Trump ameaça soberania da América Latina com ações militares diretas, alerta jornalista

Deus os livre de cair no lado errado de Trump
Anderson descreve o risco existencial que líderes latino-americanos enfrentam ao dependerem da aprovação de um presidente impulsivo.
Mark

Por que Anderson acha que Trump representa uma ameaça maior à democracia do que os líderes de esquerda que ele passou décadas cobrindo?

Mimi

Porque Trump coloca sua personalidade e interesses acima dos da nação — e tem o poder militar e econômico para impor isso. Chávez, Castro, Maduro eram autoritários, mas operavam dentro de suas fronteiras. Trump está usando a hegemonia americana para remodelar toda uma região.

Luke

Mas Anderson está especulando sobre ações militares futuras, certo? Ele diz que veremos ação militar direta, mas isso ainda não aconteceu. É previsão, não fato.

Mimi

Verdade. Mas ele está falando com base em 40 anos observando padrões de poder na região. E há sinais: Pete Hegseth no Pentágono, a retórica sobre narcotráfico como justificativa.

Mark

E quanto a Cuba? Anderson parece dizer que não há saída no curto prazo.

Mimi

Exatamente. Raúl Castro ainda vive, Díaz-Canel é fraco, o neto que negociava foi isolado. Os EUA estão deixando quieto até depois das eleições de meio de mandato. Depois disso, tudo pode mudar — ou piorar.

Luke

Mas Anderson admite que não sabe o que Maduro fará. Ele descarta a ideia de que Maduro delataria Lula, mas diz "qualquer coisa é possível". Isso é especulação.

Mimi

Sim, mas é especulação informada. Ele entrevistou Noriega na prisão, comparou os dois. Noriega não delatou ninguém mesmo enfrentando prisão perpétua. Anderson está dizendo que Maduro parece ser do mesmo tipo.

Mark

E a crítica à esquerda? Parece que Anderson está dizendo que a esquerda fracassou.

Mimi

Ele está dizendo que a esquerda se aglutinou em torno de homens fortes sem construir alternativas social-democratas coesas. Lula e Mujica chegaram perto, mas foram exceções. O resto foi disperso.

Luke

Mas isso é uma análise política, não reportagem. Anderson está dando sua opinião sobre por que a direita está vencendo.

Mimi

Verdade. Mas é a opinião de alguém que passou 40 anos no terreno, vendo essas dinâmicas se desenrolar. Não é especulação vazia.

  • Anderson prevê ações militares americanas diretas em países latino-americanos sob pretexto de combate ao narcotráfico
  • Raúl Castro tem 95 anos e ainda funciona como líder supremo de Cuba; Miguel Díaz-Canel é descrito como figura apagada
  • Negociações entre EUA e Raulito (neto de Raúl) foram enfraquecidas por leais linha-dura dentro do regime cubano
  • Anderson identifica Lula e Pepe Mujica como líderes de esquerda que mais representaram pragmatismo social-democrata na região

Anderson prevê ações militares americanas diretas em países da América Latina sob pretexto de combate ao narcotráfico, ameaçando a soberania das nações. Políticos latino-americanos usam relação com EUA oportunisticamente, mas correm risco de sofrer retaliações se caírem no lado errado de Trump.

Jornalista Jon Lee Anderson alerta que Trump representa maior ameaça à democracia americana e que a região enfrenta risco de intervenção militar direta dos EUA, moldando líderes em busca de aprovação presidencial.

Jon Lee Anderson tem passado quatro décadas observando a América Latina — como correspondente, biógrafo de Che Guevara, cronista de revoluções e quedas de poder. Quando fala sobre o que vê agora, sua preocupação é clara: o continente inteiro está suspenso numa espécie de limbo, à mercê de um presidente americano que colocou sua própria personalidade acima dos interesses da nação.

Anderson, repórter da revista The New Yorker desde 1998, diz que o maior dano à democracia hoje vem de Donald Trump. Não é uma afirmação feita de leve. É a conclusão de alguém que passou meses vivendo entre os personagens que moldaram a política latino-americana — Fidel Castro, Hugo Chávez, Gabriel García Márquez. Ele viu de perto como homens fortes constroem poder, como o mantêm, como o perdem. E agora vê algo diferente acontecendo: uma potência hegemônica usando sua força de forma cada vez mais impulsiva, sem as restrições que costumavam conter o poder presidencial americano.

