Em maio de 2022, os títulos de longo prazo do Tesouro Direto registraram perdas expressivas, revelando a vulnerabilidade dos investimentos de maior duração diante de um mundo em que a inflação e os juros sobem simultaneamente em múltiplas economias. O Brasil elevou a Selic a 12,75%, os Estados Unidos sinalizaram novos apertos, e o IPCA-15 atingiu seu maior patamar mensal desde 2016 — forças que, combinadas, penalizaram quem apostou no longo prazo. Nesse ambiente, a prudência se torna ela mesma uma forma de estratégia: permanecer perto do presente enquanto o horizonte ainda não se clareia.
Títulos de longo prazo do Tesouro Direto caem em maio; analistas recomendam cautela
Títulos de longo prazo sofrem mais quando as taxas sobem
Por que os títulos de longo prazo caíram tanto em maio quando os de curto prazo se saíram melhor?
Títulos de longo prazo são mais sensíveis a mudanças nas taxas de juros. Quando as taxas sobem, como aconteceu em maio, o valor de mercado desses títulos cai mais dramaticamente. Um título de 2045 tem 23 anos pela frente, então há muito tempo para as coisas mudarem. Um de 2025 tem apenas três anos.
Mas é importante notar que essa queda é apenas de marcação a mercado. Se você mantiver o título até o vencimento, recebe exatamente o que foi prometido. A perda só é real se você vender antes.
Então por que os analistas estão recomendando cautela agora? Se o retorno está garantido no vencimento, qual é o problema?
O problema é que ninguém sabe se vai precisar do dinheiro antes do vencimento. E há também a questão do custo de oportunidade. Se você compra um título prefixado a 12% e depois as taxas caem para 10%, você está preso a 12%. Mas se as taxas sobem para 14%, você perdeu a oportunidade.
Além disso, há muita incerteza no horizonte. O Banco Central pode continuar subindo juros, a inflação pode surpreender novamente, as eleições presidenciais estão próximas. Ninguém quer estar muito exposto a essa volatilidade.
Os analistas mencionam que o Tesouro Selic é mais seguro. Por quê?
Porque o Tesouro Selic é pós-fixado. Ele rende a taxa Selic, seja qual for. Se a Selic sobe, seu retorno sobe. Se cai, seu retorno cai. Mas o preço do título não varia no mercado, então não há marcação a mercado.
Exatamente. Você não tem risco de preço. O trade-off é que se as taxas caírem, seu retorno também cai. Mas em um momento de incerteza como este, muitos investidores preferem essa segurança.
E quanto aos títulos indexados à inflação? Eles ofereciam juros reais acima de 5%.
Sim, mas os de longo prazo caíram bastante. O de 2045 caiu 3,30% em maio. Os analistas sugerem ficar com o de 2026, que é de curto prazo e oferece 5,59% ao ano em juros reais.
Vale lembrar que juros reais acima de 5% é historicamente alto. Isso reflete a expectativa do mercado de que a inflação vai permanecer elevada por um tempo. Não é necessariamente uma oportunidade de ouro; é mais um reflexo da situação atual.
O que muda em junho?
Muita coisa. O Copom se reúne e provavelmente sobe a Selic novamente. Há também o IPCA de maio, dados de inflação americana, e o Senado vota sobre o teto de ICMS. Cada um desses eventos pode mexer com as taxas.
E a pesquisa Focus do Banco Central não está sendo publicada desde abril por causa da greve de servidores. Isso deixa o mercado um pouco mais cego em relação às expectativas de longo prazo.
Der Puls
- Títulos indexados à inflação com vencimento em 2045 despencaram 3,30% em maio, enquanto papéis prefixados de 2033 recuaram 1,84%, sinalizando um mês de perdas severas para investidores de longo prazo.
- A inflação global surpreendeu repetidamente para cima, com o IPCA-15 brasileiro atingindo 0,59% — o maior valor para maio desde 2016 —, criando um ambiente de incerteza que contaminou os mercados de renda fixa.
- O Banco Central elevou a Selic para 12,75% e o Federal Reserve americano sinalizou novos aumentos, pressionando as taxas de juros em cadeia e desvalorizando títulos prefixados e indexados já emitidos.
- Analistas recomendam migração para títulos de curto prazo — Tesouro Selic, Prefixado 2025 e IPCA+ 2026 — como forma de proteger o patrimônio enquanto a percepção de risco permanece elevada.
- Junho promete novos gatilhos: reunião do Copom, IPCA de maio, PIB do primeiro trimestre e decisões do Federal Reserve podem ampliar ou atenuar a volatilidade nos preços dos títulos.
Em maio de 2022, os títulos de longo prazo do Tesouro Direto registraram perdas expressivas, revelando a vulnerabilidade dos investimentos de maior duração diante de um mundo em que a inflação e os juros sobem simultaneamente em múltiplas economias. O Brasil elevou a Selic a 12,75%, os Estados Unidos sinalizaram novos apertos, e o IPCA-15 atingiu seu maior patamar mensal desde 2016 — forças que, combinadas, penalizaram quem apostou no longo prazo. Nesse ambiente, a prudência se torna ela mesma uma forma de estratégia: permanecer perto do presente enquanto o horizonte ainda não se clareia.
Maio de 2022 encerrou com perdas predominantes para os investidores do Tesouro Direto, especialmente aqueles posicionados em papéis de longo prazo. Os títulos indexados à inflação com vencimento em 2035 caíram 1,28%, enquanto os de 2045 recuaram 3,30%. Os prefixados também sofreram. A exceção ficou por conta do Tesouro Selic e do IPCA+ 2026, que terminaram o mês em terreno positivo.
