Argentina caiu 69 posições em ranking de liberdade de imprensa desde 2022; Milei registrou 2,4 insultos contra jornalistas por dia e interdita sala de imprensa por 11 dias. El Salvador forçou saída de 40 jornalistas; Colômbia exige permissão para entrevistas; todos os líderes são aliados de Trump e promovem interferência política na mídia.
Ultradireita na América Latina restringe acesso a autoridades e desafia jornalismo
O jornalismo se exerce com as unhas
Por que a Argentina é tão importante para entender o que está acontecendo na região?
Porque Waldman tem sete anos cobrindo a presidência. Ele viu três governos diferentes. Isso lhe dá uma perspectiva que poucos têm. E ele é claro: nunca viu nada assim.
Mas ele está falando de sua experiência pessoal. Há dados que confirmam isso?
Sim. A Argentina caiu 69 posições no ranking de liberdade de imprensa desde 2022. E há registros específicos: 335 mensagens contra a imprensa em uma semana, 2,4 insultos por dia em média.
Esses números vêm de quem? Da Adepa e do Chequeado. São organizações confiáveis, mas são contagens de mensagens em redes sociais. Não é a mesma coisa que medir liberdade de imprensa.
Verdade. Mas há também o acesso físico. Jornalistas não podem circular livremente na Casa Rosada. A sala de imprensa foi fechada por 11 dias.
Isso é novo?
Sim. Waldman diz que desde 1940 jornalistas podiam acessar áreas comuns. Nem os ditadores fizeram isso.
Ele diz que nem os ditadores fizeram. Mas como ele sabe? Ele não cobriu os ditadores.
Ponto justo. Mas Fernando Stanich, do Fopea, confirma que as restrições são novas. E a interdição de 11 dias é um fato documentado.
E nos outros países?
El Salvador é pior em números: 40 jornalistas saíram, queda de 74 posições. Mas a Argentina é mais interessante porque mostra o padrão em tempo real.
Qual é o padrão exatamente?
Líderes de ultradireita, aliados de Trump, usando retórica agressiva e depois implementando restrições práticas de acesso.
E qual é a diferença entre isso e o que Trump faz nos EUA?
Jaramillo explica bem: nos EUA, há instituições que protegem grandes veículos. Aqui, não. O jornalismo é mais frágil economicamente.
Mas ela está generalizando sobre toda a América Latina com base em um exemplo colombiano.
Verdade. Mas é um ponto válido. A infraestrutura é diferente.
Então o que vem a seguir?
Depende de como as organizações de imprensa locais resistem. Waldman e Stanich estão documentando tudo. Mas sem proteção institucional, é uma luta desigual.
Il Polso
- Argentina caiu 69 posições no ranking de liberdade de imprensa desde 2022, ficando em 98º de 180 países
- Milei registrou média de 2,4 insultos contra jornalistas por dia; sala de imprensa foi interdita por 11 dias
- El Salvador forçou saída de 40 jornalistas; Colômbia exige permissão para entrevistas de autoridades
- Todos os líderes são aliados de Trump; El Salvador caiu 74 posições, Equador caiu 31 em 2026
Argentina caiu 69 posições em ranking de liberdade de imprensa desde 2022; Milei registrou 2,4 insultos contra jornalistas por dia e interdita sala de imprensa por 11 dias. El Salvador forçou saída de 40 jornalistas; Colômbia exige permissão para entrevistas; todos os líderes são aliados de Trump e promovem interferência política na mídia.
Líderes de ultradireita na América Latina, aliados de Trump, intensificam ataques contra jornalistas e restringem acesso à informação oficial, desafiando a democracia e a liberdade de imprensa na região.
Fabián Waldman tem coberto a presidência argentina há sete anos. Passou por Mauricio Macri, Alberto Fernández e, desde 2023, Javier Milei. Nessa trajetória, viu três governos diferentes lidar com a imprensa. Mas há algo que o distingue nos últimos anos, algo que Waldman afirma nunca ter presenciado em quatro décadas de democracia argentina: "Nenhum presidente da Argentina, nos 40 anos de democracia, gerou confronto com a imprensa nos termos que Milei o faz".
Os números confirmam a percepção. Desde 2022, um ano antes de Milei chegar ao poder, a Argentina caiu 69 posições no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, ficando em 98º lugar entre 180 países. Esse padrão se repete por toda a América Latina, onde líderes de ultradireita têm ganhado espaço nos últimos anos. Mas há diferenças importantes. A Colômbia, sob Abelardo de la Espriella, está apenas começando a implementar restrições. El Salvador, sob Nayib Bukele, já viu dezenas de jornalistas deixarem o país. A Argentina, porém, oferece um retrato particularmente claro do que essa hostilidade pode parecer.
