Níveis saudáveis de testosterona variam entre 300-1.000 nanogramas por decilitro; dentro dessa faixa, não há correlação direta com força real ou características masculinas. Décadas de pesquisa encontram apenas pequena correlação entre testosterona e agressividade; comportamento social e pressão para conformidade masculina são fatores mais determinantes.
Testosterona elevada não torna homens mais fortes ou agressivos, aponta pesquisa
A verdadeira força não é algo que possa ser obtido com um hormônio
Por que o governo acreditaria que testar testosterona em soldados melhoraria a prontidão militar?
Porque há uma narrativa cultural muito poderosa de que a testosterona é a substância da força e da agressividade. Mas a pesquisa mostra que essa narrativa é mais sobre ansiedade social do que biologia real.
Então a testosterona não torna as pessoas mais agressivas?
Não de forma direta. O que acontece é que o comportamento influencia a testosterona, não o contrário. E quando a agressividade aparece, geralmente é porque alguém se sente ameaçado em sua identidade masculina — é social, não químico.
Mas se um soldado tem testosterona baixa por causa do estresse militar, não faria sentido reposicioná-la?
Não, porque o problema real é o estresse, a falta de sono, as lesões. Dar testosterona sem resolver essas condições é como colocar um adesivo em uma ferida aberta. E a terapia com testosterona tem riscos sérios — reduz o tamanho dos testículos, suprime a produção de espermatozoides, causa acne e calvície.
Há uma contradição aqui com políticas transgênero, não é?
Exatamente. O governo suspendeu terapia hormonal para militares transgênero dizendo que era incompatível com a prontidão, mas quer prescrever testosterona para homens cisgênero. É a mesma classe de medicamento, mas com rótulos diferentes dependendo de quem está recebendo.
O que você acha que realmente está acontecendo?
Acho que há uma ansiedade profunda sobre o que significa ser homem, e o governo está tentando resolver isso com um hormônio. Mas a verdadeira força não vem de um exame de sangue.
The Pulse
- Níveis saudáveis de testosterona variam entre 300-1.000 nanogramas por decilitro de sangue
- Análise de 2001 com 45 estudos envolvendo quase 10 mil pessoas encontrou apenas pequena correlação entre testosterona e agressividade
- Estudo com Rangers do Exército dos EUA mostrou que privação de sono reduziu significativamente os níveis de testosterona
- Terapia com testosterona causa riscos graves: redução de testículos, supressão de espermatozoides, acne e calvície
Níveis saudáveis de testosterona variam entre 300-1.000 nanogramas por decilitro; dentro dessa faixa, não há correlação direta com força real ou características masculinas. Décadas de pesquisa encontram apenas pequena correlação entre testosterona e agressividade; comportamento social e pressão para conformidade masculina são fatores mais determinantes.
Análise científica desmente que níveis elevados de testosterona aumentam força, agressividade ou masculinidade. Pesquisa mostra que pressão social e ambiente determinam comportamento mais que hormônios.
Em julho de 2026, o secretário de Defesa dos EUA anunciou que militares com 30 anos ou mais teriam seus níveis de testosterona testados anualmente. A medida partia de uma premissa simples: mais testosterona significa homens mais fortes, mais agressivos, mais masculinos. A ciência, porém, conta uma história bem diferente.
A testosterona é produzida por pessoas de todos os gêneros, embora em quantidades distintas. Em homens cisgênero, o hormônio sobe durante a puberdade, ajudando a construir músculos, estimular o crescimento de pelos e produzir espermatozoides. Depois dos 30 anos, os níveis caem naturalmente. Quando essa queda é drástica e acompanhada de sintomas reais — fadiga extrema, perda de libido, encolhimento muscular significativo — a reposição sob supervisão médica pode fazer sentido. Mas o que é "normal" abrange uma faixa ampla. Os endocrinologistas consideram saudáveis níveis entre aproximadamente 300 a 1.000 nanogramas por decilitro de sangue. Dentro dessa variação, o número diz pouco sobre as características que muitos acreditam que ele determine. Um homem com 700 não é mais forte nem mais "homem" que outro com 300, conforme explica o endocrinologista Adrian Dobs.
