Taxas curtas caem e longas sobem em sessão antes do primeiro turno eleitoral

Quando as pesquisas favorecem Lula, as taxas longas sobem
O mercado brasileiro precifica desconfiança fiscal em uma possível reeleição do presidente.
Mark

Por que as taxas curtas caem enquanto as longas sobem? Isso não é contraditório?

Mimi

Não é contraditório, é revelador. As curtas caem porque os dados econômicos fracos — a queda da indústria, o payroll fraco — sugerem que talvez os juros não subam tão rápido no curto prazo. Mas as longas sobem porque o mercado está preocupado com o que um governo Lula reeleito faria com as contas públicas nos próximos anos.

Luke

Mas espera — o mercado "desconfia" de Lula, certo? Isso é uma caracterização que aparece no texto, mas é baseado em quê exatamente? Em conversas informais com profissionais? Não há números que mostrem posições de mercado mudando.

Mimi

É verdade, é baseado em conversas com profissionais. Mas é um padrão consistente: quando as pesquisas favorecem Lula, as taxas longas sobem. Quando favorecem Flávio, tendem a cair. Isso é observável.

Mark

E quanto aos dados econômicos? A indústria caiu, o emprego americano foi fraco. Isso deveria ter puxado as taxas para baixo em toda a curva, não?

Mimi

Deveria, e puxou no início do dia. Mas conforme a tarde avançava, o fator político começou a dominar. Os investidores estavam se posicionando antes do domingo. O dado econômico é importante, mas a eleição é mais importante neste momento.

Luke

Quanto tempo esse efeito dura? Ou seja, depois do domingo, quando soubermos o resultado, essas taxas longas voltam a cair se Lula ganhar? Ou elas já estão precificando uma vitória dele?

Mimi

Essa é a pergunta de um milhão de reais. O mercado já está precificando uma vitória de Lula, sim. Mas se ele ganhar com margem maior do que esperado, ou se suas primeiras sinalizações forem mais rigorosas com o fiscal, as taxas podem recuar.

Mark

E se Flávio ganhar o primeiro turno?

Mimi

Aí as taxas longas provavelmente caem significativamente. Seria uma surpresa para o mercado, e uma surpresa positiva do ponto de vista de quem está preocupado com o fiscal.

Luke

Mas Flávio está em 38% no primeiro turno, segundo o Datafolha. A margem de erro é de dois pontos. Ele não está tão longe de Lula quanto parece.

Mimi

Não está. Mas Lula tem 42%. Tecnicamente empatados, sim, mas Lula está à frente. E nas pesquisas de segundo turno, a vantagem dele é mais clara.

Mark

O que o cancelamento do debate da TV Globo muda nessa história?

Mimi

Muda o narrativo político imediato. Flávio desistiu de ir, a Globo cancelou. Lula fez entrevista em podcast. Para o mercado, isso foi lido como um ponto para Lula — ele manteve a iniciativa, Flávio recuou.

Luke

Mas isso é especulação sobre o impacto político. O que sabemos é que as taxas subiram depois disso. Não sabemos se foi por causa disso ou por causa da pesquisa do Datafolha que saiu na véspera.

  • O payroll americano de setembro veio com apenas 29 mil vagas criadas, muito abaixo das 90 mil esperadas, derrubando os rendimentos dos Treasuries e arrastando as taxas futuras brasileiras no início do pregão.
  • A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto, contrariando projeções de crescimento e adicionando uma camada doméstica de fraqueza econômica ao ambiente já tenso.
  • Pesquisa Datafolha mostrou Lula com 48% contra 45% de Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, ampliando a margem e acendendo o alerta na Faria Lima sobre o risco fiscal de uma reeleição.
  • A curva de juros se dividiu: DI janeiro 2028 caiu 7 pontos-base para 13,495%, enquanto DI janeiro 2035 subiu 3 pontos-base para 14,145%, sinalizando nervosismo crescente com o horizonte de médio e longo prazo.
  • O mercado encerrou o pregão precificando dupla incerteza — uma eleitoral, outra global —, com o Treasury de dez anos subindo 5 pontos-base para 5,281% no exterior.

Na véspera de um primeiro turno eleitoral, o mercado brasileiro de renda fixa revelou, por meio de movimentos contraditórios nas taxas de juros, aquilo que os números raramente dizem com clareza: o presente pode ser gerenciado, mas o futuro inspira temor. Dados fracos do mercado de trabalho americano e da indústria brasileira pressionaram as taxas curtas para baixo, enquanto pesquisas eleitorais favoráveis a Lula empurraram as longas para cima — cada extremo da curva contando uma história diferente sobre o risco que os investidores estão dispostos a carregar.

Na sexta-feira que antecedeu o primeiro turno das eleições brasileiras, o mercado de renda fixa operou em dois registros simultâneos e opostos. As taxas curtas caíram; as longas subiram. O padrão dizia menos sobre a economia do dia e mais sobre o que os investidores temiam que viesse depois.