No final de agosto, Milei voltou às redes sociais para chamar o jornalista Marcelo Bonelli de "merda humana mal cagada" por uma coluna crítica ao seu governo. Não foi um incidente isolado. Entre 17 e 23 de agosto, a Adepa, associação que reúne mais de 180 veículos de imprensa argentinos, registrou 335 mensagens contra a imprensa republicadas por Milei no X, além de 26 mensagens próprias e 21 menções depreciativas ao jornalismo em aparições públicas. Um levantamento do site Chequeado em fevereiro de 2025 identificou 1.051 insultos contra políticos da oposição, jornalistas e comentaristas até aquele momento, considerando 439 dias do governo Milei. Isso dá uma média de 2,4 ofensas por dia. O termo "merda humana" aparece com frequência. Muitas de suas mensagens terminam com NOLSALP, sigla que significa "não odiamos suficientemente os jornalistas".
Mas a retórica é apenas parte da história. Waldman descreve uma deterioração concreta nas condições de trabalho na Casa Rosada. O governo passou a impedir que jornalistas vejam quando o presidente entra ou sai do edifício. A circulação foi restringida. Desde 1940 até recentemente, afirma Waldman, jornalistas podiam acessar qualquer área comum do prédio. Fernando Stanich, presidente do Fopea, confirma: "Existe uma dificuldade de acesso a informações de fontes oficiais, e isso se traduz nas restrições impostas aos jornalistas credenciados na Casa Rosada para falar com autoridades e circular livremente pelo prédio do governo, algo que não acontecia antes". O ponto mais crítico foi a interdição da sala dos jornalistas por 11 dias, algo que nem mesmo os ditadores do último regime militar argentino (1976-1983) fizeram. O episódio começou após a emissora Todo Noticias exibir imagens de áreas comuns do interior da Casa Rosada feitas com óculos inteligentes. Quando questionado, o então chefe de gabinete Manuel Adorni afirmou que o governo era a favor da liberdade de imprensa, mas não permitiria "atos que ponham em risco a segurança nacional".
O acesso ao presidente é praticamente inexistente. Waldman relata que a única vez em que Milei respondeu a três perguntas seguidas foi em junho de 2024, quando entrou na sala de imprensa com o propósito explícito de o ofender. "Bom dia, senhor domado", disse Milei ao cumprimentá-lo. "Tornamos você famoso, não?", continuou. Waldman respondeu: "Não por minha culpa, senhor presidente". Aquela é a única imagem do presidente com jornalistas credenciados na Casa Rosada.
A Argentina não é o pior caso da região. El Salvador, sob Nayib Bukele, suspende direitos constitucionais há mais de quatro anos por meio de um estado de exceção. Pelo menos 40 jornalistas foram forçados a deixar o país. El Salvador caiu 74 posições no ranking da Repórteres Sem Fronteiras desde 2019. O Equador, sob Daniel Noboa, registrou a maior queda da região em 2026, com 31 posições perdidas. Na Colômbia, Espriella tomou posse em agosto e já começou a implementar controles. Entre 2018 e 2020, quando era advogado, abriu 109 denúncias penais contra jornalistas simplesmente porque o criticavam, segundo Sofía Jaramillo, diretora da Fundação para Liberdade da Imprensa colombiana. Agora, ministros e funcionários que desejam dar entrevistas precisam de permissão prévia. O Dane cancelou de última hora sua entrevista coletiva mensal sobre inflação. Durante a visita do secretário de Estado americano Marco Rubio à Colômbia, o governo vetou alguns veículos da entrevista coletiva.
O que une esses líderes é claro: todos são aliados de Donald Trump. Desde que Trump voltou ao poder em 2025, segundo a Repórteres Sem Fronteiras, ele promove "interferência política na propriedade dos meios de comunicação e investigações com motivação política contra jornalistas e veículos". Jaramillo aponta uma diferença crucial entre a hostilidade que ocorre nos EUA e a que ocorre na América Latina. "Na Colômbia, estamos muito mais suscetíveis a pressões econômicas do que, digamos, um New York Times ou um Washington Post", afirma. "Não estou dizendo que não há desafios nos EUA. Mas, por aqui, o jornalismo se exerce com as unhas." Sem a proteção institucional que grandes veículos americanos possuem, o jornalismo latino-americano enfrenta uma pressão simultânea: política, econômica e de segurança.
Citazioni salienti
Nenhum presidente da Argentina, nos 40 anos de democracia, gerou confronto com a imprensa nos termos que Milei o faz— Fabián Waldman, jornalista argentino
Existe uma dificuldade de acesso a informações de fontes oficiais, e isso se traduz nas restrições impostas aos jornalistas credenciados na Casa Rosada para falar com autoridades e circular livremente pelo prédio do governo, algo que não acontecia antes— Fernando Stanich, presidente do Fopea