No plenário da Câmara Municipal de Curitiba, um debate sobre políticas de assistência social para pessoas em situação de rua revelou uma fratura mais profunda: a vereadora Tathiana Guzella (PL) respondeu à colega Vanda de Assis (PT) sugerindo que ela, por ser nordestina, deveria retornar ao Ceará. O episódio transforma uma discussão sobre vulnerabilidade social em um espelho das tensões sobre pertencimento e identidade regional que atravessam a política brasileira. Quando o argumento político cede lugar à origem geográfica como arma, o que estava em jogo — a vida de quem vive nas ruas — fica à
Vereadora do PL é acusada de xenofobia ao sugerir que colega nordestina volte ao Ceará
Veio encher o saco aqui — e a questão de quem pertence
Por que essa frase específica — "volte para o Ceará" — é considerada xenófoba e não apenas uma crítica política comum?
Porque não é sobre discordar da política de alguém. É sobre questionar se a pessoa tem direito de estar ali. Quando você diz a alguém que deveria voltar para onde nasceu, está dizendo que ela não pertence aqui. É uma forma de exclusão que usa a origem como arma.
Mas Vanda de Assis estava fazendo crítica política também, não estava?
Estava, sim. Ela criticava as políticas do PL. Mas ela não disse que Bettega deveria sair de Curitiba por ser de outro lugar. Ela discordava das ideias dele, não da legitimidade dele estar ali.
Como isso afeta as pessoas em situação de rua, que eram o assunto original do debate?
Elas desaparecem do debate. O que era uma discussão sobre políticas de assistência vira uma briga pessoal sobre pertencimento regional. As pessoas que essas políticas deveriam proteger viram apenas cenário para disputa política.
Há precedentes disso em Curitiba ou é um episódio isolado?
Não sei dizer se é isolado, mas reflete algo maior na política brasileira: a ideia de que migrantes, especialmente nordestinos, são invasores que "encheram o saco" nas cidades do Sul. É um preconceito antigo que continua vivo.
O que pode acontecer agora?
Pode haver investigação sobre a conduta de Guzella na Câmara. Mas o dano já está feito — a conversa mudou de políticas sociais para identidade regional, e as pessoas vulneráveis que deveriam ser o centro da discussão ficaram para trás.
The Pulse
- Uma sessão ordinária sobre cadastro de pessoas em situação de rua escalou para um confronto pessoal quando Guzella disse à colega petista: 'Por que a senhora não volta para o Ceará? Veio encher o saco aqui'.
- A frase ecoou no plenário como um ataque xenófobo, expondo a contradição de debater discriminação contra populações vulneráveis enquanto se pratica discriminação regional.
- Assis havia defendido que pessoas em situação de rua são vítimas de racismo e higienismo — e a resposta de Guzella, ironicamente, reproduziu a lógica de exclusão que o debate pretendia combater.
- A acusação de xenofobia pode desencadear investigações sobre a conduta de Guzella na Câmara, transformando o episódio em um caso político de repercussão além de Curitiba.
- Para as pessoas em situação de rua que as políticas debatidas afetariam diretamente, o resultado imediato é que suas necessidades foram eclipsadas por uma disputa sobre quem tem direito de estar onde.
No plenário da Câmara Municipal de Curitiba, um debate sobre políticas de assistência social para pessoas em situação de rua revelou uma fratura mais profunda: a vereadora Tathiana Guzella (PL) respondeu à colega Vanda de Assis (PT) sugerindo que ela, por ser nordestina, deveria retornar ao Ceará. O episódio transforma uma discussão sobre vulnerabilidade social em um espelho das tensões sobre pertencimento e identidade regional que atravessam a política brasileira. Quando o argumento político cede lugar à origem geográfica como arma, o que estava em jogo — a vida de quem vive nas ruas — fica à margem.
A sessão desta quarta-feira na Câmara Municipal de Curitiba começou com um tema urgente: um projeto de lei para criar um cadastro de pessoas em situação de rua. O que ninguém previa era que o debate terminaria em acusação de xenofobia.
A vereadora Vanda de Assis (PT) tomou a palavra para defender políticas sociais do seu partido, questionando por que o autor do projeto, João Bettega (PL), havia mencionado que 80% das pessoas em situação de rua recebem Bolsa Família como se fosse uma crítica. Para Assis, o programa existe exatamente para isso. Ela foi além: afirmou que essa população, vítima de racismo e higienismo, naturalmente se identifica com partidos que criam políticas de proteção social.