A testosterona está ligada à massa muscular, sim. Mas em homens saudáveis, ela não está diretamente relacionada à força real. Treinamento, sono e alimentação importam muito mais. Além disso, os níveis não são fixos — variam a cada hora e conforme a estação do ano. Por isso, médicos geralmente só testam quando surgem sintomas. Fazer triagem em milhões de homens saudáveis pode ser prejudicial. A terapia com testosterona frequentemente acarreta riscos graves: a suplementação sinaliza ao corpo para parar de produzir seu próprio estoque, reduzindo o tamanho dos testículos e suprimindo a produção de espermatozoides. Alguns pesquisadores chegaram a estudar o hormônio por seus efeitos contraceptivos. Como a testosterona estimula as glândulas sebáceas e os folículos capilares — e se converte parcialmente em estrogênio — ela também causa acne, calvície e até crescimento de tecido mamário. Esse ideal de "níveis elevados" promovido por clínicas online e agora endossado pelo governo ignora esses riscos.
Mas o mito mais persistente é o do "machão". Décadas de pesquisa desmentem a alegação central de que mais testosterona produz homens mais agressivos e dominantes. Uma análise de 2001 com dados de 45 estudos envolvendo quase 10 mil pessoas encontrou apenas uma pequena correlação entre testosterona e agressividade. Quando pesquisadores reuniram em 2020 dados de experimentos nos quais a testosterona foi efetivamente administrada aos participantes, encontraram apenas evidências fracas. Na verdade, os efeitos sobre a agressividade se manifestavam principalmente em homens que já eram mais dominantes ou impulsivos. A relação funciona ao contrário: o comportamento influencia os níveis de testosterona. Homens que manuseavam uma arma por 15 minutos apresentavam picos maiores de testosterona e agiam mais agressivamente do que aqueles que tocavam em um jogo de tabuleiro. Enquanto isso, os níveis de testosterona de pais recentes caíram mais acentuadamente quanto mais eles cuidavam fisicamente de seus filhos.
Quando homens demonstram agressividade, o gatilho geralmente é social. Ameaçar o senso de masculinidade de um homem provoca agressividade de forma confiável, e os que reagem mais fortemente são aqueles que sentem maior pressão para corresponder aos ideais masculinos. Essa ligação se estabelece desde cedo. Em um estudo com mais de 200 adolescentes do sexo masculino e seus pais, meninos que reagiam agressivamente a ameaças à sua masculinidade eram principalmente aqueles que sentiam pressão externa para serem masculinos — pressão mais forte entre aqueles cujos pais endossavam crenças específicas sobre o que significa ser homem, como exercer poder sobre os outros. A biologia, a pressão social e o desenvolvimento atuam em conjunto. Embora os hormônios possam abrir uma janela, é o ambiente social que decide o que entra por ela.
Há uma ironia cruel no plano militar: o ritmo exaustivo do serviço reduz a testosterona. Um estudo de 2020 com Rangers do Exército dos EUA descobriu que a privação de sono inerente ao treinamento reduziu significativamente os níveis do hormônio. Estresse crônico, privação de sono, exposição a explosões e má alimentação causam um conjunto de problemas chamado "Síndrome do Operador". Em alguns casos, as condições de trabalho dos agentes de forças especiais podem fazer com que os níveis de testosterona de um homem de 35 anos se aproximem dos níveis típicos de um homem na casa dos 80 anos. As Forças Armadas impõem exatamente as condições que suprimem a testosterona e, em seguida, propõem corrigir o resultado com mais testosterona — um ciclo vicioso que não resolve o problema real.
Há também uma contradição gritante. Em fevereiro de 2025, o Pentágono suspendeu a terapia hormonal de afirmação de gênero para militares transgênero, classificando esses cuidados como incompatíveis com a "prontidão" das Forças Armadas. Mas prescrever testosterona para alinhar o corpo de um homem cisgênero aos ideais masculinos também é terapia hormonal. A mesma classe de medicamento é motivo de desqualificação para um grupo, mas para outro é rebatizada como otimização do soldado. A obrigatoriedade da testosterona não criará soldados mais resistentes. Na verdade, ela revela uma ansiedade que nenhum hormônio pode resolver. Os homens mais pressionados a provar sua masculinidade são aqueles que mais a percebem como frágil, tratando-a como um status que pode ser perdido e precisa ser reconquistado repetidamente. Dizer às tropas que sua prontidão depende do resultado de um exame pode aprofundar essa ansiedade. A verdadeira força — aquela que se mantém sob fogo cruzado — não é algo que possa ser obtido com um hormônio.
Notable Quotes
Uma pessoa com 700 de testosterona não é mais forte nem mais 'homem' do que outra com 300— Adrian Dobs, endocrinologista
Os homens mais pressionados a provar sua masculinidade são aqueles que mais a percebem como frágil— Adam Stanaland, professor assistente de psicologia da Universidade de Richmond