O cenário foi moldado por pressões vindas de múltiplas frentes. No Brasil, o IPCA-15 de maio atingiu 0,59%, a maior alta para o mês desde 2016, e o Banco Central elevou a Selic para 12,75%. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve sinalizou novos aumentos de juros. Esse ambiente é particularmente hostil para títulos de longo prazo, que são mais sensíveis a variações nas taxas: quando os juros sobem, papéis emitidos anteriormente perdem valor no mercado secundário. Para quem mantém o título até o vencimento, porém, o retorno contratado permanece garantido — a perda é de marcação a mercado, não definitiva.
Diante desse quadro, os especialistas recomendam cautela e convergem para uma orientação comum: priorizar títulos de curto prazo. Sandra Blanco, da Órama Investimentos, aponta o Tesouro Prefixado 2025 e o IPCA+ 2026 como opções com boa relação risco-retorno. Marilia Fontes, da Nord Research, prefere o Tesouro Selic pela ausência de marcação a mercado, tornando-o mais seguro em momentos de instabilidade.
Junho deve trazer novos elementos de volatilidade: além da próxima reunião do Copom — com expectativa de alta de 0,50 ponto percentual na Selic —, o mercado acompanhará o IPCA de maio, o PIB do primeiro trimestre, o payroll americano e possíveis sinais do Federal Reserve. Uma proposta de teto para o ICMS sobre combustíveis e energia, em votação no Senado, também pode influenciar as expectativas de inflação. Até que o horizonte se estabilize, a recomendação é clara: permanecer nos papéis mais curtos e aguardar.
Maio foi um mês de perdas para quem investiu em títulos do Tesouro Direto, especialmente naqueles com prazos mais longos. Os papéis indexados à inflação com vencimento em 2035 caíram 1,28%, enquanto os de 2045 despencaram 3,30%. Os títulos prefixados também sofreram, com o papel de 2033 recuando 1,84%. A única exceção foi o Tesouro Selic, que fechou o mês em terreno positivo, junto com o título IPCA+ de 2026, que ganhou 0,03%.
Esse cenário de volatilidade refletiu pressões que vieram de todos os lados. A inflação global surpreendeu para cima, e no Brasil o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) atingiu 0,59% em maio, a maior alta para esse mês desde 2016. Simultaneamente, o Banco Central elevou a taxa Selic para 12,75%, e o Federal Reserve sinalizou novas altas de juros nos Estados Unidos. As taxas de juros alemãs, que serviram como referência quando os títulos americanos ficaram indisponíveis, também foram pressionadas para cima. Tudo isso criou um ambiente hostil para títulos de longo prazo, que são mais sensíveis a mudanças nas taxas de juros.
O mecanismo é simples mas importante de entender. Quando as taxas de juros sobem, os títulos prefixados e indexados à inflação perdem valor no mercado. Isso ocorre porque um investidor que comprou um título oferecendo 12% ao ano vê seu ativo desvalorizar quando novos títulos começam a oferecer 13% ou 14%. Se esse investidor precisar vender antes do vencimento, terá que aceitar um preço menor. Mas há um detalhe crucial: se mantiver o título até o vencimento, o retorno acordado no momento da compra está garantido. A perda é apenas temporária, uma questão de marcação a mercado.
Os analistas consultados recomendam cautela para junho. Sandra Blanco, estrategista chefe da Órama Investimentos, aponta que o Copom deve aumentar a Selic em mais 0,50 ponto percentual na próxima reunião, e que o comunicado e a ata dessa decisão serão cruciais para entender os próximos passos do Banco Central. Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, reforça que a inflação tem surpreendido todo mês e é o que tem ditado o rumo da política monetária global, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Para quem quer investir agora, os especialistas convergem em uma recomendação: títulos de curto prazo. Blanco sugere o Tesouro Prefixado 2025 e o Tesouro IPCA+ 2026, argumentando que oferecem uma relação risco-retorno atraente e que o mercado já precifica inflação mais baixa e juros menores para 2023 e 2024. Fontes, por sua vez, recomenda o Tesouro Selic porque são títulos pós-fixados que não sofrem marcação a mercado, tornando-os mais seguros em um momento de instabilidade. Os títulos indexados à inflação com vencimento inferior a cinco anos também oferecem juros reais acima de 5%, descontando a inflação.
O cenário para junho promete ser igualmente movimentado. Além da reunião do Copom, o mercado aguarda a aprovação no Senado de um projeto de lei que estabelece um teto de 17% a 18% para alíquotas de ICMS sobre combustíveis, energia, gás, comunicações e transporte coletivo. Essa medida pode ajudar a conter a inflação. Também virão dados importantes: o IPCA de maio, o PIB do primeiro trimestre, o payroll americano e novos sinais do Federal Reserve. Cada um desses eventos tem potencial para mexer com as taxas de juros e, consequentemente, com os preços dos títulos. Até que a percepção de risco diminua, a orientação é clara: mantenha-se nos papéis de curto prazo.
Bemerkenswerte Zitate
O Tesouro Prefixado 2025 e Tesouro IPCA+ 2026 oferecem uma relação risco-retorno muito atraente, pois o mercado já precifica inflação mais baixa e juros menores em 2023 e 2024— Sandra Blanco, estrategista chefe da Órama Investimentos
Recomendo o Tesouro Selic porque são pós-fixados e não sofrem marcação a mercado, portanto são os mais seguros para o momento atual de instabilidade— Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research