Antes de agir, as grandes potências costumam construir coalizões e buscar legitimidade — Donald Trump ignorou esse ritual e interveio no Oriente Médio sem alianças sólidas. Seis meses depois, o Irã resiste e contra-ataca, o Estreito de Hormuz permanece bloqueado, e o acordo com o Hamas naufragou por veto de Netanyahu. O presidente americano, que prometia ordem, encontrou-se preso no caos que ajudou a fabricar.
Trump se enreda no caos que criou no Oriente Médio
Trump pulou a parte das conversas nos corredores
Por que Trump não seguiu o padrão histórico de buscar apoio antes de agir?
Porque ele opera por instinto e por narrativa de força. Consultar aliados, construir consenso — isso parecia fraqueza para ele. Ele queria um golpe rápido, uma vitória clara. Não funcionou.
O Irã realmente ficou mais forte, ou apenas não desabou?
Não desabou. Mas em geopolítica, não desabar quando todos esperam que você desabe é uma forma de vitória. O Irã respondeu, manteve suas linhas de suprimento abertas, bloqueou o Estreito de Hormuz. Mostrou que não era um adversário que poderia ser intimidado.
E o cessar-fogo que terminou na segunda? Era real?
Era um teatro. Ambos os lados o violaram. Serviu apenas para ganhar tempo e criar a ilusão de que algo estava sendo resolvido. Quando expirou, nada tinha mudado.
Netanyahu rejeitou o acordo de Trump. Isso não deveria ser humilhante?
Deveria, mas Trump não pode dizer isso publicamente. Precisa de Israel como aliado. Então fica em silêncio enquanto Ben-Gvir fala em assassinatos seletivos e expulsões. É a dinâmica do poder — quem precisa de quem determina quem pode falar.
Essas ameaças de guerra econômica funcionam?
Não. Apenas convencem os outros de que precisam se preparar para um mundo sem os EUA. Irã, China, Rússia — todos começam a construir alternativas. No longo prazo, isso enfraquece ainda mais a posição americana.
The Pulse
- O Irã, dado como enfraquecido, demonstrou capacidade de contra-ataque muito além do que Washington havia calculado, derrubando a narrativa de vitória que Trump tentou vender em abril.
- O bloqueio do Estreito de Hormuz pressiona os preços globais de energia e alimenta a inflação, tornando o conflito regional uma crise sentida em carteiras ao redor do mundo.
- O cessar-fogo de 60 dias expirou sendo violado por ambos os lados, e o acordo Israel-Hamas desmoronou quando Netanyahu rejeitou o mesmo texto que o Hamas havia aceitado.
- Sem parceiros regionais e sem diplomacia funcional, Trump recorreu a ameaças de 'guerra econômica sem precedentes' — um gesto que ressoa em comícios, mas aprofunda o isolamento americano no cenário internacional.
- Ministros israelenses de extrema-direita defendem publicamente assassinatos seletivos e expulsão em massa de palestinos em Gaza, sem reprimenda de Tel Aviv nem de Washington.
Antes de agir, as grandes potências costumam construir coalizões e buscar legitimidade — Donald Trump ignorou esse ritual e interveio no Oriente Médio sem alianças sólidas. Seis meses depois, o Irã resiste e contra-ataca, o Estreito de Hormuz permanece bloqueado, e o acordo com o Hamas naufragou por veto de Netanyahu. O presidente americano, que prometia ordem, encontrou-se preso no caos que ajudou a fabricar.
A história das grandes potências no Oriente Médio costuma exigir, antes de qualquer ação militar, a construção paciente de coalizões e a aparência de legitimidade. Donald Trump pulou essa etapa — e agora colhe as consequências.
Seis meses após os primeiros ataques americanos e israelenses, o Irã não apenas sobreviveu como respondeu com força muito maior do que Washington havia previsto. A tentativa de Trump de declarar vitória em abril não convenceu ninguém, e a janela para um acordo real que contivesse o programa nuclear iraniano se fechou sem que fosse aproveitada. O Estreito de Hormuz permanece bloqueado, comprimindo o mercado global de petróleo e empurrando a inflação para cima em países que nada têm a ver com o conflito.
O cessar-fogo de 60 dias encerrado em 17 de agosto foi violado repetidamente por ambos os lados. Ataques iranianos e de seus aliados no Iraque e no Iêmen contra bases americanas em solo árabe já haviam deixado claro, antes mesmo da rejeição formal da proposta da Casa Branca por Teerã, que a estratégia de Washington havia fracassado. A resposta de Trump foi anunciar uma 'guerra econômica sem precedentes' e ameaçar qualquer país que negociasse com o Irã — um movimento de efeito retórico que, na prática, apenas aprofunda o isolamento americano.
No front israelense-palestino, o quadro é igualmente sombrio. Trump apresentou um acordo de paz que o Hamas aceitou e Netanyahu rejeitou. O primeiro-ministro israelense não repreendeu publicamente seu ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que defendeu assassinatos seletivos de dezenas de palestinos por noite em Gaza e a expulsão em massa da população local. A Casa Branca também silenciou. Israel prefere manter o frágil cessar-fogo atual — que não resolve nada, mas permite que as operações continuem.
O que emerge é o retrato de um presidente enredado em uma armadilha de sua própria criação, cujas ferramentas — ameaças econômicas, pressão diplomática vaga, alianças frágeis — parecem calibradas para agravar o caos, não para contê-lo.
A história das grandes potências no Oriente Médio costuma seguir um roteiro previsível: antes de enviar tropas, antes de disparar a primeira bomba, há conversas nos corredores, telefonemas para aliados, construção cuidadosa de uma coalizão que ao menos pareça legítima. Donald Trump pulou essa parte.
O que se viu nos últimos meses foi um presidente que inflamou ainda mais uma região já à beira do colapso, depois descobriu que não tinha parceiros suficientes para consertar o estrago. Seis meses após os primeiros ataques americanos e israelenses, o Irã não apenas sobreviveu — respondeu. Sua capacidade de contra-ataque provou ser muito maior do que Washington havia calculado. Em abril, Trump tentou declarar vitória. Ninguém acreditou. Ele perdeu a chance de negociar um acordo real que pudesse ao menos conter o programa nuclear iraniano e restaurar alguma estabilidade na região.
O cessar-fogo de 60 dias que terminou na segunda-feira 17 de agosto foi violado repetidamente pelos dois lados. Mas o que permanece é mais grave: o Irã continua bloqueando o Estreito de Hormuz, um dos pontos mais críticos do comércio global de petróleo. O resultado é previsível e já está sendo sentido em carteiras pelo mundo afora — insegurança energética, inflação pressionada para cima pelos preços do combustível. Mesmo antes de Teerã rejeitar a proposta de acordo da Casa Branca, ataques iranianos e de seus aliados no Iraque e no Iêmen contra bases militares americanas em solo árabe deixaram claro que a estratégia de Washington havia fracassado.
Recusando-se a reabrir negociações diplomáticas, Trump anunciou na quarta-feira 19 de agosto uma "guerra econômica sem precedentes" contra o Irã e fez ameaças vagas contra qualquer país que ousasse fazer negócios com Teerã. É o tipo de movimento que funciona bem em um comício, mas que no mundo real apenas aprofunda o isolamento americano.
A situação com Israel e o Hamas é igualmente deprimente. Trump desenhou um acordo de paz que o Hamas aceitou e Benjamin Netanyahu rejeitou no início do mês. O primeiro-ministro israelense não repreendeu publicamente Itamar Ben-Gvir, seu ministro de Segurança Nacional e figura de extrema-direita, que em entrevista recente defendeu assassinatos seletivos de 30 a 40 palestinos por noite em Gaza, construção de novos assentamentos israelenses e expulsão em massa da população local. A Casa Branca também não protestou publicamente contra essa propaganda funesta, apesar do acordo ter sido rejeitado. O que Israel prefere é manter o frágil cessar-fogo atual, que não resolve nada mas permite que as operações continuem.
O quadro que emerge é de um presidente preso em uma armadilha de sua própria criação. Suas receitas para sair do caos — ameaças econômicas, pressão diplomática vaga, alianças frágeis — parecem destinadas a piorar ainda mais a situação. O mundo está procurando saídas, alternativas, qualquer coisa que traga alguma estabilidade. Mas enquanto Trump estiver na Casa Branca, essas soluções não virão de Washington.
Notable Quotes
Guerra econômica sem precedentes contra o Irã e ameaças contra países que façam transações com Teerã— Donald Trump, 19 de agosto
Defesa de assassinatos seletivos de 30 a 40 palestinos por noite, instalação de assentamentos e emigração em massa da população local— Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel