Dos 11 papéis disponíveis, 3 avançaram e 5 recuaram em fevereiro, com maiores perdas entre títulos de longo prazo e atrelados à inflação. Incertezas sobre inflação, PEC dos combustíveis e tensão Rússia-Ucrânia impactaram os retornos; Selic deve permanecer em dois dígitos até fim de 2022.
Tesouro Direto fecha fevereiro sem direção única; títulos curtos ganham destaque
Títulos com preços mais baixos e taxas mais altas podem ser oportunidade
Por que exatamente os títulos de longo prazo caíram tanto em fevereiro se as taxas estão subindo?
Quando as taxas sobem, o preço dos títulos já emitidos cai — é uma relação inversa. Mas o pior é que títulos de longo prazo, como aqueles que vencem em 2045 ou 2055, sofrem mais porque há mais incerteza sobre o que acontecerá tão longe no futuro.
Mas espera — se você compra um título prefixado e leva até o vencimento, você recebe exatamente o que foi prometido, certo? Então por que o preço de mercado importa?
Importa se você precisar vender antes do vencimento. E importa psicologicamente — você vê seu investimento desvalorizar no papel, mesmo que saiba que receberá o valor integral no fim.
Os analistas estão recomendando títulos de curto prazo agora. Isso significa que os de longo prazo são uma má ideia?
Não necessariamente. Para investidores mais arrojados, os títulos IPCA+ de longo prazo oferecem taxas próximas a 6% ao ano — isso é expressivo. Mas você precisa ter estômago para ver oscilações grandes de preço.
Seis por cento é bom, mas em relação a quê? Qual era a taxa há três meses? E essa projeção de 6% assume que a inflação não vai surpreender para cima, certo?
A inflação é justamente o risco. O mercado projetava 5,50% de inflação para 2022 no início de fevereiro, mas subiu para 5,56% — é a sexta semana de aumento consecutivo.
Então o que muda em março?
O Federal Reserve vai decidir sobre juros americanos, o Banco Central do Brasil vai se reunir, e a guerra na Ucrânia pode afetar os preços de petróleo e outras commodities. Tudo isso impacta a inflação global.
Mas ninguém sabe realmente como a guerra vai evoluir ou quanto vai afetar os preços. Os analistas estão fazendo projeções baseadas em cenários, não em fatos confirmados.
Verdade. Por isso a recomendação é cautela — títulos pós-fixados para quem quer menos risco, e IPCA+ de curto prazo para quem quer um meio termo.
Le Pouls
- Dos 11 títulos disponíveis, 3 avançaram e 5 recuaram em fevereiro de 2022
- Títulos IPCA+ com vencimento em 2045 caíram 2,68% em fevereiro, oferecendo retorno de 5,68% ao ano
- Selic elevada para 10,75% ao ano em dezembro, com expectativa de permanecer em dois dígitos até fim de 2022
- Projeção de inflação (IPCA) para 2022 aumentou de 5,50% para 5,56% — sexta semana consecutiva de alta
Dos 11 papéis disponíveis, 3 avançaram e 5 recuaram em fevereiro, com maiores perdas entre títulos de longo prazo e atrelados à inflação. Incertezas sobre inflação, PEC dos combustíveis e tensão Rússia-Ucrânia impactaram os retornos; Selic deve permanecer em dois dígitos até fim de 2022.
Títulos do Tesouro Direto fecharam fevereiro sem direção única, com perdas em papéis de longo prazo atrelados à inflação. Analistas recomendam títulos de curto prazo e IPCA+ como melhores oportunidades em cenário de incerteza.
Fevereiro foi um mês de sinais contraditórios no Tesouro Direto. Dos onze títulos disponíveis para investimento, três subiram de valor enquanto cinco caíram — os demais ainda não acumulam histórico suficiente para cálculo de rentabilidade. O padrão era claro: os papéis atrelados à inflação e aqueles com vencimento mais distante sofreram as maiores perdas, um movimento típico quando a economia enfrenta períodos de incerteza.
Três fatores convergiram para criar esse cenário turbulento ao longo do mês. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15, considerado um termômetro antecipado da inflação, veio acima das expectativas. Simultaneamente, o Congresso debatia a PEC dos combustíveis, uma medida com implicações diretas para os preços. E pairando sobre tudo isso estava a tensão geopolítica entre Rússia e Ucrânia, que alimentava a percepção de risco nos mercados globais.
