Num momento em que a Ucrânia combate pela sua sobrevivência, o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov levanta uma questão que transcende a estratégia militar: pode uma democracia adiar indefinidamente o seu próprio exercício sem trair aquilo que defende? Afastado do cargo em julho após apenas seis meses, Fedorov desafia publicamente Zelensky, argumentando que permitir que a guerra suspenda as eleições é, em si mesma, uma vitória para Putin. A proposta esbarra numa proibição constitucional clara, mas o seu verdadeiro peso é filosófico — é o lembrete de que a legitimidade do poder não sobrevive
Ex-ministro da Defesa ucraniano desafia Zelensky e pede eleições durante a guerra
Putin não pode decidir quando os ucranianos escolhem seu governo
Porque é que Fedorov insiste em eleições agora, quando o país está em guerra?
Porque acredita que adiar a democracia é ceder a Putin. Se a Ucrânia suspende eleições indefinidamente, o poder fica concentrado sem legitimidade democrática — exatamente o que estão a combater.
Mas não é perigoso ter instabilidade política durante uma guerra?
Talvez. Mas Fedorov argumenta que já há instabilidade — há corrupção, falta de responsabilização, divisões entre civis e militares. As eleições poderiam legitimizar o governo ou forçar mudanças necessárias.
A lei marcial proíbe eleições. Como é que ele contorna isso?
Não explica. Propõe um "mecanismo" legal, seguro e realista, mas não detalha. É mais um desafio ideológico do que um plano executável.
Porque foi removido do cargo?
Oficialmente, por conflito com o comando militar. Mas Fedorov nega isso. Diz que foram diferenças de visão sobre como conduzir a guerra. A verdade provavelmente está entre os dois — e a sua saída expôs divisões profundas no poder ucraniano.
Isto é uma crítica a Zelensky?
Sim, mas velada. Fedorov não o ataca diretamente. Fala de "crise de governação" e de corrupção. Mas a mensagem é clara: o presidente está a usar a guerra para evitar prestar contas.
O Pulso
- Um ex-ministro recém-afastado rompe o silêncio e acusa o governo ucraniano de atravessar uma crise de governação no pior momento possível.
- Fedorov contradiz a versão oficial da sua saída: não houve conflito pessoal com o comandante Syrskyi, mas sim divergências profundas sobre como conduzir a guerra.
- A proposta de realizar eleições durante o conflito colide diretamente com a lei marcial ucraniana, que proíbe expressamente qualquer votação enquanto o estado de guerra vigorar.
- O ex-ministro não apresenta um plano concreto, mas lança um desafio ideológico: a guerra não pode tornar-se pretexto permanente para suspender a democracia.
- A pressão interna expõe fissuras no aparelho político e militar ucraniano — e deixa em aberto se essa tensão forçará mudanças legais ou será absorvida pelo silêncio da guerra.
Num momento em que a Ucrânia combate pela sua sobrevivência, o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov levanta uma questão que transcende a estratégia militar: pode uma democracia adiar indefinidamente o seu próprio exercício sem trair aquilo que defende? Afastado do cargo em julho após apenas seis meses, Fedorov desafia publicamente Zelensky, argumentando que permitir que a guerra suspenda as eleições é, em si mesma, uma vitória para Putin. A proposta esbarra numa proibição constitucional clara, mas o seu verdadeiro peso é filosófico — é o lembrete de que a legitimidade do poder não sobrevive eternamente à ausência das urnas.
Pouco mais de um mês depois de deixar o ministério da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov tornou pública uma ideia que coloca diretamente em causa a liderança de Volodymyr Zelensky: realizar eleições enquanto a guerra contra a Rússia continua. Em vídeo divulgado esta terça-feira, o ex-ministro diagnosticou uma "crise de governação" e defendeu que não pode ser Putin a decidir quando os ucranianos escolhem o seu governo.
A saída de Fedorov em julho foi abrupta — comunicada menos de uma hora após uma reunião parlamentar do partido Servo do Povo. Zelensky invocou tensões com o comandante militar Oleksandr Syrskyi. Fedorov rejeita essa leitura: segundo ele, não existia conflito pessoal, mas sim diferenças fundamentais de visão sobre a condução da guerra, e o ministério nunca bloqueou decisões das Forças Armadas.