O que preocupa Anderson mais imediatamente é a possibilidade de ação militar americana direta em diferentes países da região, supostamente contra o narcotráfico. Essa ameaça à soberania nacional — a ideia de que um país pode simplesmente invadir outro porque decidiu que é necessário — representa uma ruptura com o princípio de igualdade entre nações que, por imperfeito que fosse, ainda orientava as relações internacionais. Até o Canadá, diz Anderson, está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte. A mensagem é clara: ninguém está seguro de estar no lado certo de Trump.

Os líderes latino-americanos, segundo Anderson, estão moldando seu comportamento em busca da aprovação presidencial americana. Alguns usaram essa relação de forma oportunista, buscando benefício próprio. Mas há um risco existencial nessa estratégia: cair no lado errado de Trump pode significar qualquer coisa. Ele poderia decidir que alguém é narcotraficante e vir buscá-lo. Poderia, através de Elon Musk, despejar centenas de milhões de dólares para afetar uma eleição. Poderia instrumentalizar as redes sociais contra um líder incômodo. O que antes era uma relação entre nações soberanas virou uma dinâmica de poder bruto, onde a vontade de um homem substitui a lei.

Anderson também reflete sobre Cuba, onde a situação é particularmente frágil. Raúl Castro, aos 95 anos, ainda funciona como líder supremo — uma figura com aura quase espiritual para os cubanos mais velhos, mesmo que fisicamente frágil. Miguel Díaz-Canel, o presidente oficial, é descrito como uma figura apagada, um homem de partido sem os poderes plenos que Fidel teve. A ilha depende quase inteiramente dos Estados Unidos para alimentos, combustível e remessas de dinheiro. O bloqueio americano, agora explícito e brutal, tem sido terrível para os cubanos nos últimos nove meses. Houve negociações entre os EUA e um neto de Raúl, Raulito, que parecia disposto a fazer negócios. Mas a posição dele foi enfraquecida pelos leais linha-dura dentro do regime, e os políticos cubano-americanos de Miami deixaram claro que não negociarão com nenhum Castro. O resultado é um impasse: ninguém pode agir, ninguém quer ceder, e a ilha fica cada vez mais vulnerável.

Mas Anderson vê um problema ainda mais profundo: a esquerda progressista latino-americana falhou. Ela se aglutinou em torno de homens fortes — Ortega, os Castro, Maduro, Chávez — sem criticá-los pelos excessos em liberdades civis e corrupção. Não construiu alternativas social-democratas coesas, pragmáticas, que combinassem capitalismo com um Estado forte que cuida dos necessitados. Lula e Pepe Mujica chegaram perto dessa ideia. Claudia Sheinbaum no México está numa posição difícil, fazendo fronteira com os EUA. Gabriel Boric no Chile fez uma tentativa valente em seus quatro anos como jovem líder. Gustavo Petro na Colômbia, na visão de Anderson, desperdiçou suas possibilidades pelo próprio comportamento. Essas foram tentativas dispersas e separadas que nunca se aglutinaram numa força coerente.

Enquanto isso, a direita populista está tomando conta. É reacionária, antielitista, contra a elite intelectual e educada — e é isso que assusta. Não há, em lugar nenhum da América Latina, uma esquerda liberal democrática coesa, unificada, forte, fácil de visualizar. Enquanto na direita existe Trump, existe o MAGA, existe uma narrativa clara. Anderson não sabe quem substituirá Trump se um democrata vencer — poderia ser Gavin Newsom, alguém que parece ter saído de Hollywood, ou Alexandria Ocasio-Cortez, uma socialista democrata. Mas o que ele sabe é que o continente enfrenta um tempo interessante e muito preocupante, onde a esquerda ainda não encontrou seu caminho e a direita avança com clareza de propósito.

O maior dano à democracia hoje é feito e liderado por ninguém menos que Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos
— Jon Lee Anderson
A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do respeito à soberania entre as nações
— Jon Lee Anderson
Vuoi la storia completa? Leggi l'originale su BBC ↗
Contattaci Domande frequenti