Para os próximos meses, porém, especialistas veem oportunidade justamente onde o mercado mais castigou. Joni Vargas, economista da Zahl Investimentos, recomenda que investidores busquem títulos atrelados à inflação. A lógica é simples: as taxas estão altas, o preço caiu, e se você levar o título até o vencimento, a remuneração está garantida — uma relação risco-retorno atraente num momento de entrada de novos investidores. Camila Dolle, analista de renda fixa da XP Investimentos, reforça a ideia com uma ressalva: títulos com preços mais baixos e taxas mais altas podem ser oportunidades para quem precisa alocar recursos em ativos que sofreram desvalorização, mas sempre com atenção ao prazo, dado o cenário incerto.
O destaque real de fevereiro, porém, ficou com os títulos de curto prazo. O Tesouro Selic com vencimento inferior a cinco anos está atrativo agora que a taxa básica de juros atingiu dois dígitos — o Banco Central elevou a Selic para 10,75% ao ano no início de dezembro, a oitava alta consecutiva, e o mercado espera que permaneça nesse patamar até o fim de 2022. A mesma lógica vale para os títulos IPCA+ de prazo mais curto. Enquanto isso, os papéis de longo prazo do Tesouro IPCA+, com vencimentos entre 2032 e 2055, são considerados os mais arriscados. Quanto mais distante o vencimento, mais difícil prever a situação econômica, e portanto maior a volatilidade de preço ao longo do tempo.
Os números de fevereiro ilustram essa dinâmica. Os títulos IPCA+ com vencimento em 2045 recuaram 2,68% no mês — e isso depois de uma queda de 11,71% em janeiro. Mas ofereciam retorno de 5,68% ao ano para quem comprasse na sexta-feira 25 de fevereiro, com aplicação mínima de R$ 32,01. Os títulos Selic, por sua vez, fecharam o mês em terreno positivo: os papéis com vencimento em 2025 e 2027 registraram ganhos de 1,05% e 1,27%, respectivamente. O Tesouro Prefixado de curto prazo, com vencimento em 2025, subiu 0,46%, oferecendo retorno de 11,34% ao ano com aplicação mínima de R$ 36,88.
É importante entender o que está acontecendo por trás desses números. Quando as taxas de juros sobem — o que ocorreu em fevereiro — o preço dos títulos prefixados e daqueles indexados ao IPCA cai. Para quem vai investir agora, isso é bom: garante rentabilidade maior se mantiver a aplicação até o vencimento. Mas para quem já possui esses títulos na carteira, representa uma perda temporária no valor de mercado. Essa oscilação, chamada marcação a mercado, só afeta investidores que resgatam antes do prazo. Se você levar o título até seu vencimento, o retorno acordado no momento da compra está garantido.
Março promete ser igualmente movimentado. O Federal Reserve deve elevar os juros americanos, e o Banco Central do Brasil realizará outra reunião do Copom. Ambos os eventos impactarão os retornos do Tesouro Direto. A tensão na Europa também seguirá em primeiro plano: uma guerra tem potencial significativo de afetar os preços das commodities, especialmente petróleo, e isso impacta a inflação global, forçando bancos centrais do mundo a aumentar juros para controlar preços. Nesse contexto, os analistas recomendam cautela, privilegiando títulos pós-fixados para março, mas reconhecendo que investidores mais arrojados podem encontrar oportunidades nos títulos de inflação com prazo de cinco anos. As recomendações específicas convergem: Tesouro Selic 2025, Tesouro Prefixado 2025 e Tesouro IPCA+ 2032 aparecem como escolhas preferenciais para quem quer navegar esse período de incerteza.
Citations marquantes
Você tem boas taxas disponíveis e a certeza de que vai receber a remuneração de volta, é o melhor na relação risco-retorno— Joni Vargas, economista da Zahl Investimentos, sobre títulos atrelados à inflação
Quem tem mais estômago, pode apostar no médio a longo prazo dentro dos títulos atrelados à inflação, com taxas excelentes se aproximando de 6%— Adriano Rondelli, especialista da Valor Investimentos