Em Bruxelas, os líderes da União Europeia reúnem-se numa cimeira que condensa algumas das questões mais urgentes do nosso tempo: a sobrevivência de uma nação em guerra, o futuro do clima e as fraturas internas de um bloco que procura falar a uma só voz. Com Zelensky presente e ativos russos congelados como possível moeda de reconstrução, a Europa testa os limites da sua solidariedade — política, financeira e moral.
UE reúne-se para debater apoio à Ucrânia com Zelensky presente e agenda repleta
Os ativos russos devem permanecer congelados até à indemnização
Porque é que a UE está a considerar usar ativos russos congelados para financiar a Ucrânia agora?
Porque o apoio militar e de reconstrução é imenso, e os orçamentos europeus estão já esticados. Se conseguirem usar o dinheiro que a Rússia não consegue aceder, é uma forma de fazer a Rússia pagar indiretamente pelos danos que causou.
Mas não é arriscado? E se a Rússia disser que é roubo?
Há proteções legais. Os ativos só serão usados se a Rússia não cessar a guerra e não indemnizar. E a UE está a ser cuidadosa — quer que a Comissão faça uma avaliação rigorosa antes de qualquer coisa.
Porque é que a Hungria fica de fora desta declaração?
Viktor Orbán tem uma relação diferente com a Rússia. Historicamente, tem sido mais relutante em sancionar Moscovo. Mas desta vez, 26 países conseguem falar a uma voz — é um sinal de força.
E as metas climáticas? Porque é que isso é tão complicado?
Porque reduzir 90% das emissões até 2040 é ambicioso. Alguns países têm indústrias pesadas, outros dependem de carvão. Todos querem crescimento económico. Mas precisam de uma mensagem comum para o Brasil em novembro, senão a credibilidade europeia sofre.
Zelensky vai estar lá em pessoa. O que muda isso?
Muda tudo. Deixa de ser abstrato. É uma pessoa, um país, uma guerra real. Torna a discussão mais urgente, mais humana. Os líderes têm de olhar nos olhos de quem está a sofrer.
The Pulse
- A presença de Zelensky em Bruxelas transforma a cimeira num momento de comprometimento simbólico e concreto: a Europa não debate a Ucrânia à distância, mas com o seu presidente na sala.
- O mecanismo de usar ativos russos congelados como garantia de um empréstimo de reparações é inédito e juridicamente complexo, criando tensão entre ambição política e cautela legal.
- 26 dos 27 Estados-membros alinham no reforço militar e no 19º pacote de sanções a Moscovo — mas a ausência recorrente da Hungria sublinha a fragilidade da unanimidade europeia.
- As metas climáticas para 2040 — uma redução de 90% das emissões — dividem os países antes de uma conferência da ONU no Brasil em novembro, ameaçando a imagem de coesão que a Europa quer projetar.
- Em Portugal, o luto pelo ex-primeiro-ministro Balsemão pode afastar Montenegro da cimeira, ilustrando como o imprevisível doméstico interfere sempre na geometria europeia.
Em Bruxelas, os líderes da União Europeia reúnem-se numa cimeira que condensa algumas das questões mais urgentes do nosso tempo: a sobrevivência de uma nação em guerra, o futuro do clima e as fraturas internas de um bloco que procura falar a uma só voz. Com Zelensky presente e ativos russos congelados como possível moeda de reconstrução, a Europa testa os limites da sua solidariedade — política, financeira e moral.
Bruxelas acolhe esta quinta-feira uma cimeira europeia de agenda densa, com os 27 líderes confrontados com dossiers que vão da guerra à crise climática. O ponto de abertura é o apoio à Ucrânia — e desta vez com Zelensky presente, confirmado por António Costa, presidente do Conselho Europeu.
No centro do debate está um mecanismo financeiro ainda sem precedente em larga escala: canalizar os saldos de caixa dos ativos russos congelados na UE para um empréstimo de reparações a Kiev. Os documentos preparatórios deixam claro que esses ativos só podem ser mobilizados enquanto a Rússia mantiver a guerra e não indemnizar a Ucrânia — e que o risco financeiro deve ser partilhado entre os Estados-membros. A Comissão Europeia deverá apresentar uma proposta formal em novembro, para aprovação em dezembro.
Vinte e seis países — excluindo a Hungria de Orbán, ausente de manhã por estar nas comemorações da Revolução de 1956 — vão reafirmar o reforço do apoio militar a Kiev, incluindo investimento direto na indústria de defesa ucraniana, e saudar o 19º pacote de sanções a Moscovo. O conflito israelo-palestiniano também entra na agenda, com foco no apoio a uma paz duradoura e à reconstrução de Gaza.
