Trump abre caminho para caçar lobos quase extintos, irritando conservacionistas

A medida ameaça populações de lobos que quase foram extintas historicamente, impactando o equilíbrio ecológico e a biodiversidade.
Transformar proteções em ferramenta de controle político
Crítica de conservacionista sobre a verdadeira motivação por trás da ordem executiva de Trump.
Mark

Por que Trump está fazendo isso agora? Parece que os lobos estão se recuperando bem.

Mimi

A pressão vem dos pecuaristas. Eles dizem que os lobos matam gado, e Trump está respondendo a esse setor. Mas há algo mais — é também sobre redefinir como a Lei de Espécies Ameaçadas funciona.

Luke

Espera aí. Os pecuaristas já recebem compensação de 100% pelas perdas confirmadas. Então qual é realmente o problema deles?

Mimi

Eles querem poder controlar a população de lobos diretamente, não apenas ser compensados. É uma questão de poder sobre a terra.

Mark

E quanto aos números? 7,6 mil lobos-cinzentos parece pouco ainda.

Luke

É pouco. Mas a questão técnica é: eles atingiram os critérios de recuperação estabelecidos pela lei? Isso não está claro no que foi divulgado.

Mimi

Os conservacionistas dizem que não. Mas a administração tem 90 dias para fazer essa determinação, e eles controlam a agência que fará.

Mark

Então é praticamente decidido?

Luke

Não necessariamente. Há precedente de tribunais revertendo essas decisões. Mas sim, a trajetória parece clara.

Mimi

E há algo maior acontecendo — três outras mudanças na Lei de Espécies Ameaçadas foram finalizadas em julho. Isso não é apenas sobre lobos.

Mark

Qual é o impacto real disso tudo?

Luke

Depende se os tribunais intervêm novamente. Mas se não intervierem, você está olhando para um enfraquecimento significativo de 50 anos de proteção ambiental.

  • Com apenas 317 lobos-mexicanos estimados em todo o território continental, qualquer flexibilização nas proteções pode empurrar a espécie para um ponto sem retorno.
  • Pecuaristas pressionam o governo há anos, mas programas já existentes compensam até 100% das perdas por ataques confirmados — tornando a urgência da medida politicamente questionável.
  • Durante o anúncio na Sala Oval, o próprio Trump demonstrou desconhecimento dos detalhes da ordem que assinou, perguntando se os lobos já poderiam ser abatidos imediatamente.
  • A ordem executiva se soma a três novas normas aprovadas em julho que enfraquecem a Lei de Espécies Ameaçadas, incluindo a eliminação da proteção de habitat como critério de 'dano'.
  • Conservacionistas alertam que o processo de 90 dias é apenas o prelúdio para que estados autorizem caça em larga escala, revertendo décadas de esforços de restauração ecológica.

Ao longo de séculos, o lobo foi sistematicamente eliminado do território norte-americano; sua lenta reabilitação tornou-se símbolo de que a humanidade pode reparar o que destruiu. Agora, o governo Trump emitiu uma ordem executiva que abre um prazo de 90 dias para reavaliar as proteções legais do lobo-cinzento e do lobo-mexicano, espécies que ainda carregam as marcas de quase extinção. A medida, apresentada como alívio para pecuaristas, reacende um debate antigo sobre o peso que interesses econômicos devem ter sobre o destino de outras formas de vida.

A Casa Branca assinou uma ordem executiva estabelecendo um prazo de 90 dias para que agências federais avaliem se o lobo-cinzento e o lobo-mexicano já se recuperaram o suficiente para perder suas proteções sob a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção. Se a resposta for positiva, o governo iniciará o processo de retirá-los da lista — abrindo caminho para que estados autorizem sua caça.

O peso histórico da decisão é considerável. Antes da colonização europeia, estima-se que pelo menos 250 mil lobos habitavam os Estados Unidos. Campanhas de extermínio que se estenderam até o século 20 reduziram essa população a números próximos de zero. A recuperação foi lenta: hoje existem cerca de 7,6 mil lobos-cinzentos no território continental, enquanto o lobo-mexicano conta com apenas 317 indivíduos — tornando-o um dos mamíferos mais ameaçados do continente.

A medida foi apresentada como resposta às queixas de pecuaristas sobre perdas de gado. No entanto, programas estaduais e federais já compensam até 100% dessas perdas em casos de ataques confirmados. Para o Sierra Club, a ação é uma manobra política que não resolverá problemas econômicos reais das famílias americanas.