No centro da sua argumentação está uma ideia incómoda: a democracia não é um luxo a adiar para o pós-guerra — é precisamente o que a Ucrânia afirma estar a defender. Sem eleições, o país arrisca consolidar uma estrutura de poder sem legitimidade, espelho daquilo que combate. A corrupção e a falta de responsabilização, insiste Fedorov, são urgências do presente, não do futuro.
O obstáculo é constitucional e imediato: a lei marcial ucraniana proíbe expressamente eleições presidenciais, parlamentares e locais enquanto o conflito durar. Fedorov reconhece a barreira e propõe criar um mecanismo legal que a contorne — mas não detalha como. A sua intervenção funciona, por isso, menos como um plano e mais como um desafio ideológico, expondo divisões profundas que a sua própria demissão já havia deixado à superfície.
Mykhailo Fedorov saiu do ministério da Defesa ucraniano há pouco mais de um mês, e desde então tem ocupado seu tempo com uma ideia que desafia diretamente o presidente Volodymyr Zelensky: realizar eleições enquanto a guerra contra a Rússia continua. Numa mensagem em vídeo divulgada esta terça-feira, o ex-ministro argumentou que a Ucrânia enfrenta uma "crise de governação" e que o país não pode permitir que Vladimir Putin determine quando os seus cidadãos têm o direito de escolher quem os governa.
Fedorov foi removido do cargo em julho, após apenas seis meses à frente da pasta. A saída foi abrupta — comunicada menos de uma hora depois de uma reunião do partido Servo do Povo no parlamento. Zelensky apontou tensões com Oleksandr Syrskyi, o comandante militar, como uma das razões para a mudança. Mas Fedorov contesta essa narrativa. Segundo o ex-ministro, não havia conflito pessoal com Syrskyi, mas sim diferenças fundamentais sobre como conduzir a guerra. "Foi mais um conflito em termos de pontos de vista", explicou, reiterando que o ministério da Defesa nunca bloqueou decisões das Forças Armadas ou do líder supremo.
A proposta de Fedorov toca num ponto sensível da política ucraniana. Ele defende que a democracia não é um luxo a ser adiado até ao fim da guerra — é, na verdade, parte daquilo que a Ucrânia está a defender contra a invasão russa. Sem eleições, argumenta, o país corre o risco de consolidar uma estrutura de poder sem legitimidade democrática, exatamente o tipo de governo que Putin representa. A corrupção e a falta de responsabilização no poder, segundo Fedorov, são problemas que precisam ser enfrentados agora, não depois.
Mas há um obstáculo legal imediato que torna a proposta praticamente impossível de implementar. A legislação ucraniana proíbe expressamente a realização de eleições presidenciais, parlamentares e locais enquanto vigorar a lei marcial — e a lei marcial continua em vigor enquanto o conflito prossegue. Não é uma questão de vontade política ou de debate público. É uma barreira legal clara, inscrita na própria constituição do país.
Fedorov reconhece o problema e propõe uma solução: criar um mecanismo legal, seguro e realista que permita contornar essa proibição. Mas não detalha como. A sua intervenção, portanto, funciona menos como um plano concreto e mais como um desafio ideológico a Zelensky — uma afirmação de que a guerra não pode ser usada como pretexto para suspender indefinidamente os direitos democráticos. A proposta expõe divisões profundas no aparelho político e militar ucraniano, divisões que a remoção de Fedorov já tinha deixado à vista. O que vem a seguir dependerá de se essa pressão interna consegue forçar uma mudança na lei ou se a guerra continua a servir como justificação para adiar o retorno às urnas.
Citações Notáveis
Não podemos deixar que Putin decida quando os ucranianos podem escolher o seu governo— Mykhailo Fedorov
Foi mais um conflito em termos de pontos de vista. Nós, como Ministério da Defesa, não bloqueámos quaisquer decisões das Forças Armadas ou do líder— Mykhailo Fedorov