Um ano numa trincheira: como Serhii Krynitskyi sobreviveu sozinho na "zona de morte"

Serhii Krynitskyi perdeu dois camaradas em combate, incluindo o colega que o acompanhava há 326 dias, morto por ataque de drone enquanto ferido.
Tínhamos as portas do céu a chamar
Krynitskyi recorda o último dia com o colega, antes do ataque fatal que o deixaria sozinho.
Mark

O que o levou a documentar tudo em vídeo, naquelas condições?

Mimi

Quando se está sozinho durante semanas, a mente procura formas de se manter inteira. Os vídeos eram uma forma de contar a história, de deixar um registo. Se algo me acontecesse, alguém saberia o que se passou ali.

Mark

Vinte dias sozinho com o corpo do colega. Como é que se sobrevive a isso psicologicamente?

Mimi

Não sei se se sobrevive. Acho que se fica diferente. Compreendo agora porque é que tantos homens perderam a cabeça. Não é fraqueza. É o peso de estar vivo quando o outro não está.

Mark

Você não era soldado profissional. Como é que um homem que trabalhava na construção consegue matar vinte e três pessoas?

Mimi

A guerra muda-o. Ou morre ou reage. Não há muito espaço para filosofia quando alguém está a apontar uma arma na sua direção. O primeiro foi o mais difícil. Depois... depois torna-se uma questão de sobrevivência.

Mark

Os drones mudaram completamente a forma como se faz guerra, não é?

Mimi

Completamente. Não pode haver concentrações de tropas, não pode haver movimento. Fica-se preso num buraco durante meses. A tecnologia tornou a guerra mais solitária e mais mortal ao mesmo tempo.

Mark

Quando saiu dali, o que sentiu?

Mimi

Alívio e culpa. Alívio por estar vivo. Culpa por ter deixado o colega para trás. Essas duas coisas não desaparecem.

  • 346 dias numa trincheira perto de Chasiv Yar, entre abril de 2025 e março de 2026
  • Os últimos 20 dias completamente sozinho após morte do colega por ataque de drone
  • Matou 23 soldados russos durante a missão
  • Recebeu a medalha de Herói da Ucrânia das mãos do presidente Zelensky em maio de 2026
  • Recrutado em 2024, integrado na 24.ª Brigada Mecanizada

Um soldado civil recrutado em 2024 sobreviveu quase um ano isolado numa trincheira, escavando entre mortos para encontrar comida e água. A guerra eletrónica com drones forçou ambos os lados a abandonar táticas tradicionais, deixando pequenas equipas isoladas em "zonas de morte" por meses.

Serhii Krynitskyi passou 346 dias numa trincheira na linha da frente ucraniana, os últimos 20 completamente sozinho após a morte do colega. Recebeu a mais alta condecoração militar da Ucrânia por matar 23 soldados russos.

Serhii Krynitskyi chegou à trincheira com dois camaradas e saiu sozinho. Nos 346 dias que passou naquele buraco escavado na terra perto de Chasiv Yar, entre abril de 2025 e março de 2026, viu homens morrerem ao seu lado, aprendeu a procurar comida entre cadáveres e matou 23 soldados russos. Os últimos vinte dias passou-os completamente isolado, ao lado do corpo do único colega que lhe restava.

Krynitskyi não era um militar de carreira. Trabalhava na agricultura e na construção até uma lesão o deixar num coma de um mês que mudou o rumo da sua vida. Em 2024, durante uma passagem das Forças Armadas pela sua localidade de Bilohir'ya, no oeste ucraniano, foi recrutado e colocado num autocarro com destino a Rivne. O treino foi rápido. Depois foi enviado para a 24.ª Brigada Mecanizada e despachado para a linha da frente a este, onde a Rússia tentava conquistar as cidades-fortaleza que ainda resistiam na região de Donetsk.

A guerra moderna não se parece com a guerra que os livros de história descrevem. Os drones mudaram tudo. Ambos os lados abandonaram as táticas antigas de acumulação de tropas, filas de artilharia, veículos em movimento. Tudo isso seria um alvo demasiado fácil para os pequenos dispositivos que sobrevoam o campo de batalha. A resistência ucraniana reinventou-se. Agora, pequenas equipas de dois ou três soldados ocupam esconderijos espalhados por distâncias que chegam aos trinta quilómetros. É o que chamam de "zona de morte", porque a ameaça é constante e invisível. Um enxame de drones pode surgir a qualquer momento. Os soldados ficam presos durante meses na mesma posição. Rodar significa morte.

Krynitskyi e o seu colega começaram por cavar. Quanto mais fundo, melhores as chances. Mas um dos três soldados morreu pouco depois de chegarem, num ataque que deixou Krynitskyi com uma ferida na cabeça e perda temporária de audição. Ficou a dois. Continuaram a cavar, a resistir, a procurar água e comida quando os drones de reabastecimento conseguiam furar as defesas russas. Às vezes conversavam. Às vezes debatiam acaloradamente. Outras vezes simplesmente existiam juntos naquele cenário de terror, com a descontração possível para quem sabe que pode morrer a qualquer momento. No dia 326, estavam a brincar. Nessa tarde, como Krynitskyi recorda, "tínhamos as portas do céu a chamar".

Uma bomba largada por um drone atingiu o colega numa perna. Krynitskyi ouviu a explosão, saiu para ver o que tinha acontecido e encontrou o homem ferido. Arrastou-o para o buraco, colocou um torniquete, tentou ganhar tempo para encontrar a ferida. Era tarde demais. O soldado sangrou até à morte enquanto Krynitskyi fazia tudo o que podia para evitar o desfecho inevitável. Ficou sozinho.

Durante vinte dias, Krynitskyi permaneceu naquela trincheira com o corpo do homem que o tinha ajudado a resistir. Documentou tudo com o seu telemóvel, quando tinha bateria. Às vezes recarregava os dispositivos com baterias recolhidas de drones russos que tinham sido abatidos. A Reuters viu vinte e dois desses vídeos, fornecidos pela sua unidade. Neles está registado o testemunho de um homem que viu grupos de soldados russos a apenas vinte metros de distância, que matou o primeiro inimigo quando este fingiu rendição mas depois apontou a arma, que sobreviveu a ciclos de violência que explicam porque é que, como diz agora, "muitos soldados perderam a cabeça".

Eventualmente recebeu uma ordem para sair. Rastejou durante a noite até encontrar outro grupo de soldados ucranianos. Deixou o corpo do colega para trás. Em maio, o presidente Volodymyr Zelensky entregou-lhe pessoalmente a medalha de Herói da Ucrânia, a mais alta condecoração militar do país. Krynitskyi tinha matado vinte e três inimigos durante a sua missão. Tinha sobrevivido a trezentos e quarenta e seis dias numa trincheira. Tinha visto a morte de perto e tinha aprendido porque é que homens perdem a razão quando estão presos naquele tipo de lugar.

Muitos soldados perderam a cabeça enquanto estavam na linha da frente
— Serhii Krynitskyi
Eu reagi
— Serhii Krynitskyi, recordando o primeiro inimigo que matou
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