TCU libera supersalários e propõe elevar penduricalhos em até 40% no mesmo dia

Abriu caminho para um novo superpenduricalho
Como um integrante anônimo do TCU descreveu a decisão de separar o cálculo de gratificações do teto constitucional.
Mark

Por que o TCU fez essas duas coisas no mesmo dia? Parece coordenado.

Mimi

Porque são movimentos que se reforçam. Primeiro libera os supersalários, depois propõe aumentar os penduricalhos. Se você separa essas decisões, parece menos óbvio o que está acontecendo.

Mark

E qual é o efeito prático dessa separação entre salário efetivo e gratificação?

Mimi

Permite que a remuneração total ultrapasse o teto constitucional. Antes, a gratificação era absorvida pelo abate-teto. Agora cada parte é calculada separadamente, então o servidor recebe mais.

Mark

O tribunal diz que está apenas atualizando valores defasados. Isso é verdade?

Mimi

Pode ser verdade que estejam defasados. Mas a questão é por que fazer isso agora, dessa forma, depois de pressão do Congresso e veto do presidente. A oportunidade importa tanto quanto o argumento.

Mark

Como isso afeta o resto do serviço público?

Mimi

Cria um precedente. Se o TCU consegue aumentar penduricalhos dessa forma, por que não outros órgãos? É um sinal de que há espaço para contornar o teto constitucional.

Mark

O STF viu isso como retrocesso. Eles têm poder para bloquear?

Mimi

Tecnicamente sim, mas é complicado. O TCU tem autonomia para enviar projetos sobre sua própria remuneração. O STF teria que questionar a constitucionalidade, não apenas a conveniência.

  • O TCU decidiu, em uma única quarta-feira, liberar supersalários acima do teto constitucional e propor aumento de até 40% nos penduricalhos de seus servidores e dos do Congresso — dois movimentos que se reforçam mutuamente.
  • A decisão contrariou o parecer da própria área técnica do tribunal e foi interpretada nos bastidores como resposta ao veto presidencial a um projeto de reajuste salarial para servidores da corte.
  • O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e outras lideranças do Congresso pressionaram ministros do TCU pela mudança, e a diretora-geral do Senado já determinou o cumprimento imediato a partir da folha de julho.
  • Ministros do STF reagiram com críticas, vendo a decisão como retrocesso no debate sobre contenção de gastos públicos com remuneração — especialmente após Flávio Dino ter reorganizado meses antes o tratamento das verbas da magistratura.
  • O projeto, assinado pelo presidente Vital do Rêgo, segue agora para o Congresso Nacional, onde o TCU tem prerrogativa legal de enviar propostas sobre sua própria estrutura, tornando a aprovação uma possibilidade concreta.

Em um mesmo dia, o Tribunal de Contas da União — guardião constitucional das contas públicas — autorizou que seus próprios servidores e os do Congresso recebam remunerações acima do teto constitucional e encaminhou ao Legislativo um projeto para elevar em até 40% as gratificações de 913 funções de confiança, com custo anual estimado em R$ 27,7 milhões. O movimento, que contrariou o parecer técnico interno do próprio tribunal e atendeu a pressões de lideranças do Senado, levanta uma questão antiga sobre quem fiscaliza os fiscais — e em que medida as instituições de controle estão imunes à lógica que deveriam conter.

Na mesma quarta-feira, o Tribunal de Contas da União tomou duas decisões que se complementam. Primeiro, liberou que servidores da Câmara, do Senado e do próprio TCU em cargos de chefia recebam remunerações acima do teto constitucional — ao determinar que a parcela referente ao exercício da chefia seja calculada separadamente do salário do cargo efetivo, abrindo espaço para que a remuneração final ultrapasse o limite onde antes havia o chamado abate-teto. Depois, encaminhou ao Congresso um projeto para aumentar entre 35% e 40% o valor das gratificações de 913 funções de confiança, com custo estimado em R$ 27,7 milhões por ano a partir de 2027.

A gratificação mais alta, a FC-8, subiria de R$ 8.987 para R$ 12.133. A FC-1, a menor, passaria de R$ 1.554 para R$ 2.176. O nível FC-3, com 313 beneficiários, saltaria de R$ 3.930 para R$ 5.503. Na exposição de motivos, o tribunal argumenta defasagem em relação a Câmara, Senado e Executivo, além da necessidade de reter servidores qualificados diante de atribuições crescentes como fiscalização de grandes contratos e segurança da informação.

O movimento contrariou o parecer técnico interno do próprio TCU e atendeu a uma reivindicação defendida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que pressionou ministros da corte pela mudança. A diretora-geral do Senado já determinou o cumprimento da decisão a partir da folha de julho. Nos bastidores, a decisão foi lida como resposta ao veto do presidente Lula a um projeto anterior de reajuste para servidores do tribunal.

A reação no Supremo Tribunal Federal foi negativa. Ministros viram o movimento como retrocesso no debate sobre contenção de gastos com remuneração pública, especialmente após Flávio Dino ter reorganizado meses antes o tratamento das verbas pagas à magistratura e ao Ministério Público. Um integrante do próprio TCU, em anonimato, descreveu a decisão sobre o teto como tendo aberto caminho para um novo superpenduricalho. O projeto segue agora para o Congresso, onde o TCU tem prerrogativa legal de enviar propostas sobre sua própria organização — tornando sua aprovação uma questão em aberto, mas não improvável.

Na quarta-feira, o Tribunal de Contas da União tomou duas decisões no mesmo dia que se reforçam mutuamente. Primeiro, liberou que servidores da Câmara, do Senado e do próprio tribunal que ocupam postos de chefia e direção recebam remunerações acima do teto constitucional. Depois, encaminhou ao Congresso um projeto de lei para aumentar entre 35% e 40% o valor dos penduricalhos — aquelas verbas extras como gratificações, auxílios e indenizações que ficam fora do cálculo do teto salarial.

O projeto assinado pelo presidente do TCU, Vital do Rêgo, afetaria 913 funções de confiança na estrutura do tribunal e custaria aos cofres públicos cerca de R$ 27,7 milhões por ano a partir de 2027. A gratificação mais alta, a FC-8, subiria de R$ 8.987 para R$ 12.133. A menor, a FC-1, passaria de R$ 1.554 para R$ 2.176. O nível FC-3, que concentra a maior quantidade de beneficiários com 313 gratificações, teria seu valor elevado de R$ 3.930,84 para R$ 5.503,18.

A sequência de movimentos revela uma estratégia clara. Na quarta-feira anterior, os ministros do TCU decidiram que a parcela recebida pelo exercício de cargos de chefia e direção deve ser submetida ao teto separadamente do salário do cargo efetivo. Na prática, isso permite que a remuneração final ultrapasse o limite constitucional em situações nas quais hoje a gratificação é absorvida pelo chamado abate-teto. Um integrante da corte de contas, falando sob anonimato, descreveu a decisão como tendo aberto caminho para um novo superpenduricalho.

A decisão contrariou o parecer da área técnica do próprio tribunal. Mas atendeu a uma reivindicação defendida por lideranças do Congresso, particularmente o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que pressionaram ministros do TCU por essa mudança. A diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, já determinou o cumprimento da decisão a partir da folha de julho, com pagamento em folha suplementar.

Na exposição de motivos, o tribunal argumenta que os valores pagos atualmente estão defasados em comparação com Câmara, Senado e Executivo. Sustenta que a atualização é necessária para tornar os cargos de chefia mais atrativos, reter servidores qualificados e adequar a remuneração ao aumento da complexidade das atividades desempenhadas pelo órgão — fiscalizações de grandes contratos, governança, transformação digital e segurança da informação. O tribunal também afirma que a proposta não cria novas funções nem amplia a estrutura, limitando-se à recomposição dos valores atualmente previstos em lei.

O movimento gerou reações negativas entre ministros do Supremo Tribunal Federal. Flávio Dino havia reorganizado meses antes o tratamento das verbas pagas à magistratura e ao Ministério Público. Ministros do STF viram a decisão do TCU como um retrocesso no debate sobre contenção de gastos com remuneração de servidores públicos. Nos bastidores, a decisão foi interpretada como uma resposta do tribunal ao veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um projeto que visava elevar os salários dos servidores da corte.

Na última quarta-feira, o ministro-relator Walton Alencar Rodrigues votou contra levar adiante uma representação do sindicato dos servidores do Congresso e do TCU, argumentando que entidades sindicais não são legitimadas para representar ao tribunal conforme o regimento interno. Mas foi derrotado pelos demais oito ministros que participaram do julgamento. O TCU tem a permissão legal para enviar projetos de lei sobre sua própria organização, funcionamento, criação de cargos e remuneração de seus servidores diretamente ao Congresso Nacional, o que torna a aprovação da medida uma questão em aberto mas não improvável.

Os ocupantes dessas funções assumem responsabilidades que transcendem as atribuições inerentes aos cargos efetivos, respondendo pela condução de equipes altamente especializadas e pela gestão de riscos institucionais relevantes
— Vital do Rêgo, presidente do TCU, na exposição de motivos do projeto
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