No coração de São Paulo, uma performance chamada 'Urutau' reúne corpos, sons e luz para interrogar o que significa existir no Brasil contemporâneo. Novíssimo Edgar e Wagner Antônio constroem, no Instituto Capobianco, um ritual que não pertence a nenhum gênero artístico isolado — é dança, xamanismo, rock e rap fundidos numa linguagem onírica que nasce de sonhos e ressoa em tensões geopolíticas reais. Como o urutau, ave do mau agouro que dá nome ao espetáculo, a performance habita a fronteira entre o que se vê e o que se pressente.
'Urutau' funde dança, xamanismo e rock em performance onírica no centro de SP
A performance é um grande ritual para ver se aqueles pianos viram pássaros
Por que começar com um toré indígena? Parece um ponto de partida muito específico para uma performance que depois mergulha em rock e rap.
O maracá funciona como um acelerador. Máximo Wassu não está ali apenas como representação — ele está reorganizando o espaço, criando as condições para que tudo que vem depois faça sentido. É como ligar um motor.
E a dança dos pianos? Dois homens, dois instrumentos, movimentos que parecem caóticos.
Não é caos. É uma conversa entre o corpo e o som. Melifona toca, Trainotti responde com o corpo. Começa controlado, depois explode. É como se o piano estivesse tentando virar pássaro, como no sonho de Wagner.
Fale sobre aquela cena do orelhão, do garoto com a bicicleta.
É Brasil. É realidade. Um garoto vendendo drogas, a polícia, a militarização. Edgar rima sobre isso enquanto o vestem de soldado. Barbarelli entra e o tapa, gritando que ela é a realidade. Porque a realidade bate mesmo.
A iluminação parece ser mais que cenário.
É estrutura. Wagner cria pistas de skate de luz. Os performers andam nelas. Sem a luz, não há performance — há apenas corpos no escuro.
E no final, aquele ritual de lavar as camisas com "inocente" escrito?
É a pergunta que fica. Depois de tudo que vimos — a violência, a política, o caos — o que significa ser inocente? Cada pessoa que passou por aquele palco carrega essa palavra.
El Pulso
- A urgência da performance está na recusa de qualquer categoria: não é ritual, não é show, não é dança — é tudo ao mesmo tempo, e essa indistinção é proposital e perturbadora.
- A cena do orelhão concentra a tensão máxima: um rap sobre um menino que vende drogas, um tapa no rosto e o grito 'eu sou a realidade' anunciam que o onírico e o político são inseparáveis.
- A iluminação não serve os performers — ela os precede, criando esculturas de luz que definem o espaço antes que qualquer corpo o ocupe.
- O sonho que gerou o título — um piano querendo virar pássaro — materializa-se em cena com saltos febris, quedas violentas e um solo de alaúde iraniano que emerge do caos.
- O encerramento propõe uma purificação coletiva: camisas marcadas com a palavra 'inocente' são lavadas e estendidas, deixando a pergunta sobre o que essa inocência ainda significa no Brasil de hoje.
No coração de São Paulo, uma performance chamada 'Urutau' reúne corpos, sons e luz para interrogar o que significa existir no Brasil contemporâneo. Novíssimo Edgar e Wagner Antônio constroem, no Instituto Capobianco, um ritual que não pertence a nenhum gênero artístico isolado — é dança, xamanismo, rock e rap fundidos numa linguagem onírica que nasce de sonhos e ressoa em tensões geopolíticas reais. Como o urutau, ave do mau agouro que dá nome ao espetáculo, a performance habita a fronteira entre o que se vê e o que se pressente.
Dois homens dançam sobre pianos. Um gira o instrumento enquanto o outro caminha de cabeça para baixo sobre sua tampa, saltando entre as teclas amareladas de um velho Yamaha com crescente frenesi. É apenas uma das cenas que compõem 'Urutau', performance experimental que Novíssimo Edgar e o encenador Wagner Antônio apresentam no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final de agosto.
O espetáculo abre com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, executando um toré ao som do maracá — instrumento que Edgar descreve, com base no antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, como um acelerador de partículas capaz de reorganizar o que parece desconexo. O que se segue desafia qualquer categorização: toré, xamanismo, rock improvisado e rap coexistem, tecidos por temas de tensão geopolítica brasileira. 'Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil', afirma Edgar.
