Vaquinhas eleitorais já superam R$ 8,8 milhões; dez candidatos concentram metade

Nas redes, ele é atraído e toma a decisão de apoiar
Cientista político explica como as redes sociais funcionam como canal de engajamento político para pessoas fora de estruturas tradicionais.
Mark

Por que exatamente metade do dinheiro está concentrada em apenas dez candidatos?

Mimi

Porque as redes sociais funcionam como amplificador. Quem já tem presença digital forte consegue mobilizar mais pessoas. Não é acaso que Renan Santos, com estrutura do Missão, e Jones Manoel, com quase 2 milhões de seguidores no Instagram, estejam no topo.

Mark

Mas isso não deveria preocupar? Parece que alguns candidatos têm vantagem injusta.

Mimi

É uma questão real. Mas note que partidos maiores não dependem disso. Lula, Romeu Zema, Ronaldo Caiado não abriram vaquinhas porque têm acesso ao Fundo Eleitoral — o PL recebe R$ 881 milhões, o PT recebe R$ 615 milhões. As vaquinhas importam para quem é pequeno.

Mark

Então a direita está ganhando porque domina as redes?

Mimi

Por enquanto, sim. Mas o cientista político Marco Antonio Teixeira aponta que a esquerda começou a explorar esse espaço recentemente. É uma vantagem que pode mudar.

Mark

Como funciona na prática? Alguém pode simplesmente abrir uma vaquinha?

Mimi

Não. Candidatos precisam abrir uma conta bancária específica. As plataformas precisam estar autorizadas pelo TSE. Cada doação é registrada com CPF do doador. Não há anonimato. E há limite: você não pode doar mais de 10% da sua renda bruta do ano anterior.

Mark

E o dinheiro que foi arrecadado, quando precisa ser prestado contas?

Mimi

Os candidatos têm 72 horas para informar ao TSE quando recebem. A prestação de contas inicial vai de 9 a 13 de setembro. A prestação completa pode ser enviada até 14 de novembro.

Mark

Esses R$ 8,8 milhões são o total real ou pode haver mais?

Mimi

Pode haver mais. Esses números vêm de apenas quatro plataformas que já começaram a prestar contas. Outras podem estar em processo. Além disso, a prestação só acontece quando o dinheiro é efetivamente transferido para a conta bancária. Doações ainda em processamento não aparecem nos números.

  • R$ 8,8 milhões já circulam entre candidatos de 2026, com metade concentrada em dez pessoas — uma desigualdade que espelha a lógica das redes sociais, onde audiência se converte em dinheiro.
  • Renan Santos, do partido Missão, lidera com R$ 1,26 milhão, seguido por Marcel Van Hattem e Jones Manoel — nomes que construíram bases digitais sólidas antes de qualquer campanha formal.
  • A direita domina o ranking por anos de presença nas plataformas digitais, enquanto a esquerda ainda aprende a transformar engajamento online em doações concretas.
  • Para partidos pequenos como o Missão, as vaquinhas não são estratégia complementar — são sobrevivência, diante de uma cota mínima de R$ 3,3 milhões do Fundo Eleitoral.
  • Grandes candidaturas, como as de Lula, Zema e Caiado, ignoram as vaquinhas e se apoiam em centenas de milhões do Fundo Eleitoral, revelando dois mundos paralelos dentro da mesma disputa.

Antes mesmo de a campanha eleitoral de 2026 ganhar forma definitiva, os brasileiros já transferiram R$ 8,8 milhões a candidatos por meio de vaquinhas online — um fenômeno que revela não apenas entusiasmo cívico, mas também a geometria do poder digital: metade desse valor repousa nas mãos de apenas dez nomes. O financiamento coletivo, regulamentado pelo TSE desde 2019, tornou-se o termômetro de uma nova forma de militância — aquela que não vai às ruas, mas movimenta carteiras.

Os brasileiros já destinaram ao menos R$ 8,8 milhões a candidatos de 2026 por meio de plataformas de financiamento coletivo. Os dados, consultados na plataforma DivulgaCand do TSE em 25 de agosto, mostram que quatro empresas já prestaram contas — a QueroApoiar responde pela maior fatia, com R$ 8,48 milhões. O detalhe mais revelador, porém, é a concentração: metade do total está nas mãos de apenas dez candidatos.