Não é a primeira vez que Trump tenta esse caminho: em seu primeiro mandato, removeu o lobo-cinzento da lista de protegidos, mas a decisão foi revertida judicialmente em 2022. Desta vez, a ordem inclui também o lobo-mexicano. Paralelamente, o governo já finalizou três normas que enfraquecem a própria lei de proteção, eliminando critérios históricos como a destruição de habitat e permitindo que considerações econômicas influenciem a designação de áreas críticas. Para conservacionistas, o que está em jogo não é apenas o futuro de dois predadores, mas o equilíbrio dos ecossistemas que dependem deles.

A Casa Branca de Donald Trump acaba de abrir caminho para a caça de lobos que, há poucas décadas, estavam à beira do desaparecimento total nos Estados Unidos. Numa ordem executiva emitida na semana passada, o presidente estabeleceu um prazo de 90 dias para que agências federais determinem se o lobo-cinzento e o lobo-mexicano já se recuperaram o suficiente para perder suas proteções legais sob a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção. Se essa avaliação concluir que sim, o governo iniciará o processo de remover essas espécies da lista de proteção — abrindo a porta para que estados autorizem sua caça em larga escala.

A medida foi apresentada como um alívio para pecuaristas que reclamam de perdas de gado causadas por predadores. Durante um evento na Sala Oval com representantes do setor agropecuário, Trump pareceu não compreender completamente os detalhes de sua própria ordem, perguntando se os lobos já poderiam ser disparados naquele momento. Brooke Rollins, secretária da Agricultura, corrigiu-o com uma brincadeira, sugerindo que o secretário de Energia teria de "fazer um pouco de mágica" para acelerar o processo.

O contexto histórico torna essa decisão particularmente significativa. Estima-se que antes da colonização europeia, pelo menos 250 mil lobos percorriam o território norte-americano de costa a costa. Campanhas sistemáticas de extermínio, que se estenderam até o século 20, reduziram essa população a números próximos de zero. A recuperação foi lenta e custosa. Atualmente, o Centro de Conservação de Lobos estima cerca de 7,6 mil lobos-cinzentos no território continental dos Estados Unidos. O lobo-mexicano, ainda mais raro, tem uma população estimada em apenas 317 indivíduos no final de 2025 — tornando-o uma das espécies de mamíferos mais ameaçadas do continente.

Durante seu primeiro mandato, Trump já havia removido o lobo-cinzento da lista de espécies protegidas, mas essa decisão foi revertida em 2022 após uma derrota judicial. O governo Biden, apesar de sua orientação ambiental, defendeu a posição de Trump nos tribunais, mas perdeu o caso. Agora, com a nova ordem executiva, Trump busca completar o que começou, desta vez incluindo também o lobo-mexicano, que permanecia protegido.

Conservacionistas veem a medida como uma capitulação política aos pecuaristas, particularmente porque o setor já dispõe de compensações generosas pelas perdas de gado. Programas estaduais e federais cobrem até 100% das perdas em casos de ataques confirmados, conforme estabelecido pela Lei One Big Beautiful Bill Act, uma legislação republicana. Ben Greuel, responsável pela campanha de vida selvagem do Sierra Club, descreveu a ação como uma manobra de controle de danos políticos, argumentando que flexibilizar as proteções dos lobos não reduzirá os preços nos supermercados nem ajudará famílias enfrentando dificuldades econômicas.

A ordem executiva sobre lobos é apenas uma peça de uma estratégia mais ampla. Em julho, o governo Trump finalizou três novas normas destinadas a enfraquecer a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção. Uma delas eliminou a definição histórica de "dano" que incluía a destruição de habitat. Outra revogou uma norma que estendia automaticamente proteções a espécies classificadas como "ameaçadas". A terceira obriga o governo a considerar implicações econômicas e de segurança nacional ao designar áreas como "habitat crítico" — essencialmente permitindo que considerações financeiras pesem contra a proteção ambiental.

O que vem a seguir é um processo de 90 dias que determinará se os critérios técnicos de recuperação foram atendidos. Se forem, o governo federal planeja reunir-se com autoridades estaduais para incentivá-las a aprovar medidas similares e flexibilizar as normas para matar lobos. Para conservacionistas, isso representa um retrocesso de décadas em esforços de restauração ecológica — uma reversão que coloca em risco não apenas duas espécies de predadores, mas o equilíbrio dos ecossistemas que dependem deles.

Transformar as proteções dos lobos em uma ferramenta de controle de danos políticos não fará nada para reduzir as contas do supermercado nem para ajudar as famílias que enfrentam dificuldades com o custo de vida
— Ben Greuel, Sierra Club
Mas eles já podem ser abatidos a tiros a partir de hoje?
— Donald Trump, durante evento na Sala Oval
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Folha de S.Paulo ↗
Kontakt FAQ