Gestantes vacinadas transferem anticorpos ao feto através da placenta, oferecendo proteção passiva ao bebê nos primeiros meses quando seu sistema imunológico ainda é imaturo. Vacina dTpa previne 70-90% dos casos de coqueluche em recém-nascidos; vacinação contra VSR reduziu em 52,5% casos graves em bebês menores de 6 meses no Brasil.
Vacinação na gestação protege mãe e bebê com 'arsenal' de anticorpos
Tudo é questão de ciência, de estudo
Por que a placenta consegue deixar passar apenas alguns anticorpos e não outros?
A placenta funciona como um filtro muito seletivo. Apenas os anticorpos da classe IgG conseguem atravessar — outras classes, como IgM e IgA, não conseguem. E mais: a placenta não apenas deixa passar passivamente. Ela tem substâncias transportadoras que realizam um transporte ativo, movimentando o IgG para a circulação fetal. É um sistema sofisticado.
Então o bebê nasce já com uma quantidade de anticorpos que pode ser até maior do que a da mãe?
Exatamente. Nas últimas semanas de gravidez, quando a transferência está no seu pico, a concentração de anticorpos no cordão umbilical pode ser até maior do que no sangue materno. É por isso que bebês prematuros nascem com menos proteção — perderam essa fase crítica de transferência máxima.
E quanto tempo dura essa proteção que o bebê recebe?
Geralmente entre cinco e seis meses. Os anticorpos maternos são metabolizados gradualmente. É um período crucial, porque é justamente nesse tempo que o bebê começa seus próprios esquemas vacinais, aos dois meses. Por volta dos seis meses, ele já tem sua própria proteção estabelecida.
Se a proteção é tão eficaz, por que a cobertura vacinal de gestantes ainda é tão baixa?
Há várias camadas no problema. Tem desinformação — gestantes que acham que não precisam de múltiplas vacinas. Tem barreiras de acesso real: distância, transporte, horários restritos. E tem algo que chamam de "oportunidade perdida" — a gestante vai ao pré-natal, é atendida, mas ninguém verifica a carteira de vacinação naquele momento. Quanto mais etapas entre a recomendação e a aplicação, maior a chance de a paciente não completar.
Então o pré-natal é realmente a chave?
É a porta de entrada. Se o profissional de saúde não apenas prescreve, mas explica por que aquela vacina importa — que não é só para proteger a mãe, mas para proteger o bebê antes mesmo dele nascer — muda tudo. A captação precoce, desde a primeira consulta, garante que o cronograma biológico seja respeitado.
E quando a gestante chega tarde ao pré-natal?
Nunca é tarde para começar. Mas quanto mais cedo, melhor. O ideal é estar vacinada antes da 20ª semana para a dTpa e antes da 28ª para a VSR. Se começa depois, ainda há proteção, mas menos intensa. Por isso a urgência em captar essas mulheres cedo.
El Pulso
- Vacina dTpa previne 70-90% dos casos de coqueluche em recém-nascidos
- Vacinação contra VSR reduziu 52,5% dos casos graves em bebês menores de 6 meses (de 14.061 para 6.674 casos)
- Cobertura vacinal de Covid-19 em gestantes: 38% no Brasil, 55% no Ceará
- Anticorpos maternos protegem o bebê por 5-6 meses após o nascimento
- Ceará recebeu selo prata em 2025 pela eliminação da transmissão vertical do vírus da hepatite B
Gestantes vacinadas transferem anticorpos ao feto através da placenta, oferecendo proteção passiva ao bebê nos primeiros meses quando seu sistema imunológico ainda é imaturo. Vacina dTpa previne 70-90% dos casos de coqueluche em recém-nascidos; vacinação contra VSR reduziu em 52,5% casos graves em bebês menores de 6 meses no Brasil.
A imunização durante a gravidez protege tanto a gestante quanto o recém-nascido, transferindo anticorpos via placenta. Estratégia eficaz reduz hospitalizações e mortalidade infantil nos primeiros meses de vida.
Existe um momento único na medicina em que uma única injeção protege duas vidas ao mesmo tempo: durante a gravidez. Quando uma gestante recebe uma vacina, seu corpo não apenas se defende contra doenças graves — ele também constrói um escudo de proteção que atravessa a placenta e chega ao bebê antes mesmo do nascimento, oferecendo ao recém-nascido uma defesa pronta para os primeiros meses de vida, quando seu sistema imunológico ainda é imaturo demais para se proteger sozinho.
O mecanismo é elegante e seletivo. Após a vacinação, o corpo da mãe produz anticorpos específicos em resposta ao antígeno. Nem tudo que circula no sangue materno consegue atravessar a barreira placentária — apenas os anticorpos da classe IgG realizam essa travessia, transportados ativamente por substâncias especializadas na placenta. O processo começa por volta da 13ª semana de gestação, intensifica-se progressivamente e atinge seu pico nas últimas quatro ou cinco semanas de gravidez, período em que a concentração de anticorpos no cordão umbilical pode ser até maior do que na própria mãe. Bebês prematuros nascem com menos proteção justamente porque perdem essa fase crítica de transferência máxima.