O dossiê mais fraturante poderá ser o das metas climáticas para 2040: a Comissão propõe uma redução de 90% das emissões líquidas face a 1990, mas os Estados-membros estão divididos. Com uma conferência da ONU sobre o clima marcada para novembro no Brasil, a Europa precisa de uma mensagem comum — e consegui-la entre 27 economias com interesses tão distintos é sempre uma equação difícil.
Do lado português, o primeiro-ministro Luís Montenegro cancelou a agenda por causa das cerimónias fúnebres de Francisco Pinto Balsemão. Se não chegar a tempo à cimeira, delegará a representação de Portugal — um procedimento habitual, mas que ilustra como o imprevisível nacional nunca deixa de cruzar o palco europeu.
Bruxelas reúne-se esta quinta-feira para uma cimeira que promete ser uma das mais densas do ano. Os 27 líderes europeus têm pela frente um calendário repleto: o financiamento da Ucrânia, as metas climáticas para 2040, a crise habitacional, competitividade e migrações. Mas é o apoio a Kiev que abre os trabalhos de manhã, e desta vez com um convidado de peso — o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky estará presente, conforme confirmou António Costa, presidente do Conselho Europeu.
A discussão sobre a Ucrânia não é meramente simbólica. Os líderes europeus vão explorar formas concretas de estabilizar o financiamento do país, nomeadamente através de um mecanismo que ainda não tinha sido testado em larga escala: usar os ativos russos congelados na União Europeia como garantia para um novo empréstimo de reparações. A ideia é que os saldos de caixa associados a esses bens imobilizados — recursos que a Rússia não consegue aceder — possam ser canalizados para ajudar Kiev a reconstruir e a financiar a sua defesa. Segundo o projeto de conclusões da cimeira, a Comissão Europeia foi instada a apresentar propostas concretas o mais rapidamente possível, baseadas numa avaliação rigorosa das necessidades de financiamento ucraniano. Bruxelas espera ter uma proposta sólida pronta em novembro, para que os líderes a aprovem formalmente em dezembro.
O mecanismo não é isento de complexidade jurídica. Os documentos preparatórios deixam claro que os ativos russos devem permanecer congelados enquanto a Rússia não cessar a guerra e não indemnizar a Ucrânia pelos danos causados. A utilização desses fundos deve ser acompanhada por uma solidariedade adequada e partilha de riscos entre os Estados-membros — uma forma de dizer que nenhum país fica sozinho com o risco financeiro.
Para além do financiamento, os 26 Estados-membros — a Hungria, mais uma vez, fica de fora — vão reafirmar a necessidade de intensificar o apoio militar e de defesa à Ucrânia. Isto inclui investimento direto na indústria de defesa ucraniana, um sinal de que a Europa está a preparar-se para um conflito de longa duração. O mesmo grupo de 26 vai também saudar a adoção do 19º pacote de sanções contra Moscovo. Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, só chegará à cimeira na quinta-feira à tarde, pois está a participar nas celebrações do 70º aniversário da Revolução Húngara de 1956 — uma ausência que, segundo fontes diplomáticas, foi comunicada há muito tempo.
Mas a Ucrânia não é o único conflito em cima da mesa. Os líderes vão debater também o conflito israelo-palestiniano, à luz do cessar-fogo em Gaza e da libertação de reféns. A discussão centrar-se-á em como a UE pode apoiar esforços para uma paz duradoura, ancorada na solução de dois Estados, e na reconstrução de Gaza.
O dossiê que promete gerar mais tensão, porém, é o das metas climáticas para 2040. A Comissão Europeia propõe uma redução de 90% das emissões líquidas de gases com efeito de estufa, em comparação aos níveis de 1990, como passo intermédio rumo à neutralidade climática em 2050. Os Estados-membros estão divididos sobre este rumo. A pressão é real: em novembro, há uma grande conferência da ONU sobre o clima no Brasil, e a Europa quer apresentar uma mensagem unida. Mas conseguir consenso entre 27 países com interesses económicos tão diversos é sempre um desafio.
Em Portugal, o primeiro-ministro Luís Montenegro cancelou toda a sua agenda até ao final das cerimónias fúnebres do ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, que decorrem até quinta-feira ao meio-dia. Se Montenegro não conseguir participar na cimeira, delegará a representação portuguesa noutro chefe de Estado ou de Governo — um procedimento comum quando circunstâncias imprevistas o exigem.
Notable Quotes
O nosso compromisso é inabalável. O nosso rumo é claro. Continuaremos a aumentar a pressão sobre a Rússia, reforçando simultaneamente a Ucrânia na busca da paz.— António Costa, presidente do Conselho Europeu