Tesouro Direto: prefixados caem a 12,36% com crise do SVB e expectativa fiscal

Investidores correram para a segurança dos títulos públicos
Reação global ao colapso do Silicon Valley Bank fez capitais buscarem refúgio em papéis brasileiros.
Mark

Por que os títulos prefixados caem justamente quando há uma crise bancária nos EUA?

Mimi

Quando há pânico global, investidores fogem para segurança. Os títulos públicos brasileiros são vistos como refúgio, então recebem fluxo de capital. Quando muita gente quer comprar um título, seu preço sobe e seu rendimento cai.

Luke

Mas isso pressupõe que o Brasil é visto como seguro. Isso é verdade agora?

Mimi

Aparentemente sim, naquele momento. Mas há também a questão doméstica — a expectativa sobre a nova âncora fiscal de Haddad.

Mark

Qual é o risco dessa nova âncora fiscal?

Mimi

Se o governo sinalizar que vai controlar melhor os gastos, os investidores acreditam que a inflação cairá e os juros poderão cair também. Isso reduz os rendimentos esperados dos títulos.

Luke

Então o mercado está precificando uma redução de juros antes mesmo de o Banco Central anunciar?

Mimi

Exatamente. É uma antecipação. Os analistas falam em possibilidade de afrouxamento monetário.

Mark

E os dados de inflação que saíram naquele dia? Ajudavam ou pioravam a situação?

Mimi

Pioravam um pouco. A projeção para 2023 subiu, e os preços administrados continuavam em alta. Não era um sinal de que a inflação estava sob controle.

Luke

Então temos um paradoxo: o mercado aposta em queda de juros, mas a inflação está subindo. Como isso se resolve?

Mimi

Essa é a tensão. Depende de como Haddad apresentar a âncora fiscal e se o mercado acreditar que ela vai funcionar.

  • A maior quebra bancária americana desde 2008 espalhou aversão ao risco pelos mercados globais, derrubando bolsas asiáticas e europeias e colocando investidores em modo de fuga para ativos considerados seguros.
  • No Brasil, essa fuga paradoxalmente beneficiou os títulos públicos: com a demanda crescendo, os preços subiram e os rendimentos caíram — o Tesouro Prefixado 2026 recuou 17 pontos-base, chegando a 12,36% ao ano.
  • A expectativa pela nova âncora fiscal de Haddad criava uma segunda pressão baixista sobre as taxas, com analistas antecipando que o Banco Central poderia iniciar um ciclo de corte de juros antes do esperado.
  • Dados do Banco Central mostravam inflação projetada em alta para 2023 e preços administrados subindo pela 15ª semana consecutiva, complicando o cenário e limitando o espaço para otimismo.
  • Enquanto o Senado se preparava para convocar Roberto Campos Neto a justificar a Selic em 13,75%, os mercados globais aguardavam o índice de inflação americano — peça-chave para a próxima decisão do Federal Reserve.

Em um momento em que o colapso do Silicon Valley Bank reconfigurava a percepção de risco em escala global, os títulos públicos brasileiros iniciaram a semana em queda de rendimentos — sinal de que o capital assustado buscava refúgio mesmo em mercados emergentes. Ao mesmo tempo, a iminente proposta de nova âncora fiscal do ministro Haddad alimentava a expectativa de que o ciclo de juros no Brasil pudesse se inverter antes do previsto. Duas forças distintas — uma vinda de fora, outra gestada internamente — convergiam para redesenhar, ao menos momentaneamente, o mapa da renda fixa brasileira.

Na manhã de segunda-feira, com os mercados ainda processando o colapso do Silicon Valley Bank, os títulos públicos brasileiros abriram a semana em queda de rendimentos. O Tesouro Prefixado 2026 recuou para 12,36% ao ano — 17 pontos-base abaixo do fechamento de sexta-feira. Os prefixados mais longos e os papéis atrelados ao IPCA também registraram quedas, como o IPCA+ 2045, que passou de 6,50% para 6,44%.

Duas forças distintas explicavam o movimento. No plano internacional, a falência do SVB — a maior quebra bancária americana desde 2008 — havia disparado alarmes de contágio sistêmico. O Signature Bank também apresentara problemas no domingo, e analistas alertavam que outras instituições poderiam estar em risco. Diante da incerteza, investidores globais correram para ativos de segurança, e os títulos públicos brasileiros absorveram parte desse fluxo. Quando os preços sobem, os rendimentos caem.

No plano doméstico, a iminente apresentação da nova âncora fiscal pelo ministro Fernando Haddad alimentava a expectativa de que o Banco Central pudesse antecipar o início de um ciclo de corte de juros. Analistas da XP explicavam que toda a curva de juros futuros vinha sendo pressionada para baixo por essa perspectiva. Investidores que apostam em juros menores no futuro tendem a comprar títulos de menor rendimento — exatamente o que ocorria.

O cenário, porém, não era de alívio simples. O Banco Central elevou sua projeção de inflação para 2023 de 5,90% para 5,96%, e os preços administrados — energia, combustíveis — acumulavam 15 semanas consecutivas de alta nas estimativas. Haddad, em evento sobre reforma tributária, tentava acalmar os mercados, descartou a volta da CPMF e sinalizou votação da reforma tributária na Câmara para junho ou julho.

Nos mercados globais, a reação era mista: Hong Kong e Shanghai subiram, mas Japão, Europa e ações de tecnologia sofreram. No Brasil, investidores estrangeiros mantinham cautela na B3, enquanto institucionais retiravam recursos. Os mercados aguardavam o índice de inflação americano do dia seguinte — dado decisivo para a reunião do Federal Reserve marcada para 21 e 22 de março — e o cenário permanecia suspenso entre a extensão da crise bancária americana e os rumos da política fiscal brasileira.