Os números revelam o impacto real dessa estratégia. A vacina dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, previne entre 70% e 90% dos casos de coqueluche nos primeiros meses de vida e mais de 90% das hospitalizações associadas à doença. Desde dezembro de 2025, quando o Brasil iniciou a vacinação de gestantes contra o Vírus Sincicial Respiratório, os dados mostram uma redução de 52,5% nos casos graves de síndrome respiratória aguda em bebês menores de seis meses — os casos caíram de 14.061 no primeiro semestre de 2025 para 6.674 no mesmo período de 2026. Essa imunidade passiva não é permanente; os anticorpos maternos são metabolizados gradualmente, durando geralmente entre cinco e seis meses, período crucial até que o bebê complete seus próprios esquemas vacinais iniciais.
Mas o Brasil ainda enfrenta desafios consideráveis de cobertura. A vacina dTpa registrou 88% de cobertura no Ceará em 2025 e está em 85% este ano. A vacina contra VSR alcança 83% de cobertura nacional e 88% no Estado. A vacinação contra Covid-19, porém, permanece baixa: apenas 38% de cobertura no Brasil e 55% no Ceará. Os obstáculos são múltiplos. Há barreiras de acesso — distância até unidades de saúde, dificuldade de transporte, horários restritos de vacinação, problemas de abastecimento — que pesam especialmente em regiões rurais, áreas remotas e periferias urbanas. Há também barreiras dentro do próprio sistema de saúde: oportunidades perdidas quando a gestante comparece ao pré-natal mas ninguém verifica adequadamente sua carteira de vacinação, ou quando a consulta de pré-natal ocorre em um local e a vacinação em outro, multiplicando as etapas entre a recomendação e a aplicação.
A desinformação alimenta a hesitação. Algumas gestantes deixam a vacinação para segundo plano por conveniência ou por confusão — acreditam que, por estarem imunizadas contra influenza, não precisam da vacina contra Covid-19. Outras enfrentam uma mistura de resistência e negacionismo. Mas profissionais de saúde enfatizam que a porta de entrada para a imunização é o pré-natal, desde a primeira consulta. A captação precoce é estratégica: nunca é tarde para começar, mas quanto mais cedo melhor, porque o cronograma biológico da transferência de anticorpos segue um calendário específico. A orientação clara dos profissionais de saúde, desde o primeiro encontro, é o que garante o cumprimento desses prazos.
Graziela Nascimento, 27 anos, grávida de oito meses do segundo filho, exemplifica essa confiança. Desde a primeira consulta no Posto de Saúde Pio XII, no São João do Tauapé, em Fortaleza, a equipe acompanha sua caderneta de vacinação. Em cada visita, o assunto é reforçado. Ela verifica, anota, e quando precisa tomar a vacina, entra direto na sala. Graziela não tem dúvidas sobre a segurança das vacinas na gravidez. "Tudo é questão de ciência, de estudo", diz ela. "Tudo que é oferecido, principalmente na questão pública, é super necessário." Seu filho Samuel nascerá protegido, e ela aguarda sua chegada com tranquilidade, sabendo que ele já terá a defesa necessária para seus primeiros meses de vida.
O Ceará recebeu em 2025 um selo prata de boas práticas pela certificação da eliminação da transmissão vertical do vírus da hepatite B — uma conquista histórica que reflete o sucesso dessas ações coordenadas. Mas o trabalho continua. Envolver a rede de apoio, incluindo parceiros e famílias, é fundamental para reverter a realidade de baixa cobertura. A estratégia não é apenas prescrever a vacina — é explicar por que aquela vacina está sendo realizada, transformando a vacinação durante a gravidez de um ato isolado em uma das primeiras estratégias de prevenção que se pode oferecer à criança, antes mesmo dela nascer.
Citas Notables
Não basta simplesmente escrever 'vacinar' na caderneta. Precisamos explicar por que aquela vacina está sendo realizada. Vacinação durante a gravidez não é apenas vacinação da mulher. É uma das primeiras estratégias de prevenção que podemos oferecer à criança, antes mesmo de ela nascer.— Maria Carolina Pessoa Valença Rygaard, médica ginecologista e obstetra, membro da Comissão Nacional Especializada de Vacinas da Febrasgo
O bebê não é imunocomprometido, mas tem uma funcionalidade diferente do adulto, sendo menos funcional do ponto de vista de proteção rápida. Então, ele já nascer com um arsenal de anticorpo pronto vai protegê-lo até que ele receba as vacinas e o sistema imune dele produza.— Flávia Bravo, pediatra, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações