Desde 2015, a International Women's Media Foundation documenta um padrão sistemático: quando confrontado por jornalistas mulheres, Donald Trump recorre a insultos sobre aparência, inteligência e comportamento — linguagem que raramente dirige a colegas homens. Com 33 episódios registrados e 17 apenas em 2026, o fenômeno ultrapassa o estilo pessoal e revela uma estratégia que, ao desviar o foco da pergunta, silencia vozes e molda quem, afinal, narra o poder.
Trump concentra ataques pessoais em mulheres jornalistas, aponta monitor
Esse comportamento está se normalizando e sendo descartado
Por que a IWMF decidiu criar um monitor específico para isso? Parecia haver ataques isolados, não um padrão.
Exatamente. Muñoz percebeu que quando você vê cada episódio sozinho, parece apenas Trump sendo Trump — uma resposta áspera a uma pergunta que o incomodou. Mas quando você junta 33 casos desde 2015, e vê que 17 deles aconteceram apenas em 2026, fica claro que há algo sistemático acontecendo.
Mas como você prova que é misógino e não apenas Trump sendo agressivo com jornalistas em geral?
Porque eles documentaram a diferença. Quando Trump é confrontado por jornalistas homens com perguntas incômodas, ele raramente recorre a insultos pessoais sobre aparência ou inteligência. Com mulheres, é diferente.
E qual é o impacto real disso? Além do incômodo de ser insultado publicamente?
Pesquisas mostram que mulheres jornalistas que são atacadas publicamente sofrem mais assédio online, praticam autocensura, reduzem sua presença nas redes sociais e precisam de medidas de segurança adicionais.
Essas pesquisas são da IWMF ou de outras organizações?
A IWMF cita pesquisas anteriores que ela mesma conduziu. Eles têm dados sobre o que acontece depois dos ataques.
Então o risco é que isso se torne normal?
Sim. Se você vê Trump atacando mulheres jornalistas repetidamente e ninguém o responsabiliza, eventualmente as pessoas começam a achar que é só parte de como ele funciona.
E a proibição de CNN, MSNBC e Politico na Casa Branca — isso foi dirigido especificamente às mulheres jornalistas ou foi uma medida geral?
Foi uma medida geral contra os veículos, mas o padrão de ataques pessoais que a IWMF documenta é claramente direcionado às mulheres.
O Pulso
- Trump chamou repórteres de 'péssimas', questionou por que não sorriam e pediu que fossem punidas por órgãos reguladores — ataques que a IWMF classifica como misóginos e que se intensificaram em 2026, com 17 ocorrências em menos de um ano.
- A diferença é documentada: insultos pessoais como 'você é idiota' são raros quando o alvo é um jornalista homem, enquanto para mulheres o ataque frequentemente mira aparência e inteligência, não o conteúdo da pergunta.
- Em metade dos casos registrados, as jornalistas atacadas eram mulheres não brancas, revelando uma sobreposição de misoginia e racismo que amplifica a vulnerabilidade das profissionais.
- As consequências são concretas: assédio online, autocensura, redução da presença em redes sociais e adoção de medidas de segurança — efeitos que afetam não apenas as jornalistas, mas a própria diversidade da cobertura noticiosa.
- A IWMF criou o monitor 'On The Record' justamente para impedir que episódios isolados sejam normalizados como 'só o Trump sendo Trump', expondo o padrão acumulado e seus danos estruturais à liberdade de imprensa.
Desde 2015, a International Women's Media Foundation documenta um padrão sistemático: quando confrontado por jornalistas mulheres, Donald Trump recorre a insultos sobre aparência, inteligência e comportamento — linguagem que raramente dirige a colegas homens. Com 33 episódios registrados e 17 apenas em 2026, o fenômeno ultrapassa o estilo pessoal e revela uma estratégia que, ao desviar o foco da pergunta, silencia vozes e molda quem, afinal, narra o poder.
Donald Trump chamou repórteres de 'péssimas', perguntou por que não sorriam e chegou a pedir que uma fosse 'repreendida ou punida' pela Comissão Federal de Comunicações. Frases como essas, disparadas em diferentes ocasiões, compõem um padrão que a International Women's Media Foundation (IWMF) documenta desde 2015 por meio do monitor On The Record. Desde então, foram registradas 33 ocorrências — 17 apenas em 2026. Em metade dos casos, as alvos eram mulheres não brancas.
A diferença em relação ao tratamento dispensado a jornalistas homens é central para a análise da organização. Segundo Elisa Lees Muñoz, presidente da IWMF, insultos pessoais como 'você é idiota' são raros quando o interlocutor é do sexo masculino. Com mulheres, os ataques frequentemente abandonam o conteúdo jornalístico e miram aparência, inteligência ou comportamento. Para Muñoz, trata-se de uma estratégia deliberada: usar estereótipos misóginos para desviar o foco da pergunta feita ao presidente.
O monitor nasceu justamente da percepção de que episódios isolados eram noticiados sem que se enxergasse o conjunto. A IWMF passou a registrar também qual pergunta havia sido feita antes de cada ataque, documentando que as profissionais estavam simplesmente exercendo seu trabalho. A próxima etapa do projeto pretende investigar o que acontece com essas jornalistas depois de serem publicamente atacadas.
