fantasiosa, desprovida de factos concretos e um mau exemplo de processo judicial. O advogado Germano Marques, falando nas disposições introdutórias, foi direto: praticamente nenhum facto na acusação era imputado especificamente a Azeredo Lopes. A defesa argumentava que a acusação havia construído uma narrativa imaginária sobre a conduta do ex-ministro, e que o processo tinha motivações e vantagens políticas que contestava.

Azeredo Lopes estava pronunciado por denegação de justiça, prevaricação, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder e denegação de justiça. Mas para a sua defesa, os factos simplesmente não existiam. O que estava em jogo era um furto de armamento dos paióis militares em junho de 2017 e a alegada encenação na recuperação desse material em outubro do mesmo ano, numa operação que envolveu a Polícia Judiciária Militar e elementos da GNR de Loulé na região da Chamusca.

O julgamento reunia 23 arguidos no total. Entre eles estava João Paulino, apontado pelo Ministério Público como o mentor do furto. Paulino estava acusado de associação criminosa, tráfico e mediação de armas e terrorismo. Os restantes 14 arguidos, incluindo Azeredo Lopes e dois elementos da PJM, respondiam pela encenação que teria servido de base à recuperação do equipamento. A lista de crimes era longa: terrorismo, associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, abuso de poder, recetação e detenção de arma proibida.

Nas mesmas disposições introdutórias, o advogado do major Vasco Brazão, da Polícia Judiciária Militar, admitiu que o seu cliente havia errado ao ocultar informações da investigação à PJ civil. Brazão estava em tribunal para assumir esse erro, mas a defesa negava que tivesse feito um acordo com João Paulino para ter conhecimento do local onde as armas foram depositadas. O advogado Ricardo Sá Fernandes foi mais longe: afirmou que não acreditava que Paulino tivesse feito um acordo com as autoridades policiais, sugerindo que havia sido enganado. A credibilidade de Paulino era, na sua visão, zero ou próxima de zero.

Esta afirmação provocou uma reação imediata. O advogado de João Paulino, Melo Alves, e Sá Fernandes trocaram palavras com voz exaltada. Para Melo Alves, o seu cliente estava arrependido do furto e havia provado isso entregando à PJ o material que faltava, apesar de ser facilmente vendável no mercado negro. Paulino havia feito um acordo com o Estado e com a PJ, disse o advogado, tendo-lhe sido prometido que não seria sujeito a qualquer procedimento criminal. Essa promessa não havia sido cumprida. Melo Alves argumentava que o seu cliente havia contribuído para a descoberta da verdade, abandonado a atividade criminosa e auxiliado as autoridades na recolha de provas.

Outra linha de defesa questionava as competências investigativas. Manuel Serrador, um dos defensores do ex-diretor da PJM Luís Vieira, argumentou sobre a decisão da ex-procuradora Joana Marques Vidal de atribuir a investigação do furto à PJ civil e ao Ministério Público. Essa decisão, na visão da defesa, havia criado um problema que o coronel havia alertado. A atribuição da investigação às autoridades civis era, para o advogado e para Vieira, uma desconsideração grave e ilegal.

O caso havia começado quando o Exército divulgou o furto em 29 de junho de 2017, indicando que havia ocorrido no dia anterior. A alegada recuperação do material furtado aconteceu meses depois, em outubro de 2017. Cerca de duas dezenas de arguidos manifestaram intenção de depor em tribunal. O julgamento estava apenas a começar, e as defesas já haviam deixado claro que contestariam não apenas os factos da acusação, mas também os processos que levaram a eles.

Praticamente não há factos na acusação que sejam imputados ao ex-ministro da Defesa. Toda a acusação, tal como a pronuncia são um mau exemplo.
— Germano Marques, advogado de Azeredo Lopes
Fez um acordo com o Estado e com a PJ tendo-lhe sido prometido que não seria sujeito a qualquer procedimento criminal, o que não aconteceu.
— Melo Alves, advogado de João Paulino
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