O pregão começou sob pressão externa. O IBGE revelou que a produção industrial brasileira contraiu 0,6% em agosto ante julho e 1,2% ante o mesmo mês do ano anterior — quando os economistas esperavam crescimento. Quase ao mesmo tempo, os Estados Unidos anunciaram a criação de apenas 29 mil empregos em setembro, muito abaixo das 90 mil projetadas, com desemprego em 4,2%. O payroll fraco derrubou os rendimentos dos Treasuries e puxou as taxas futuras brasileiras para baixo nas primeiras horas.

Mas conforme a tarde avançava, a política tomou o lugar da economia. Na noite anterior, o Datafolha havia mostrado Lula com 48% das intenções de voto num eventual segundo turno, contra 45% de Flávio Bolsonaro — margem ampliada de dois para três pontos em relação à pesquisa anterior. No primeiro turno, Lula marcava 42% e Flávio 38%. Para o mercado financeiro, a perspectiva de reeleição de Lula representa risco fiscal e, por extensão, pressão inflacionária. Quando as pesquisas apontam nessa direção, a curva longa reage.

O resultado foi uma sessão dividida: DI janeiro 2028 fechou em 13,495%, queda de 7 pontos-base; DI janeiro 2035 subiu para 14,145%, alta de 3 pontos-base. No exterior, após o choque inicial do payroll, os Treasuries voltaram a subir, com o papel de dez anos encerrando em 5,281%. Mercado global e mercado brasileiro precificavam, cada um à sua maneira, a mesma coisa: incerteza.

Na sexta-feira que antecedeu o primeiro turno das eleições brasileiras, o mercado de renda fixa brasileiro viveu um dia de movimentos contraditórios. As taxas de curto prazo caíram, enquanto as de longo prazo subiram — um padrão que revelava menos sobre a economia e mais sobre o que os investidores temiam que viesse a seguir.

O dia começou com notícias ruins de fora. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que a produção industrial brasileira havia contraído 0,6% em agosto na comparação mensal, e recuado 1,2% ante agosto do ano anterior. Os economistas que responderam à pesquisa da Reuters esperavam crescimento: 0,1% no mês e 0,4% no ano. Quase simultaneamente, os Estados Unidos anunciaram que haviam criado apenas 29 mil postos de trabalho em setembro, quando a projeção era de 90 mil. A taxa de desemprego ficou em 4,2%, acima dos 4,1% esperados. Esses números fracos — especialmente o payroll americano — fizeram os rendimentos dos Treasuries despencar nas primeiras horas, puxando para baixo as taxas futuras brasileiras também.

Mas o mercado não se move apenas por dados econômicos. Conforme a tarde avançava, os investidores começaram a se reposicionar diante da incerteza eleitoral que se aproximava. A taxa do DI para janeiro de 2028 fechou em 13,495%, uma queda de 7 pontos-base ante a sessão anterior. Já a taxa para janeiro de 2035 subiu para 14,145%, ganhando 3 pontos-base. Essa divergência — curtas caindo, longas subindo — é o sinal de quem está nervoso com o futuro próximo mas ainda mais nervoso com o que vem depois.

O nervosismo tinha nome e endereço. Na noite de quinta-feira, o Datafolha havia divulgado números que desagradaram a Faria Lima. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparecia com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 45% de Flávio Bolsonaro. Tecnicamente empatados pela margem de erro de dois pontos percentuais, Lula havia ampliado sua vantagem numérica de dois para três pontos em relação à pesquisa anterior. No primeiro turno, Lula tinha 42% e Flávio 38%, com Augusto Cury em terceiro lugar com 4%. Ainda na quinta, Flávio desistiu de participar do debate da TV Globo, levando a emissora a cancelar o evento. Enquanto isso, Lula concedia entrevista ao podcast Flow.

Para boa parte dos agentes de mercado, a perspectiva de uma reeleição de Lula representa um obstáculo ao controle das contas públicas e, por extensão, ao combate à inflação. Quando as pesquisas mostram Lula ganhando — especialmente quando a margem se amplia — o mercado reage com desconfiança. Isso se traduz em pressão altista na curva de juros brasileira, particularmente nas taxas mais longas, que refletem a avaliação do risco fiscal de médio e longo prazo. Profissionais ouvidos pela Reuters reconheciam que a falta de certeza sobre quem venceria a disputa presidencial, combinada com notícias políticas desfavoráveis ao candidato preferido do mercado, criava um ambiente de cautela.

Durante a tarde, as taxas curtas voltaram a ceder enquanto as longas se mantiveram elevadas, um padrão que se repetiu até o fechamento. No exterior, após o impacto inicial do payroll americano, os rendimentos dos Treasuries voltaram a subir, continuando o movimento recente de elevação dos prêmios na curva norte-americana. O rendimento do Treasury de dez anos — a referência global para decisões de investimento — subia 5 pontos-base, fechando em 5,281%. O mercado global e o mercado brasileiro estavam, cada um à sua maneira, precificando incerteza.

Profissionais ouvidos pela Reuters ponderaram que, além da falta de certeza sobre quem vencerá a disputa presidencial, o noticiário político da noite de quinta-feira foi desfavorável para o senador Flávio Bolsonaro
— Profissionais de mercado consultados pela Reuters
No mercado, Lula ainda é visto com desconfiança por boa parte dos agentes, que enxergam sua reeleição como um empecilho para o controle das contas públicas e, consequentemente, da inflação
— Análise de mercado
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