UNAIDS alerta para risco de nova epidemia global de HIV por falta de financiamento

Em 2025, registraram-se 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS; quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral.
Inovação sem acesso não é inovação, é injustiça
Winnie Byanyima, diretora-executiva do UNAIDS, sobre o paradoxo de ter medicamentos avançados mas não conseguir colocá-los nas mãos de quem precisa.
Mark

Por que o UNAIDS escolheu este momento, durante a conferência no Rio, para soar esse alarme?

Mimi

Porque o contraste é gritante. Estamos em um ponto histórico da ciência — temos ferramentas que gerações anteriores só podiam sonhar. Mas ao mesmo tempo, o financiamento desapareceu. É como ter a chave e não conseguir abrir a porta.

Mark

A queda de 18% no financiamento para HIV parece um número isolado. Qual é o impacto real nas ruas?

Mimi

Não é isolado. Significa que programas comunitários inteiros estão fechando. Serviços para populações marginalizadas — pessoas gays, profissionais do sexo, usuários de drogas — desapareceram em 50% a 85% dos países estudados. Sem esses serviços, as pessoas não chegam ao diagnóstico, não chegam ao tratamento.

Mark

O Brasil conseguiu aumentar o acesso à prevenção medicamentosa em 41%. Como fez isso enquanto outros países recuavam?

Mimi

O Brasil usou recursos domésticos e criatividade. Mas esbarrou em um muro: a Gilead não deu licença voluntária para o lenacapavir. Então o país está considerando licenciamento compulsório. É uma vitória parcial — mostra que é possível avançar, mas também mostra os limites do que um país pode fazer sozinho.

Mark

A criminalização de populações vulneráveis é nova ou está apenas sendo documentada agora?

Mimi

É nova. O UNAIDS diz que é a primeira vez que vê crescimento nessas criminalizações. Burkina Faso, Níger, Senegal — países que endureceram leis contra relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Quando você criminaliza as pessoas, elas desaparecem dos serviços de saúde. É o oposto do que a epidemia precisa.

Mark

Se as metas de 2030 forem cumpridas, quanto sofrimento seria evitado?

Mimi

3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes. Mas isso exige que os governos invistam agora, que a solidariedade internacional seja reconstruída, e que as leis punitivas desapareçam. Não é apenas um problema de dinheiro — é um problema de escolha política.

  • Financiamento internacional para HIV caiu 18% em 2025, de US$ 8,8 bilhões para US$ 7,3 bilhões
  • 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS em 2025
  • Serviços comunitários reduziram entre 50% e 85% em 47 países estudados em 2026
  • 66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo; 168 criminalizam trabalho sexual

Financiamento internacional para HIV caiu 18% em 2025, atingindo menor nível em duas décadas, comprometendo serviços comunitários essenciais em países africanos. Novas tecnologias preventivas como injeções mensais e semestrais oferecem proteção comparável a vacinas, mas acesso desigual e falta de licenças voluntárias limitam alcance.

Relatório da UNAIDS divulgado na AIDS 2026 no Rio alerta que cortes no financiamento internacional e retrocessos em direitos humanos ameaçam erradicar a epidemia de HIV como ameaça à saúde pública até 2030, apesar de avanços científicos promissores.

A ciência nunca esteve tão perto de transformar a resposta ao HIV. Medicamentos injetáveis que protegem por meses, comprimidos mensais em fase avançada de testes, níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina — o arsenal existe. E ainda assim, o mundo corre o risco de desperdiçar essa oportunidade histórica. É o aviso que o UNAIDS faz em relatório divulgado durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS, realizada no Rio de Janeiro em julho de 2026. A agência das Nações Unidas aponta uma combinação letal: financiamento em colapso, serviços comunitários desaparecendo, e uma onda crescente de criminalização das populações mais vulneráveis ao vírus.

Os números da epidemia ainda refletem décadas de progresso. Em 2025, as novas infecções e mortes relacionadas à AIDS atingiram seus menores patamares em três décadas — 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes. Sete países conseguiram reduzir em quase 80% o número de novos casos desde 2010. Outros onze alcançaram as metas internacionais conhecidas como 95-95-95, que medem diagnóstico, tratamento e supressão viral. Mas esse progresso é profundamente desigual. Em 2025, três regiões do mundo registraram aumento nas infecções. Vinte e um países viram seus números crescerem. Cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estavam em tratamento. Quase metade das crianças com o vírus não tinha acesso à terapia antirretroviral. O avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões, revelando que o progresso depende inteiramente da manutenção dos investimentos.

A crise financeira é o fator mais imediato. A assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025, caindo 23% — a maior redução já registrada. Os recursos internacionais destinados especificamente ao HIV despencaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma queda de 18% e o menor nível em quase duas décadas. Para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia, o impacto é devastador. Os programas comunitários foram os mais atingidos. Na África Subsaariana, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional. Um estudo de 2026 envolvendo 47 países identificou reduções expressivas: 50% nos serviços de apoio à prevenção e cuidado; 85% nos serviços para homens gays e outros homens que fazem sexo com homens; 82% nos serviços para profissionais do sexo; 72% nos serviços para sobreviventes de violência baseada em gênero. Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%.

O Brasil emerge como um exemplo parcial de resistência. O país ampliou em 41% o número de pessoas utilizando medicamentos preventivos contra o HIV no último ano, citado pelo UNAIDS como um dos que conseguiram expandir o acesso à prevenção medicamentosa. Etiópia e Uganda também avançaram, utilizando recursos domésticos e outras fontes de financiamento. Mas o Brasil enfrenta uma barreira crítica: apesar de ter participado dos ensaios clínicos do lenacapavir, a fabricante Gilead não concedeu uma licença voluntária que permitisse preços mais baixos ou a produção de versões genéricas. Diante disso, o país avalia recorrer ao licenciamento compulsório. A África do Sul, por sua vez, negocia preços para as aplicações semestrais do mesmo medicamento. Mesmo com iniciativas de parceiros como UNITAID e o Fundo Global para implementar o lenacapavir com meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028, o UNAIDS afirma que esse número representa apenas uma pequena fração da necessidade. A estimativa é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para reduzir significativamente as novas infecções.

Para além da questão financeira, o relatório documenta um retrocesso alarmante em direitos humanos. Pela primeira vez desde que começou a acompanhar essas tendências, o UNAIDS registrou crescimento no número de países que criminalizam grupos mais expostos ao HIV. Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, o Senegal ampliou as penalidades para essas relações. Globalmente, 168 países criminalizam o trabalho sexual, 152 criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas, 66 criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, e 14 criminalizam pessoas trans. Winnie Byanyima, diretora-executiva do UNAIDS, foi clara: não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção. Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV.

As metas para 2030 são ambiciosas: colocar 40 milhões de pessoas em tratamento, garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões, reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV que sofram estigma e discriminação, reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas em risco expostas à desigualdade de gênero e violência, e reduzir para menos de 10% o número de países com legislações punitivas que limitem o acesso aos serviços. O cumprimento integral dessas metas poderia evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes até 2030. Mas Byanyima deixou claro que a escolha é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar. A inovação científica existe. O que falta agora é a vontade política e os recursos para colocá-la nas mãos de quem mais precisa.

Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça.
— Winnie Byanyima, diretora-executiva do UNAIDS
A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional.
— Winnie Byanyima, diretora-executiva do UNAIDS
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