Há décadas, especialistas reconhecem que a violência doméstica não é um evento isolado, mas um ciclo — descrito pela psicóloga Lenore Walker — que alterna entre tensão crescente, explosão e um período de falso arrependimento chamado 'lua de mel'. O relato da dentista Giullia Falcão, que viveu anos sob controle e agressões do ex-marido, ilumina uma dinâmica que aprisiona milhões de mulheres brasileiras não por fraqueza, mas pela própria arquitetura do ciclo, que se intensifica com o tempo e confunde terror com esperança. Compreender esse padrão é o primeiro passo para desfazer os mitos que aind
Violência doméstica funciona em ciclos de tensão, agressão e falso arrependimento
O ciclo se torna cada vez mais recorrente e menos espaçado
Por que uma mulher que sofre violência não simplesmente sai do relacionamento?
Porque ela não está vivendo uma série de eventos isolados. Ela está presa em um ciclo que alterna entre terror e esperança. Depois de cada agressão, vem o arrependimento, as promessas, os presentes. Ela acredita que desta vez será diferente.
Mas ela sabe que não será diferente, certo?
Não necessariamente. O ciclo é psicologicamente devastador porque a esperança é real durante a fase de "lua de mel". E além disso, há fatores práticos: dependência financeira, isolamento, medo de que a situação piore se ela tentar sair.
Como o ciclo muda com o tempo?
Fica mais apertado. Os períodos de paz diminuem. As agressões ficam mais frequentes e mais violentas. É quando os especialistas dizem que a mulher está em risco de vida.
E se a violência não for física? Se for só palavras, controle?
Continua sendo violência. Continua sendo parte do ciclo. O controle, as humilhações, as ameaças — tudo isso estabelece a dinâmica de poder que permite que a violência física aconteça depois.
Então reconhecer o ciclo muda alguma coisa?
Muda tudo. Ajuda a combater a ideia de que a vítima "gosta de apanhar". Ajuda a identificar os sinais antes que se tornem mais graves. E ajuda a sociedade a entender que a responsabilidade é do agressor, não da vítima.
Le Pouls
- O ciclo se repete e se aprofunda: com o tempo, os intervalos de paz encurtam e os episódios de agressão se tornam mais frequentes e mais violentos, colocando a vida da mulher em risco crescente.
- A 'lua de mel' é a armadilha mais eficaz do ciclo — flores, lágrimas e promessas de mudança reacendem a esperança da vítima e a mantêm presa em um relacionamento que ela sabe ser destrutivo.
- A violência raramente começa com socos: controle financeiro, isolamento, humilhações e ameaças constroem a dinâmica de poder que torna a agressão física possível — e a Lei Maria da Penha reconhece todas essas formas.
- Romper o ciclo é difícil não por escolha, mas por dependência financeira, isolamento social, filhos em comum e a alternância entre terror e esperança que o próprio ciclo produz — a responsabilidade é inteiramente do agressor.
Há décadas, especialistas reconhecem que a violência doméstica não é um evento isolado, mas um ciclo — descrito pela psicóloga Lenore Walker — que alterna entre tensão crescente, explosão e um período de falso arrependimento chamado 'lua de mel'. O relato da dentista Giullia Falcão, que viveu anos sob controle e agressões do ex-marido, ilumina uma dinâmica que aprisiona milhões de mulheres brasileiras não por fraqueza, mas pela própria arquitetura do ciclo, que se intensifica com o tempo e confunde terror com esperança. Compreender esse padrão é o primeiro passo para desfazer os mitos que ainda cercam as vítimas e para reconhecer que a violência começa muito antes do primeiro golpe físico.
A dentista Giullia Falcão, de 27 anos, viveu anos sob o controle do ex-marido, o empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos. Seu relato — agressões físicas dentro de um carro, ameaças com um taco de beisebol, violência sexual, impedimento de trabalhar e isolamento — ilustra um padrão que especialistas reconhecem há décadas: a violência doméstica segue um ciclo previsível, descrito pela psicóloga americana Lenore Walker a partir de estudos com mulheres em situação de violência.
O ciclo tem três fases. Na primeira, a tensão cresce: o agressor controla, insulta, humilha e ameaça, enquanto a vítima tenta evitar conflitos para não provocar uma reação mais violenta. Na segunda fase, a tensão explode em agressão — física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial. Na terceira, conhecida como 'lua de mel', o agressor pede desculpas, oferece presentes e promete mudar. Giullia descreveu esse momento: quando tentava se afastar, o ex-marido a perseguia, ligava repetidamente, mandava flores e chorava. A aparente mudança faz a vítima acreditar que desta vez será diferente — mas a tensão sempre volta, e o ciclo recomeça.
O que torna esse padrão especialmente perigoso é sua progressão. Com o tempo, os períodos de tranquilidade ficam mais curtos e os episódios de violência, mais intensos. Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento, alerta: quando essa recorrência aumenta, a mulher está em risco de vida.