No topo está Renan Santos, presidenciável pelo partido Missão, com R$ 1,26 milhão. Seguem Marcel Van Hattem (Novo, Senado pelo RS) com R$ 743 mil, e Jones Manoel (PSOL, deputado federal por PE) com R$ 573 mil. Completam a lista nomes como Rodrigo Spada, Kim Kataguiri, Humberto Matos, Flávio Bolsonaro, Caravina, Professor José e Elias Jabbour — um espectro que vai da direita à esquerda, mas com peso maior no campo conservador.

O cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, explica que essa concentração reflete anos de presença digital. Políticos de direita dominam as redes há mais tempo; a esquerda chegou mais tarde a esse espaço. As plataformas digitais permitem alcançar um cidadão que quer se posicionar politicamente, mas não tem tempo para o ativismo de rua — e esse cidadão, quando mobilizado, doa.

Para o partido Missão, as vaquinhas são essenciais: com poucos assentos no Congresso, o partido receberá apenas a cota mínima do Fundo Eleitoral, de R$ 3,3 milhões. Renan Santos terá arrecadação própria via vaquinha, enquanto os demais candidatos dividem os recursos públicos. Já os grandes partidos — PL com R$ 881,7 milhões, PT com R$ 615,4 milhões — não precisam desse canal, o que explica por que Lula, Zema e Caiado sequer abriram plataformas de doação.

Regulamentadas pelo TSE desde 2019, as vaquinhas eleitorais permitem doações de pessoas físicas de até 10% da renda bruta declarada à Receita. Todas devem ser identificadas por CPF, e valores acima de R$ 1.064,10 exigem transferência bancária. Criptomoedas são proibidas. Nas eleições presidenciais de 2022, o total acumulado foi de R$ 14,6 milhões — número que a eleição de 2026 já caminha para superar, meses antes do início oficial da campanha.

Os brasileiros já colocaram nas mãos de candidatos à eleição de 2026 pelo menos R$ 8,8 milhões através de vaquinhas online. O número é real, documentado pelas plataformas de financiamento coletivo que começaram a prestar contas ao Tribunal Superior Eleitoral. Mas há um detalhe que revela como o dinheiro se concentra: metade desse valor está nas mãos de apenas dez candidatos.

Os dados foram consultados na terça-feira, 25 de agosto, na plataforma DivulgaCand do TSE. Quatro empresas de financiamento coletivo já informaram seus números: a QueroApoiar lidera com R$ 8,48 milhões arrecadados, seguida pela Elegis com R$ 336 mil, Contribua com R$ 20 mil e Conectei com R$ 20 mil. É importante notar que esses números não representam necessariamente o total de doações feitas até agora. A prestação de contas só acontece quando os fundos são efetivamente transferidos para a conta bancária da campanha, e são os próprios candidatos que enviam essas informações ao TSE. Uma vez recebido o dinheiro, eles têm 72 horas para comunicar ao sistema da Justiça Eleitoral.

No topo da lista está Renan Santos, candidato à Presidência pelo partido Missão, com R$ 1,26 milhão arrecadado. Em seguida vem Marcel Van Hattem, do Novo, concorrendo ao Senado pelo Rio Grande do Sul, com R$ 743 mil. Jones Manoel, do PSOL, disputando uma vaga de deputado federal por Pernambuco, recebeu R$ 573 mil. Rodrigo Spada, do PSD, candidato a deputado federal por São Paulo, arrecadou R$ 469 mil. Kim Kataguiri, também do Missão e também candidato a deputado federal por São Paulo, conseguiu R$ 216 mil. Humberto Matos, do PCdoB, concorrendo a deputado estadual no Rio Grande do Sul, recebeu R$ 207 mil. Flávio Bolsonaro, do PL, candidato à Presidência, tem R$ 203 mil. O deputado Caravina, do PSDB, candidato a deputado estadual em Mato Grosso do Sul, arrecadou R$ 196 mil. Professor José, do PSB, candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, recebeu R$ 185 mil. E Elias Jabbour, do PCdoB, também candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, tem R$ 184 mil.