As consequências já conhecidas são sérias: aumento do assédio online, autocensura, redução da presença em redes sociais e adoção de medidas adicionais de segurança. Para Muñoz, os efeitos vão além das indivíduas atingidas e afetam a representação na imprensa e a diversidade de quem reporta as notícias. 'Esse comportamento está se normalizando e sendo descartado como: ah, é só o Trump sendo Trump', alertou. 'Parte da razão pela qual estamos fazendo isso é justamente para não normalizar esse comportamento e mostrar o quanto ele pode ser prejudicial.'
Donald Trump chamou uma repórter de "péssima". Disse a outra que ela e sua rede eram "os piores". Descreveu uma terceira como "uma pessoa pouco atraente por dentro e por fora" e a acusou de ser "perseguidora". Perguntou repetidamente a uma jornalista por que ela não sorria. Pediu que outra fosse denunciada à Comissão Federal de Comunicações para ser "repreendida ou punida".
Essas frases, disparadas em diferentes ocasiões contra profissionais da imprensa, compõem um padrão que a International Women's Media Foundation (IWMF), organização baseada em Washington, vem documentando desde 2015. A entidade acompanha o que classifica como ataques misóginos de Trump e membros de seu governo contra mulheres jornalistas através de um monitor chamado On The Record. Desde então, foram registradas 33 ocorrências. Apenas em 2026, foram 17. Em metade dos casos, os alvos eram mulheres não brancas. Os ataques variam de respostas ásperas durante entrevistas a publicações em redes sociais que fazem referência à aparência, inteligência ou comportamento das profissionais.
Na sexta-feira 18 de setembro, Trump anunciou que CNN, MSNBC e Politico estariam proibidos de acessar a Casa Branca. A medida, dirigida aos veículos, afetaria jornalistas homens e mulheres. O presidente justificou a decisão acusando, sem apresentar provas, as organizações de publicar notícias falsas, e disse depois que outros veículos também poderiam ser barrados. Quando questionado por uma repórter se tentava intimidar a imprensa, Trump negou. "Não, não, não", respondeu, antes de atacar a própria jornalista: "Eu não gosto de imprensa desonesta como você. Acho você péssima." O presidente afirmou ainda que acredita ter o direito de manter determinados veículos afastados caso considere que publiquem informações falsas repetidamente.
Para Elisa Lees Muñoz, presidente da IWMF, existe uma diferença clara na forma como Trump reage a jornalistas homens e mulheres quando é confrontado com perguntas que não lhe agradam. Ao analisar episódios envolvendo homens, a organização encontrou apenas "um punhado" de ocasiões em que Trump recorreu a insultos pessoais como "você é idiota" ou "você é burro". "Esse tipo de linguagem pessoal é muito raro", afirmou Muñoz. A IWMF começou a acompanhar os episódios porque percebeu, ainda no primeiro mandato de Trump, que muitos dos ataques contra mulheres não se limitavam ao conteúdo de suas reportagens ou perguntas, mas também à aparência delas e a questionamentos sobre sua inteligência. Muñoz avalia que os insultos funcionam como uma estratégia para tirar o foco da pergunta feita ao presidente. "Eu acho que é uma estratégia, e a maneira como ele a executa é usando esses estereótipos misóginos", afirmou.
O padrão levou a organização a criar o monitor. Muñoz afirma que episódios desse tipo costumavam ser noticiados isoladamente, sem que se observasse o conjunto. "Para nós, a história é muito mais profunda. Queríamos mostrar esse padrão", disse. A IWMF também passou a registrar qual pergunta havia sido feita imediatamente antes de cada ataque, documentando que as mulheres estavam simplesmente fazendo seu trabalho. A organização pretende agora avançar para uma segunda etapa do projeto, dedicada a estudar o que acontece com as jornalistas depois que são citadas ou atacadas publicamente. Pesquisas anteriores da IWMF mostram aumento do assédio online após mulheres jornalistas se tornarem alvo de ataques públicos.
As consequências vão além do assédio. Estudos analisados pela organização encontraram casos de autocensura, redução da presença nas redes sociais e adoção de medidas adicionais de segurança após episódios de ataque. "Há implicações sérias não apenas para as próprias jornalistas, mas também para a representação na imprensa e para quem acaba reportando as notícias", afirmou Muñoz. A repetição dos episódios cria ainda o risco de que eles passem a ser vistos apenas como parte do estilo político de Trump. "Esse comportamento está se normalizando e sendo descartado como: 'Ah, é só o Trump sendo Trump'", afirmou. "Parte da razão pela qual estamos fazendo isso é justamente para não normalizar esse comportamento e mostrar o quanto ele pode ser prejudicial."
Citações Notáveis
Esse tipo de linguagem pessoal é muito raro— Elisa Lees Muñoz, presidente da IWMF, sobre insultos pessoais de Trump contra jornalistas homens
Para nós, a história é muito mais profunda. Queríamos mostrar esse padrão— Elisa Lees Muñoz, explicando por que a IWMF criou o monitor