IPCA de março atingiu 1,62%, o maior para o mês desde 1994, com transportes e alimentação respondendo por 72% da inflação. Tesouro Prefixado 2025 oferecia 11,80% de rentabilidade anual, enquanto Tesouro IPCA+ 2026 apresentava retorno real de 5,17%.
Tesouro Direto: taxas prefixadas disparam com IPCA acima do esperado
Um choque de realidade para o mercado que apostava no fim dos juros
Por que o IPCA de março foi tão importante para o mercado de Tesouro Direto?
Porque o mercado estava apostando que o Banco Central ia parar de subir juros em maio. Mas quando o IPCA veio 1,62% — muito acima dos 1,30% esperados — ficou claro que a inflação ainda estava acelerada. Isso muda tudo.
Mas espera — o IPCA de 1,62% em março é alto em termos mensais, mas a gente precisa lembrar que é um mês específico. Transportes e alimentação responderam por 72% do índice. Isso é concentrado ou é estrutural?
Boa pergunta. Transportes subiram 3,02% por causa dos combustíveis. Alimentação subiu 2,42%. Ambos têm componentes que podem ser voláteis — gasolina, preços de alimentos — mas também refletem pressões reais na economia.
E o que isso significava para quem estava investindo em Tesouro Direto naquele dia?
Os títulos prefixados ficaram mais atraentes porque as taxas subiram. O Tesouro Prefixado 2025 pulou para 11,80%. Se você acreditava que a inflação ia continuar alta, você queria travar uma taxa alta agora.
Mas tem um detalhe — o Tesouro IPCA+ 2026 também subiu, de 5,14% para 5,17% de retorno real. Isso é uma mudança muito pequena. Será que o mercado realmente acreditava que a inflação ia ser tão alta assim, ou era mais sobre o Banco Central ter de manter juros altos por mais tempo?
Provavelmente os dois. Mas o ponto é que o economista da Nova Futura estava certo — foi um choque de realidade. O mercado tinha esperança, e os dados mataram essa esperança.
Então o Banco Central não conseguiu convencer ninguém de que ia parar em maio?
Não naquele dia. A pressão inflacionária era muito clara. Transportes, alimentação, energia, gás — tudo subindo. Era difícil argumentar que era transitório.
Uma coisa que não fica clara é se essa alta de juros nos títulos prefixados era só repricing ou se refletia uma mudança real nas expectativas de inflação futura. Os dados de março eram altos, mas eram dados de março. Será que o mercado estava extrapolando?
É uma boa observação. Mas lembre-se que o IPC-S da primeira semana de abril também veio acima do esperado. Então não era só março — era um padrão.
Le Pouls
- IPCA de março: 1,62%, maior para o mês desde 1994
- Inflação em 12 meses: 11,30%, acima dos 10,54% anteriores
- Tesouro Prefixado 2025: 11,80% de rentabilidade anual
- Transportes e alimentação: 72% do índice de março
- Gasolina: 6,95% de alta, maior impacto individual
IPCA de março atingiu 1,62%, o maior para o mês desde 1994, com transportes e alimentação respondendo por 72% da inflação. Tesouro Prefixado 2025 oferecia 11,80% de rentabilidade anual, enquanto Tesouro IPCA+ 2026 apresentava retorno real de 5,17%.
Taxas dos títulos públicos prefixados do Tesouro Direto subiram até 20 pontos-base após IPCA de março vir acima das projeções, chegando a 11,30% em 12 meses e sinalizando pressão inflacionária persistente.
Na manhã de sexta-feira, 8 de abril de 2022, os preços dos títulos públicos prefixados do Tesouro Direto dispararam. O Tesouro Prefixado 2025 saltou para uma rentabilidade anual de 11,80%, acima dos 11,60% cotados no dia anterior. Os títulos de 2029 e 2033, ambos com juros semestrais, também subiram — para 11,62% e 11,67%, respectivamente. A movimentação refletia uma única notícia: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, havia vindo muito mais quente do que o mercado esperava.
O IPCA de março registrou alta de 1,62% em relação a fevereiro, o maior resultado para o mês desde 1994, antes da implantação do Real. Nos últimos 12 meses, a inflação acumulada chegou a 11,30%, superando os 10,54% dos 12 meses anteriores. No ano, o indicador já marcava 3,20%. Os analistas consultados pela Refinitiv haviam projetado uma alta de apenas 1,30% para março e 10,98% em 12 meses. A realidade foi bem mais severa.
Dois grupos de produtos explicavam a maior parte do choque: transportes e alimentação responderam juntos por cerca de 72% do índice do mês. Os transportes subiram 3,02%, puxados principalmente pelos combustíveis, que avançaram 6,70%. A gasolina sozinha subiu 6,95% e foi o item com maior impacto individual no indicador geral, contribuindo com 0,44 ponto percentual. Na alimentação e bebidas, a alta foi de 2,42%. Houve uma exceção: as passagens aéreas caíram 7,33%, porque a metodologia do índice considera viagens marcadas com dois meses de antecedência, refletindo preços coletados em janeiro para viagens de março.
O grupo habitação também pressionou para cima, com aumento de 1,15%. O gás de botijão subiu 6,57%, resultado de um reajuste de 16,06% no preço médio de venda para as distribuidoras. A energia elétrica avançou 1,08%, impulsionada por reajustes de 15,58% e 17,30% nas tarifas de duas concessionárias no Rio de Janeiro.
Para Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura, o dia representava um "choque de realidade" para o mercado. Nos dias anteriores, operadores vinham apostando que o Banco Central encerraria o ciclo de alta de juros em maio. Essa expectativa havia sido alimentada por sinalizações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e pela adoção da bandeira verde nas contas de luz a partir de 16 de abril. Mas o IPCA acima do teto das projeções sinalizava que a economia seguia sob pressão inflacionária muito forte. O IPC-S da primeira semana de abril, também acima do esperado, reforçava essa visão, com acelerações significativas em vários itens da cesta.
Borsoi argumentava que, embora o mercado pudesse interpretar a bandeira verde como um alívio no curto prazo, a perspectiva inflacionária permanecia desfavorável. Isso tornaria mais difícil a tarefa do Banco Central de convencer os agentes de mercado de que o ciclo de alta de juros estava chegando ao fim. O resultado prático foi imediato: as taxas dos títulos prefixados subiram com força, enquanto o Tesouro IPCA+ 2026 — o título atrelado à inflação — oferecia uma rentabilidade real de 5,17%, acima dos 5,14% do dia anterior. Os demais títulos de inflação mantiveram estabilidade nas taxas.
O movimento refletia uma recalibração do mercado diante de um cenário inflacionário mais persistente do que havia sido precificado. Com a inflação acumulada em 12 meses já em 11,30% e sinais de que a pressão continuaria, investidores buscavam se proteger com títulos prefixados que ofereciam rendimentos mais altos, enquanto o Banco Central enfrentava a perspectiva de ter de manter a política de aperto monetário por mais tempo do que havia sinalizado.
Citations marquantes
Hoje é um dia de choque de realidade para o mercado, que vinha operando na expectativa de que o Copom coloque um fim ao ciclo de alta nos juros— Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura
O IPCA superou o teto das projeções, sinalizando que a economia segue com uma pressão inflacionária muito forte— Nicolas Borsoi