OMS declarou emergência de saúde global para varíola dos macacos durante Parada do Orgulho Gay em Berlim, afetando predominantemente homens que fazem sexo com homens. Estudo do New England Journal of Medicine mostra 98% dos casos em HSH, mas especialistas alertam contra rotular como IST, pois preservativos podem não oferecer proteção adequada.
Varíola dos macacos: OMS declara emergência global, mas transmissão ainda é incerta
Até mesmo carinhos entre dois indivíduos despidos já são um grande risco
Por que a OMS declarou emergência global justamente quando estava acontecendo a Parada do Orgulho em Berlim? Parece uma coincidência estranha.
Não foi coincidência. A parada reuniu mais de meio milhão de pessoas em contato próximo — exatamente o tipo de evento que preocupa epidemiologistas quando um vírus se concentra em uma comunidade específica. A OMS estava respondendo aos números globais, mas o timing foi infeliz.
Os cientistas sabem como o vírus se transmite ou não?
Sabem parcialmente. Noventa e cinco por cento dos casos ocorrem durante atividade sexual, mas ninguém consegue provar que o sêmen é infeccioso. Pode ser contato pele com pele, gotículas de saliva, até objetos contaminados. É essa incerteza que torna tudo mais complicado.
Então por que os especialistas não querem chamar de infecção sexualmente transmissível?
Porque as pessoas associam IST com preservativos como proteção. Se alguém usar camisinha e depois se abraçar ou beijar alguém com varíola dos macacos, ainda pode se infectar. Rotular errado pode dar falsa segurança.
A vacinação pode parar o surto?
Teoricamente sim. Se vacinarem metade dos homens que fazem sexo com homens, conseguem imunidade de rebanho. Mas depende de as pessoas aceitarem a vacina — e a estigmatização pode afastar exatamente quem mais precisa dela.
Qual é o maior risco agora?
Que a doença se torne endêmica entre grupos de alto risco. Não porque o vírus é invencível, mas porque o medo e a vergonha podem impedir as pessoas de se vacinar, procurar teste ou avisar seus contatos.
El Pulso
- OMS declarou emergência global em 28 de julho de 2022 durante Parada do Orgulho em Berlim
- 98% dos casos detectados ocorreram em homens que fazem sexo com homens
- Mais de 16 mil casos confirmados em 2022 com cinco mortes na África
- Brasil registrou quase mil casos até 27 de julho, principalmente em São Paulo
- 95% dos casos envolvem transmissão durante atividade sexual, mas sem comprovação de transmissão por fluidos seminais
OMS declarou emergência de saúde global para varíola dos macacos durante Parada do Orgulho Gay em Berlim, afetando predominantemente homens que fazem sexo com homens. Estudo do New England Journal of Medicine mostra 98% dos casos em HSH, mas especialistas alertam contra rotular como IST, pois preservativos podem não oferecer proteção adequada.
A OMS declarou a varíola dos macacos emergência global, mas cientistas ainda desconhecem completamente seu mecanismo de transmissão. Pesquisas indicam que 95% dos casos ocorrem durante atividade sexual, embora não haja comprovação de transmissão por fluidos seminais.
No final da tarde de 28 de julho de 2022, enquanto mais de meio milhão de pessoas celebravam nas ruas de Berlim o Dia do Orgulho Gay — a maior parada desde o início da pandemia de covid-19 — os telefones dos foliões começaram a vibrar com uma notícia que poderia ter mudado o clima da festa. A Organização Mundial da Saúde havia acabado de declarar a varíola dos macacos uma emergência de saúde global. Alguns participantes empunhavam cartazes pedindo mais vacinas, outros distribuíam panfletos sobre sintomas. Mas a maioria dançava, cantava, se beijava e se abraçava, como se a declaração não os tocasse.
O vírus afeta predominantemente homens que fazem sexo com outros homens — um fato que autoridades de saúde pública e líderes de organizações LGBTQ nos Estados Unidos e Europa acharam extremamente difícil comunicar sem estigmatizar as populações que tentavam alertar. Em alguns casos, as mensagens oficiais terminaram sugerindo que todos corriam risco semelhante de infecção. Mas um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 21 de julho de 2022 contava uma história diferente: 98% dos casos detectados até então ocorreram em homens que praticam sexo com homens. A pesquisa havia analisado mais de 520 infecções em 16 países entre abril e junho.
O que torna a situação particularmente complexa é que os próprios cientistas não sabem exatamente como o vírus se transmite. O mesmo estudo indicava que em 95% dos casos a transmissão ocorreu durante atividade sexual, mas aqui a certeza termina. Não há provas claras de que o vírus se propague através de fluidos seminais ou vaginais. O que se comprova é transmissão por gotículas respiratórias maiores, contato próximo ou direto com lesões de pele, e possivelmente por objetos contaminados. Paul Hunter, professor de proteção sanitária da Norwich Medical School, afirma que a varíola é quase certamente transmitida sexualmente, mas hesita em classificá-la como infecção sexualmente transmissível tradicional. "Para a maioria delas, usar preservativo ou evitar penetração é uma boa maneira de impedir a transmissão," explica. "Para a varíola dos macacos, porém, até mesmo carinhos entre dois indivíduos despidos já são um grande risco."
Essa distinção importa porque rotular a doença como IST poderia levar o público a acreditar que preservativos oferecem proteção adequada — uma falsa sensação de segurança que poderia prejudicar o controle do surto. Luka Cicin-Sain, pesquisador de imunologia viral do Centro Helmholtz de Pesquisa de Infecções na Alemanha, concorda que essa abordagem poderia ser contraproducente. Embora DNA viral tenha sido encontrado em amostras de sêmen, não havia evidência de que o sêmen fosse infeccioso. "A situação é semelhante à covid-19, que também pode se espalhar por contato íntimo e beijo, mas não é considerada uma IST," observa Cicin-Sain.
Alguns cientistas ainda acreditam que a contenção seja possível através de campanhas de vacinação imediatas. Com a transmissão concentrada em uma comunidade específica, um programa robusto de vacinação poderia proporcionar imunidade de rebanho. Segundo a OMS, um homem gay com varíola dos macacos infectará em média um a dois indivíduos, enquanto outros infectarão menos de um. Isso significa que vacinar apenas cerca de metade dos membros do grupo de alto risco poderia ser suficiente. Hunter sugere oferecer a vacina em clínicas de medicina sexual, onde muitos dos atuais pacientes com varíola dos macacos — muitos dos quais vivem com HIV — já frequentam regularmente.
Mas há obstáculos significativos. Até 27 de julho de 2022, o mundo havia registrado mais de 16 mil casos confirmados, com cinco mortes todas na África. No Brasil, quase mil casos foram confirmados, a grande maioria em São Paulo. A OMS classificou a situação no país como "muito preocupante", alertando para possível subnotificação devido a testes insuficientes. Hugh Adler, pesquisador da Escola de Medicina Tropical de Liverpool que trabalhou com pacientes de varíola dos macacos, espera que a declaração da OMS chame atenção para a necessidade de fornecimento de vacinas, mas reconhece que é cedo demais para saber se isso acontecerá. "Depende do grau de relevância e peso com que uma declaração da OMS seja percebida pelos governos, órgãos públicos e fabricantes de vacinas," afirma.
O maior risco, porém, pode vir de um lugar inesperado. Gerard Krause, chefe do Departamento de Epidemiologia do Centro Helmholtz de Pesquisa de Infecções, preocupa-se que a estigmatização dos portadores do vírus contenha a adoção da vacina entre populações vulneráveis. "Nesta fase será difícil evitar que a varíola se torne uma doença endêmica adicional entre os grupos de alto risco," alerta. "Temo que o nível de estigmatização já seja muito alto. Isso afetará o acesso e a aceitabilidade das vacinas, bem como a notificação dos diagnósticos precoces e o monitoramento de contatos." A declaração de emergência global, portanto, marca não o fim da incerteza, mas talvez apenas o seu começo.
Citas Notables
Para a varíola dos macacos, porém, até mesmo carinhos entre dois indivíduos despidos já são um grande risco— Paul Hunter, professor de proteção sanitária da Norwich Medical School
Nesta fase será difícil evitar que a varíola se torne uma doença endêmica adicional entre os grupos de alto risco. Temo que o nível de estigmatização já seja muito alto— Gerard Krause, chefe do Departamento de Epidemiologia do Centro Helmholtz de Pesquisa de Infecções