A resposta da vereadora Tathiana Guzella (PL) foi o que dominou o plenário. 'Se a senhora gosta tanto de elogiar o PT, por que a senhora não volta para o Ceará? A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui', disse Guzella. A frase foi imediatamente interpretada como um ataque xenófobo — a sugestão de que uma parlamentar nordestina não pertence a Curitiba.
O episódio carrega uma ironia pesada: no momento em que se debatia a exclusão de pessoas vulneráveis, uma forma de exclusão regional foi usada como argumento político. O pertencimento — quem tem direito de estar em um lugar, quem pode falar por ele — tornou-se a verdadeira disputa, sobrepondo-se às necessidades concretas de quem vive nas ruas.
Agora, a acusação de xenofobia pode gerar desdobramentos formais na Câmara. Mas o episódio já revelou algo que vai além da política local: em Curitiba, como em tantas cidades brasileiras, a origem geográfica ainda é usada como moeda de troca — e as pessoas mais vulneráveis pagam o preço quando o debate sobre elas se transforma em arena de identidade.
A sessão da Câmara Municipal de Curitiba desta quarta-feira começou como tantas outras — parlamentares debatendo um projeto de lei para criar um cadastro de pessoas em situação de rua. O que ninguém esperava era que a discussão sobre políticas de assistência social terminaria em acusação de xenofobia.
Tudo começou quando Vanda de Assis, vereadora pelo PT, tomou a palavra para defender a atuação de seu partido na criação de programas voltados à população vulnerável. Ela respondeu a João Bettega, do PL, autor do projeto, questionando por que ele havia comentado que 80% das pessoas em situação de rua recebem Bolsa Família — como se fosse uma surpresa ou uma crítica. Para Assis, o programa existe justamente para isso: atender quem mais precisa. Ela foi além e afirmou que pessoas em situação de rua, vítimas de racismo e higienismo, naturalmente votariam no PT porque é o partido que cria políticas sociais para protegê-las. Sua fala foi direta, política, mas dentro do escopo do debate.
Tathiana Guzella, vereadora pelo PL, respondeu com uma frase que rapidamente se tornou o centro da controvérsia. "Se a senhora gosta tanto de proteger, de elogiar o PT e os partidos ligados ao PT, por que a senhora não volta para o Ceará? Por que a senhora veio para cá? A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui", disse Guzella. A frase ecoou no plenário e imediatamente foi interpretada como um ataque xenófobo — uma sugestão de que Assis, por ser nordestina, deveria voltar para sua região de origem.
O que torna o episódio particularmente significativo é o contexto em que ocorreu. O debate era sobre pessoas em situação de rua, uma população que enfrenta vulnerabilidades múltiplas: falta de moradia, acesso limitado a políticas públicas, discriminação. Assis havia argumentado que essas pessoas são vítimas de racismo e higienismo — práticas discriminatórias que as excluem da sociedade. Guzella respondeu com uma forma de discriminação regional, sugerindo que alguém nascido em outro estado não pertence a Curitiba e deveria sair.
A acusação de xenofobia contra Guzella reflete uma tensão mais ampla na política brasileira: a questão de quem pertence a um lugar, quem tem direito a estar ali, e como essas noções de pertencimento são usadas como armas políticas. Quando um parlamentar diz a outro que deveria voltar para seu estado de origem, está fazendo mais do que discordar politicamente — está questionando a legitimidade da pessoa estar ali.
O episódio também expõe como debates sobre políticas sociais rapidamente se transformam em confrontos pessoais. O que começou como uma discussão sobre cadastros e programas de assistência terminou em uma troca de acusações que toca em questões de identidade regional e pertencimento. Para as pessoas em situação de rua que essas políticas afetam, o resultado é que o foco saiu de suas necessidades e entrou em uma disputa política que as usa como pano de fundo.
Agora a questão é o que acontece depois. A acusação de xenofobia pode gerar desdobramentos políticos na Câmara Municipal, possivelmente investigações sobre a conduta de Guzella. Mas o episódio já deixou claro algo que transcende a política local: em Curitiba, como em muitas cidades brasileiras, a questão de quem pertence e quem não pertence continua sendo usada como moeda de troca em debates públicos.
Notable Quotes
Se a senhora gosta tanto de proteger, de elogiar o PT, por que a senhora não volta para o Ceará? Veio encher o saco aqui— Tathiana Guzella (PL)
Como uma pessoa em situação de rua, vítima de pessoas racistas e higienistas, vai votar no seu extermínio? Tem que votar no PT mesmo— Vanda de Assis (PT)