Essa concentração não é acidental. Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da FGV, explica que existe uma correlação direta entre apoio monetário e força nas redes sociais. Políticos de direita atuam nas plataformas digitais há mais tempo, enquanto a esquerda começou a enfrentar esse espaço recentemente. As redes sociais funcionam como um canal de diálogo com pessoas que não estão inseridas em estruturas políticas tradicionais — não estão em partidos, sindicatos ou associações. O político consegue alcançar esse cidadão que gostaria de se posicionar politicamente mas não tem tempo para ativismo de rua. Nas redes, ele é atraído e toma a decisão de apoiar. É um militante que não vai para a rua, mas atua mobilizado pelos diferentes canais de rede social.

Teixeira também ressalta que esse ranking não deve ser visto como algo espontâneo. Por trás de cada nome na lista há uma estrutura de organização e anos de trabalho. Renan Santos e Kim Kataguiri contam com a infraestrutura do partido Missão. Jones Manoel possui quase 2 milhões de seguidores no Instagram e tem uma trajetória de ativismo individual que precede sua filiação ao PSOL, ocorrida no final de março. Jones, Humberto Matos e Professor José mantêm canais no YouTube onde comentam sobre acontecimentos da política. Elias Jabbour é professor de Economia da UERJ e foi assessor da ex-presidente Dilma Rousseff na Diretoria de Pesquisas do Novo Banco de Desenvolvimento em Xangai, conhecido como banco dos BRICS. Rodrigo Spada foi auditor fiscal da Receita Estadual de São Paulo e foi eleito presidente da Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais em 2020, cumprindo mandatos consecutivos desde então. Marcel Van Hattem, por sua vez, não é novo no jogo político — atua na estrutura há muito tempo.

Para partidos pequenos como o Missão, as vaquinhas são estratégicas. O partido receberá apenas a cota mínima do Fundo Eleitoral do TSE, de R$ 3,3 milhões, porque ocupa poucos assentos no Congresso. Amanda Vettorazzo, vereadora em São Paulo e coordenadora da campanha de Renan Santos, explicou que o Missão não tem Fundo Partidário e o recurso eleitoral será dividido entre os outros candidatos, menos Renan, que terá arrecadação própria através de vaquinha online. É por isso que os outros presidenciáveis não abriram vaquinhas até agora, segundo o advogado especialista em Direito Eleitoral Francisco Zardo. Candidaturas como a de Lula, Romeu Zema e Ronaldo Caiado se baseiam na força das máquinas públicas, não no engajamento dos eleitores. Flávio Bolsonaro é o único outro presidenciável com melhor desempenho nas pesquisas que se cadastrou nas plataformas de doação. Candidaturas maiores tendem a se apoiar nos valores que recebem do Fundo Eleitoral ou de doações individuais grandes. O PL receberá R$ 881,7 milhões do Fundo, o PT receberá R$ 615,4 milhões, o PSD receberá R$ 421 milhões e o Novo receberá R$ 90,11 milhões.

As vaquinhas eleitorais, formalmente chamadas de financiamento coletivo, são doações de pessoas físicas feitas via internet para campanhas. O TSE regulamentou essa opção em 2019, em resposta a um julgamento do Supremo Tribunal Federal que havia proibido doações de pessoas jurídicas. Essa modalidade foi utilizada nas eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024. Nas eleições presidenciais anteriores, as vaquinhas acumularam R$ 14,6 milhões. Nas eleições municipais de 2024, os brasileiros doaram R$ 7,7 milhões. As regras são claras: eleitores podem doar até 10% da renda bruta que declararam à Receita Federal no ano anterior. Todas as doações devem ser identificadas, com registro do CPF do doador. Doações iguais ou maiores que R$ 1.064,10 só podem ser feitas por transferência bancária ou cheque cruzado nominal. Criptomoedas e moedas virtuais são proibidas. As plataformas especializadas precisam estar cadastradas na Justiça Eleitoral, identificar doadores, disponibilizar listas atualizadas em tempo real e emitir comprovantes de cada doação.

Os políticos de direita atuam nas redes sociais há mais tempo. A esquerda começou a enfrentar as redes sociais recentemente
— Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da FGV
O Missão terá um recurso bem limitado de Fundo Eleitoral. A gente não tem Fundo Partidário. Ele será dividido entre os outros candidatos, menos o pré-candidato Renan Santos, que vai ter arrecadação própria através de vaquinha online
— Amanda Vettorazzo, vereadora em São Paulo e coordenadora da campanha de Renan Santos
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