A iluminação é o fio condutor invisível. Wagner Antônio a concebe não como suporte aos performers, mas como instalação autônoma — a luz cria esculturas em regiões do palco onde ninguém está, abrindo caminhos antes que os corpos os percorram. Uma das cenas mais perturbadoras mostra Edgar atendendo um orelhão e rimando sobre um menino que vende drogas, enquanto figuras o vestem com trajes militares. A cantora Barbarelli o arrasta ao centro e lhe dá um tapa, gritando 'eu sou a realidade'. O que segue é um rock barulhento com letras políticas e músicos de rosto coberto por máscaras de palha.
O próprio título nasceu de um sonho: na véspera da estreia, Antônio sonhou com um piano que desejava se transformar num urutau, ave noturna associada ao mau agouro. Esse sonho ganha corpo na cena dos pianos, onde o músico Melifona e o bailarino Augusto Trainotti criam um diálogo entre som e movimento que começa lento e termina em quedas violentas — momento em que o músico iraniano Farshad Gheshmi inicia um solo de alaúde.
No encerramento, Edgar surge com um balde de alfazema e todo o elenco vestido de branco. Juntos, lavam e estendem camisas estampadas com a palavra 'inocente' — gesto de purificação que ecoa as trajetórias de cada figura que passou pelo palco e deixa suspensa a pergunta sobre o que essa inocência ainda pode significar.
Dois homens dançam sobre pianos. Um gira o instrumento enquanto o outro caminha de cabeça para baixo sobre sua tampa. O primeiro bate o corpo do piano com os punhos; o outro salta entre as teclas amareladas de um velho Yamaha, cada pulo mais frenético, cada pancada mais forte. A cena é apenas uma das muitas que compõem "Urutau", performance experimental que o multiartista Novíssimo Edgar e o encenador Wagner Antônio apresentam no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final de agosto.
O espetáculo abre com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, executando um toré — dança tradicional de seu povo — enquanto toca o maracá. Edgar explica que o instrumento funciona como um acelerador de partículas, conforme descrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Naquele momento inicial, o maracá reorganiza elementos que pareceriam desconexos em qualquer outro contexto. A partir daí, o que se desenrola na cena desafia categorização. Não é exatamente um ritual xamânico, nem uma apresentação de dança pura, nem um show de rock ou uma roda de rap — é tudo isso simultaneamente, tecido junto por temas que exploram tensões geopolíticas contemporâneas. "Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido", afirma Edgar.
A iluminação funciona como o fio condutor invisível. Wagner Antônio não a concebe como iluminação convencional, mas como uma instalação que ocupa o espaço. Frequentemente, a luz não incide sobre os performers, mas cria o que parecem ser esculturas luminosas em outras regiões do palco. "É como se a minha luz proporcionasse uma pista de skate para que o Edgar ande", descreve Antônio, sugerindo que a luz não apenas revela, mas cria o caminho para a ação.
Uma das cenas mais perturbadoras acontece quando Edgar atende um orelhão e rima sobre um garoto que vende drogas de bicicleta, enquanto duas figuras o despem e o vestem com trajes militares. A cantora Barbarelli o arrasta para o centro do palco e lhe dá um tapa no rosto, gritando "eu sou a realidade". O que segue é um rock improvisado barulhento, com a banda berrando letras políticas entre guitarras distorcidas, os rostos dos músicos cobertos por máscaras de palha. A atmosfera onírica persiste do início ao fim.
O próprio título da performance emerge de um sonho. Na noite anterior à estreia, Antônio sonhou com um piano que desejava se transformar num urutau, ave noturna associada ao mau agouro. "A performance é um grande ritual para ver se aqueles pianos viram pássaros", diz Edgar. Esse sonho ganha corpo na cena da dança dos pianos, onde o músico Melifona e o bailarino Augusto Trainotti criam um diálogo entre som e movimento. A dança começa lenta, ganha tração progressivamente, até sair do controle com saltos febris e quedas violentas. No último tombo, o músico iraniano Farshad Gheshmi inicia um solo de alaúde.
No encerramento, Edgar surge carregando um balde de alfazema, acompanhado por todo o elenco vestido de branco. Juntos, lavam e estendem camisas num varal, cada uma estampada com a palavra "inocente". O gesto é simbólico, ressoa nas trajetórias de cada figura que passou pelo palco — uma purificação final que questiona o que significa inocência num contexto de tensão geopolítica e realidade brasileira.
Citas Notables
Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido— Novíssimo Edgar
É como se a minha luz proporcionasse uma pista de skate para que o Edgar ande— Wagner Antônio, iluminador