Na segunda-feira de manhã, enquanto os mercados globais processavam o colapso do Silicon Valley Bank, os títulos públicos brasileiros começaram a semana em queda. O Tesouro Prefixado 2026, o papel com menor rendimento disponível, caiu para 12,36% ao ano — uma retração de 17 pontos-base em relação ao fechamento de sexta-feira, quando estava em 12,53%. Os prefixados de prazo mais longo também recuaram: o Tesouro Prefixado 2033 passou de 13,20% para 13,10%. Entre os títulos atrelados à inflação, o IPCA+ 2045 oferecia 6,44% ao ano, abaixo dos 6,50% do pregão anterior.

O movimento refletia duas forças simultâneas pressionando o mercado. A primeira era internacional: a falência do Silicon Valley Bank, a maior quebra bancária americana desde 2008, havia disparado alarmes sobre contágio sistêmico. O Signature Bank também havia apresentado problemas no domingo, e analistas já sinalizavam que mais instituições poderiam estar em risco. Bruno Komura, da Ouro Preto Investimentos, alertava que seria possível ver em breve qual seria a extensão real do problema. Diante dessa incerteza, investidores em todo o mundo correram para a segurança — e os títulos públicos brasileiros, considerados refúgio, receberam esse fluxo de capital assustado. Quando os preços dos títulos sobem, seus rendimentos caem.

Mas havia também uma dinâmica doméstica em jogo. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estava prestes a apresentar uma proposta para a nova âncora fiscal do país — o mecanismo que definiria como o governo controlaria seus gastos nos próximos anos. A expectativa de mudanças nas regras fiscais criava incerteza sobre o futuro das taxas de juros. Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP, explicou que o movimento de queda nas taxas futuras ao longo de toda a curva de juros vinha sendo impulsionado principalmente por essa perspectiva fiscal e pela possibilidade de que o Banco Central antecipasse o início de um ciclo de redução de juros. Quando os investidores acreditam que os juros cairão, eles vendem títulos que pagam juros mais altos e compram os que pagam menos — exatamente o que estava acontecendo.

Os dados de inflação divulgados naquele mesmo dia pelo Banco Central reforçavam a complexidade do cenário. A projeção de inflação para 2023 havia subido de 5,90% para 5,96%. As estimativas para 2024 e 2025 permaneceram estáveis em 4,02% e 3,80%, respectivamente, mas a de 2026 avançou para 3,79%. Mais preocupante era a trajetória dos preços administrados — aqueles controlados pelo governo, como energia e combustíveis — que mantinham uma tendência de alta há 15 semanas consecutivas, passando de 9,05% para 9,13%. Um mês antes, essa projeção estava em 8,53%.

Haddad, durante um evento sobre reforma tributária naquela manhã, tentava acalmar os mercados. Reconhecia que notícias sobre medidas econômicas causavam volatilidade, mas argumentava que o ruído deveria ser menor. Pediu que a atenção se voltasse para as medidas que o governo estava efetivamente apresentando ao Congresso. Descartou a possibilidade de reimplantação da CPMF e sinalizou que a reforma tributária poderia ser votada na Câmara em junho ou julho. Criticou também a estrutura tributária atual, dizendo que ela punia o investidor, o exportador, o industrial e as famílias de baixa renda.

No cenário internacional, os mercados asiáticos fecharam mistos. Hong Kong subiu 1,96%, com o índice de tecnologia avançando mais de 3%, enquanto a Bolsa de Shanghai subiu 1,2%. Mas o Japão liderou as perdas regionais: o Topix caiu 1,51% e o Nikkei 225 recuou 1,11%, com as ações do Softbank caindo 2,3% conforme os investidores avaliavam riscos de contágio. Na Europa, os mercados operavam em baixa sob o mesmo peso. O Bank of London havia confirmado que protocolou uma proposta para comprar a subsidiária britânica do SVB, em parceria com um consórcio de empresas de private equity.

No Brasil, o movimento de capitais estrangeiros na B3 refletia cautela. Investidores externos ingressaram com R$ 4,9 milhões no dia 9 de março, elevando o saldo do mês para R$ 91,4 milhões, mas o acumulado do ano permanecia em R$ 10,9 bilhões. Investidores institucionais, por sua vez, retiraram R$ 470 milhões naquele dia, com saídas acumuladas de R$ 832 milhões em março e R$ 11,6 bilhões no ano. Apenas os investidores pessoa física mostravam apetite, ingressando com R$ 243 milhões no dia 9, quando a bolsa havia caído 1,38%.

O Senado, enquanto isso, se preparava para convocar o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a explicar por que a taxa básica de juros permanecia em 13,75% ao ano. E os mercados globais aguardavam a divulgação do índice de preços ao consumidor americano prevista para o dia seguinte, um dado crucial para a próxima decisão de juros do Federal Reserve, marcada para 21 e 22 de março. O cenário era de espera e incerteza — tanto sobre o alcance da crise bancária americana quanto sobre os rumos da política fiscal brasileira.

Os mercados devem reagir mal e será possível ver qual vai ser a extensão desse problema, se haverá contágio ou não
— Bruno Komura, analista da Ouro Preto Investimentos
Investidores correram para a segurança dos títulos públicos, fazendo seus preços subirem e, por consequência, reduzindo seus rendimentos
— Mayara Rodrigues, analista de research de renda fixa da XP
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