China presidirá o Brics em 2026 e busca usar o bloco como plataforma contra políticas ocidentais sem confronto direto com EUA. Cúpula apoiou candidaturas do Irã e Etiópia à OMC e criou mecanismos comerciais concretos, mas evitou pronunciamentos sobre Ucrânia.
Xi usa cúpula do Brics para avançar agenda chinesa e preparar negociações com Trump
O bloco funciona menos como contrapeso e mais como palco para negociações bilaterais
Por que Xi voltou ao Brics agora, depois de ter faltado no ano passado? Parece uma mudança de estratégia.
Exatamente. Ele estava preparando o terreno para negociações diretas com Trump. O Brics serviu como uma plataforma para demonstrar força — ele podia criticar a política americana sem parecer isolado, cercado por outros países igualmente frustrados.
Mas o bloco realmente funciona como um contrapeso? A declaração final não mencionou Ucrânia, não nomeou os EUA, não fez quase nada concreto além de criar alguns mecanismos comerciais.
Verdade, mas isso é exatamente o ponto. O Brics não é uma aliança coesa. É um grupo de economias que compartilham irritação com Washington, mas não têm vontade política de confronto direto.
E quanto aos minerais críticos? Esse parágrafo sobre cadeias diversificadas parece importante.
Parece, mas provavelmente não vai durar. A China refina quase todas as terras raras do mundo. Se Xi conseguir uma licença de exportação de Trump em Washington, aquele compromisso do Brics vira decoração.
Espera — você está dizendo que a China pode simplesmente ignorar um compromisso que acabou de assinar com outros nove países?
Não ignorar, mas contornar. Se conseguir um acordo bilateral com os EUA, terá resolvido seu problema real. O Brics fica com a declaração, mas a prática é outra.
Então o bloco é mais teatro que substância?
Não exatamente teatro. Eles fizeram coisas concretas — apoiaram o Irã na OMC, criaram mecanismos de financiamento. Mas a questão é: quem realmente se beneficia? A China parece estar usando o bloco para seus próprios fins.
Sim, e é por isso que ela vai presidir o grupo no próximo ano. Quer transformá-lo em uma ferramenta contra a hipocrisia ocidental, mas sem parecer antiamericana. É uma estratégia sofisticada.
Der Puls
- Xi Jinping discursou na cúpula do Brics em Nova Déli criticando a política americana de "pátio pequeno, cercas altas"
- China presidirá o Brics em 2026 e busca transformá-lo em ferramenta contra políticas ocidentais
- Cúpula apoiou candidaturas do Irã e Etiópia à OMC e criou mecanismos comerciais concretos
- Trump busca licenças de exportação de terras raras em negociação com Xi em Washington na semana seguinte
- China refina quase todas as terras raras do mundo e boa parte do lítio e cobalto
China presidirá o Brics em 2026 e busca usar o bloco como plataforma contra políticas ocidentais sem confronto direto com EUA. Cúpula apoiou candidaturas do Irã e Etiópia à OMC e criou mecanismos comerciais concretos, mas evitou pronunciamentos sobre Ucrânia.
Xi Jinping discursou na cúpula do Brics em Nova Déli criticando a política americana de restrição tecnológica, preparando terreno para negociações com Trump sobre minerais críticos e tarifas comerciais.
Xi Jinping voltou à cúpula do Brics em Nova Déli no fim de semana depois de uma ausência no ano anterior, e seu discurso carregava um tom de confronto direto. Dirigindo-se a um grupo que a China havia moldado ao longo dos anos para servir seus interesses geopolíticos, ele atacou a estratégia americana de "pátio pequeno, cercas altas" — a política de restringir exportações de tecnologias sensíveis sem desmantelar o resto do comércio. Segundo Xi, essa abordagem não apenas falharia em conter o desenvolvimento chinês como prejudicaria quem a implementasse. Era uma mensagem clara dirigida aos Estados Unidos, ainda que sem nomeá-los diretamente.
O discurso servia a um propósito duplo. Na superfície, demonstrava força dentro do bloco. Mas sua verdadeira função era preparar o terreno para um encontro que Xi teria com Trump em Washington uma semana depois. A cúpula do Brics, sediada na Índia, funcionou essencialmente como um palco para a agenda chinesa — um encontro de economias frustradas com os americanos, mas cautelosas demais para mencionar Washington ou seu presidente abertamente. A China assumirá a presidência do grupo no próximo ano e pretende transformá-lo em uma ferramenta contra o que chama de hipocrisia ocidental, sem precisar se posicionar explicitamente como antiamericana.
Além dos discursos, o bloco avançou em iniciativas concretas que raramente ganham destaque. O grupo apoiou as candidaturas do Irã e da Etiópia à Organização Mundial do Comércio, um movimento particularmente significativo no caso iraniano, já que a instituição representa exatamente aquilo que a arquitetura de sanções americanas tenta contornar. O Brics também endossou um mecanismo de antecipação de recebíveis para pequenas exportadoras, uma bolsa de grãos, e uma rede de saúde mental em Bengaluru. Essas medidas, embora modestas, representam um esforço para construir estruturas paralelas às instituições ocidentais.
A declaração final do bloco, porém, revelou suas limitações e contradições. Não incluiu uma única linha sobre a guerra na Ucrânia. Criticou o protecionismo sem nomear quem o pratica. E encontrou espaço para registrar que nenhuma mulher jamais foi eleita secretária-geral da ONU, sem fazer qualquer cobrança ou promessa sobre o tema. De seus 140 parágrafos, apenas um cobrava algo do próprio bloco: um parágrafo sobre minerais críticos pedindo cadeias diversificadas e resilientes, enquanto reafirmava o direito soberano de cada país sobre seus depósitos. Essa linguagem permite críticas aos americanos e suas tarifas, mas na prática aponta para a China, que refina quase todas as terras raras do mundo e boa parte do lítio e do cobalto.
O analista que acompanha essas negociações aposta que esse parágrafo sobre minerais críticos se tornará letra morta já na quinta-feira, 24 de setembro, quando Xi for recebido na Casa Branca. Segundo a Bloomberg, Washington adiou a divulgação de um relatório sobre excesso de capacidade produtiva chinesa que poderia recomendar uma tarifa adicional de 7,5% sobre produtos chineses. Trump, por sua vez, busca sair da mesa com licenças de exportação de terras raras — assim como saiu de Pequim em maio com uma promessa de compras agrícolas. Se esse acordo se concretizar, a China terá conseguido sozinha, apenas doze dias depois de assinar um compromisso multilateral de diversificar essas cadeias, aquilo que os outros nove membros do Brics continuarão pedindo em futuras declarações. O bloco, nesse cenário, funcionaria menos como um contrapeso geopolítico e mais como um palco onde a China negocia bilateralmente com Washington enquanto mantém a aparência de liderança coletiva.
Bemerkenswerte Zitate
A política de pátio pequeno, cercas altas não só não conteria o desenvolvimento da China como encurrala quem a constrói— Xi Jinping, na cúpula do Brics
Washington adiou a divulgação de um relatório sobre excesso de capacidade produtiva que poderia recomendar tarifa adicional de 7,5% sobre produtos chineses— Bloomberg, citando fontes de negociação