Entender o ciclo desfaz um mito persistente — o de que a vítima 'gosta de apanhar'. Amanda Sadalla, cofundadora da ONG Serenas, é direta: ninguém gosta de sofrer violência. O que prende as mulheres é uma combinação de dependência financeira, isolamento, filhos e a esperança renovada a cada fase de arrependimento. A responsabilidade é inteiramente do agressor.
Reconhecer o ciclo também significa entender que a violência começa antes do primeiro golpe físico — no controle, nas humilhações, nas ameaças. A Lei Maria da Penha já reconhece violência física, psicológica, sexual, moral, patrimonial e, mais recentemente, a violência vicária, quando o agressor usa filhos, parentes ou animais para atingir a mulher. Identificar esses sinais é essencial para que familiares, amigos e a sociedade possam oferecer apoio antes que o ciclo se torne fatal.
A dentista Giullia Falcão, de 27 anos, viveu anos sob o controle do ex-marido, o empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos. Seu relato ilustra um padrão que especialistas reconhecem há décadas: a violência doméstica não acontece de forma aleatória, mas segue um ciclo previsível de tensão, explosão e falso arrependimento — um ciclo que se repete, se intensifica e prende suas vítimas em relacionamentos destrutivos por meses ou até anos.
Este modelo cíclico foi descrito pela psicóloga americana Lenore Walker a partir de seus estudos com mulheres que sofreram violência doméstica. A primeira fase começa com o aumento da tensão. O agressor não necessariamente agride fisicamente neste momento. Em vez disso, ele controla, insulta, humilha, ameaça. A vítima, percebendo os sinais, passa a tentar evitar conflitos, controlando suas próprias ações para não provocar uma reação mais violenta. A tensão cresce progressivamente até o ponto de ruptura.
Então vem a explosão — a segunda fase. A tensão acumulada se transforma em violência. Pode ser física: socos, tapas, uso de objetos como armas. Pode ser psicológica, sexual, moral ou patrimonial. No caso de Giullia, o ex-marido a agrediu fisicamente dentro do carro quando voltavam de um jantar, depois a ameaçou com um taco de beisebol em casa, atingindo sua mão quando ela tentou se proteger. Ela também havia denunciado uma agressão anterior — um tapa no rosto. Mas a violência que sofreu ia além do físico: ela relata ter sido forçada a manter relações sexuais, ter sido impedida de trabalhar, ter sofrido controle financeiro e isolamento.
Depois da explosão vem a terceira fase, conhecida como "lua de mel". O agressor demonstra arrependimento, pede desculpas, promete mudar. Oferece flores, presentes, declarações de amor. Comporta-se de forma carinhosa e atenta. Giullia descreveu essa dinâmica: quando tentava se afastar ou pedir divórcio, o ex-marido a perseguia, ligava repetidamente, ia até sua casa, mandava flores e presentes, chorava. A aparente mudança de comportamento faz a vítima acreditar que desta vez será diferente, que o agressor realmente vai mudar. Mas quando a tensão volta — e sempre volta — o ciclo recomeça.
O que torna este padrão tão perigoso é que ele não permanece estático. Com o tempo, os intervalos entre os episódios de violência diminuem. Os períodos de tranquilidade ficam mais curtos. Os episódios de agressão se tornam mais frequentes e mais intensos. Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento, uma organização que acolhe mulheres vítimas de violência, explica que quando essa recorrência diminui, a mulher está em risco de vida. O ciclo não é uma sequência de eventos isolados — é uma dinâmica progressiva de controle e agressão que se aprofunda.
Este padrão ajuda a explicar por que romper uma relação violenta é tão difícil. Não é porque a vítima "gosta de apanhar", como um mito persistente sugere. Muitas vezes ela depende financeiramente do agressor. Ela pode estar isolada de sua rede de apoio. Ela pode ter filhos. E crucialmente, ela vive em um ciclo que alterna entre períodos de terror e períodos de esperança — esperança de que desta vez será diferente, de que o arrependimento é real. Amanda Sadalla, cofundadora da ONG Serenas, que trabalha na prevenção de violências baseadas no gênero, é clara: ninguém gosta de sofrer violência. A responsabilidade é inteiramente do agressor.
Entender o ciclo é importante porque ajuda a identificar que a violência não começa necessariamente com um soco. Ela começa com controle, humilhações, ameaças, isolamento — comportamentos que podem parecer menos graves mas que estabelecem a dinâmica de poder que permite que a violência física aconteça depois. A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência contra a mulher: física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. Mais recentemente, também passou a reconhecer a violência vicária, que ocorre quando o agressor usa filhos, parentes ou animais para atingir a mulher. Reconhecer essas formas é essencial para que familiares, amigos, vizinhos e a sociedade possam identificar os sinais e oferecer apoio às vítimas.
Citations marquantes
O ciclo da violência vai se tornando cada vez mais recorrente e menos espaçado. E o que os dados apontam é que, quando essa recorrência diminui, essa mulher está em risco de vida— Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento
Ninguém gosta de apanhar. A gente precisa quebrar esse mito. Ninguém gosta de sofrer violência— Amanda Sadalla, cofundadora da ONG Serenas